Humberto Pinho da Silva
Meu avô acabara de sair do
semanário "A Paz", onde era editor. Ao passar diante da farmácia do
Dr. Gonçalves, este vendo-o corado, disse-lhe: "É melhor consultar o
médico. Anda por aí a gripe espanhola!...”
Pouco depois faleceu de
pneumonia, devido terem-lhe aplicado medicamento a que era alérgico.
Meu pai sentindo-se doente
consultou clínico respeitado. Este recomendou-lhe que devido à idade era melhor
tomar medicamento para dilatar as veias capilares. Sentindo as pernas inchadas
e humedecidas avisou o clínico. Este recomendou-lhe estender as pernas....
Pouco depois, faleceu com problemas renais.
O jornalista Santos Lessa
escreveu no seu periódico no dia do falecimento:
"Pinho da Silva há
muito que estava doente, praticamente imobilizado, devido a erro médico. Na
última missiva dizia-nos, talvez prevendo o desenlace para breve: "Estou
cada vez mais doente da intoxicação que o médico me arranjou."
Minha mãe sentiu forte dor
de cabeça. Disseram-lhe que era do fígado; que era do estômago; que era do
baço; até psiquiatra lhe disse que era psíquico.
Fez exames. Tirou
radiografias e análises, nada resultou. Foi de veraneio para o interior.
Indicaram-lhe clínico de grande presteza. Foi. Após aturados exames disse-lhe:
”Não descobri nada! Já fez o exame ao fundo ocular?”
Descobriram que era tumor cerebral bastante adiantado. Faleceu em 1968.
Certa ocasião acordei com
forte dor no cotovelo esquerdo. O ortopedista concluiu haver nervo trilhado.
Era necessário operar. Mas, antes, tinha de fazer exames.
Fui. Atendeu-me médica
muito velhinha e simpática. Contei-lhe a minha desgraça, e perguntei-lhe a
opinião. Respondeu-me: que não era ético:" O seu ortopedista é que
sabe."
Como sabia que tinha
filhos e netos, teimei: "Se fosse seu filho, o que me aconselharia?"
Declarou serenamente: "Se fosse meu filho... Não fazia, não senhor, porque
lesões dessas podem passar em dois ou três meses..." Assim aconteceu.
Meu médico assistente ao
ver o resultado das análises, disse-me: "O PSA está alto, é bom consultar
o urologista.” Este mandou-me repetir a análise.
Entretanto, almocei com o
amigo Miguel, a quem narrei a minha tragédia. Contou-me que conhecia homem que,
com sementes de abóbora, conseguira baixar o PSA. Segui o conselho, e a nova
análise estava normal!
Contei o sucedido a médico
amigo, confessou-me: "Também tomo diariamente uma dose de
sementes..."
Meu pai era amigo de
excelente médico, mas tinha poucos doentes, porque estes não gostavam que
recomendasse para refreados chazinho de limão ou de cidreira!...
Nada tenho contra a classe
médica, nem a costumo criticar, como fazia Molière. Meu irmão era médico.
Possuía vários diplomas, louvores e prêmios, nacionais e internacionais. Quando
conversávamos sobre erros médicos, dizia-me: "Todos erramos!... Por desconhecimento
ou descuido!..." 
Le Malade imaginaire, Honoré Daumier
No século passado escrevi
artigo em louvor dos médicos-sacerdotes de outrora, citando alguns. O Professor
Doutor Almeida Garrett, in "A Ordem" (30/9/94), discordou em parte do
meu parecer; não deixando, porém, de afirmar que tinha alguma razão.
Espero que trinta e dois
anos depois, não apareça clínico ofendido, porque não foi, nem é, essa a
intenção.
Título e Texto: Humberto Pinho da Silva, agosto de 2026
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