domingo, 9 de agosto de 2026

Dia dos Pais para todos. Menos para um

Condenados pelos crimes mais brutais do país passam o Dia dos Pais em casa. O ex-presidente não pode abraçar os próprios filhos

Rogerio Pires 

Hoje é Dia dos Pais. E antes de qualquer outra coisa, quero homenagear todos os pais brasileiros. Os que acordam cedo, os que chegam tarde, os que criam sozinhos, os que se desdobram para estar presentes. A data é deles.

Mas existe um pai, neste domingo, que a Justiça brasileira proibiu de receber os próprios filhos.

Jair Bolsonaro, que cumpre pena de 27 anos e 3 meses em prisão domiciliar, pediu ao Supremo Tribunal Federal autorização para receber Flávio, Carlos e Jair Renan na tarde do Dia dos Pais. A defesa foi clara: tratava-se de um pedido excepcional, de caráter humanitário e familiar, apenas para preservar o vínculo entre um pai e seus filhos, pelo tempo e nas condições que o ministro entendesse cabíveis.

Alexandre de Moraes negou.

No despacho publicado neste sábado, o ministro julgou o pedido prejudicado, lembrando que as visitas ao ex-presidente estão suspensas por 30 dias desde 17 de julho, com exceção apenas de médicos, fisioterapeutas e advogados. A suspensão foi imposta depois que Flávio Bolsonaro leu publicamente uma carta escrita pelo pai, o que Moraes considerou descumprimento das medidas cautelares. Essa é a justificativa oficial, e ela precisa ser registrada aqui, porque jornalismo sério registra os dois lados.

Registrado o outro lado, vamos ao que ele não explica.

Suzane von Richthofen, condenada a 39 anos de prisão pelo assassinato dos próprios pais, cumpre pena em regime aberto desde janeiro de 2023. Vive no interior de São Paulo, casou-se, teve um filho, cursa faculdade de Direito.

Alexandre Nardoni, condenado pela morte da filha Isabella, progrediu ao regime aberto em 2024. Ana Carolina Jatobá, condenada pelo mesmo crime, também já deixou o regime fechado.

Elize Matsunaga, condenada pelo homicídio e esquartejamento do marido, está fora da prisão desde 2022 e hoje trabalha como motorista de aplicativo.

E tem mais.

Neste exato fim de semana, mais de 1.500 presos do regime semiaberto do Distrito Federal receberam autorização da Vara de Execuções Penais para a saída temporária do Dia dos Pais. Saíram na quinta-feira e só precisam voltar na segunda. Isso apenas no DF. Some as varas de execução de todos os estados, como o Maranhão, que liberou quase mil detentos só na comarca de São Luís, e o número de beneficiados pelo saidão em todo o país chega facilmente às dezenas de milhares. Vale lembrar: na primeira saidinha do ano, em fevereiro, 16 presos do DF simplesmente não voltaram.

Ou seja: o condenado por roubo sai pelo portão da frente para almoçar com a família. A mulher que matou os próprios pais a pauladas passa o Dia dos Pais em casa, em regime aberto. O pai condenado pela morte da própria filha também. E o ex-presidente da República, um homem de 71 anos, com a saúde debilitada, preso dentro da própria casa, não pode receber os três filhos por algumas horas, sob as condições que o próprio ministro definisse.

Não estou pedindo qualquer tipo de privilégio para Bolsonaro. Estou pedindo um pouco de isonomia. A Lei de Execução Penal, a mesma que fundamenta a suspensão das visitas, é a mesma que garante saidões, progressões e regimes abertos a milhares de condenados por crimes hediondos. Se a lei é generosa com todos, por que é implacável com um só? E se a preocupação é eleitoral, já que Flávio é candidato à Presidência, desde quando um abraço de Dia dos Pais, dentro de casa, sem câmeras e sem redes sociais, ameaça a ordem pública?

Justiça que não é igual para todos não é Justiça. É outra coisa, que a história costuma chamar por outros nomes.

Milhares de presos nas ruas neste domingo. Um pai proibido de ver os filhos.

Para você, isso é Justiça?

Título, Imagem e Texto: Rogerio Pires, Timeline, 9-8-2026 

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