Aparecido Raimundo de Souza
PARAMÉLIO resolveu ligar para uma dessas acompanhantes de executivos que infestam os classificados dos jornais. Queria passar algumas horas com alguém diferente, uma jovem travestida na pele de uma cortesã com quem pudesse aparecer em público, ir a um bom restaurante, jantar como um casal romântico, à luz de velas, tomar um vinho, quem sabe dançar um pouco e, depois, bem, depois partir para as coisas boas que a tentação da carne oferece. Agradou de uma tal de Paloma. “18 anos, seios pequenos, olhos verdes, BB empinado, insaciável, massagem promoção”. Bingo! Discou para o celular que aparecia logo abaixo do nome e de suas características.
— Paloma, boa noite.
— Boa noite!
— Pois não? Com quem falo?— Paramélio Fiambrudo.
— De onde?
— Aqui de Copacabana. Vi seu telefone e me interessei. Você é como está no anúncio?
— Sem tirar nem por. Loira, cabelos compridos, olhos verdes, bundinha empinada, seios pequenos e fartos. Faço tudo. Libero geral. Barba, cabelo, bigode, cavanhaque, costeletas e sobrancelhas. Levo você às nuvens...
— E depois traz de volta?
— Engraçadinho!
— Quantos anos?
— Dezoito.
— Suas medidas são essas que estou lendo aqui?
— Sim. Tenho 1.70 de altura, 35 quilos, 60 centímetros de quadril...
— Gostaria de sair comigo e jantar fora?
— Você quer fazer um programa?
— Na verdade... na verdade queria alguém que me acompanhasse a um desses restaurantes aconchegantes, onde pudéssemos jantar como dois pombinhos...
— Cobro R$ 3 mil reais.
— Não estou interessado em quanto você cobra. Antes saber se está entusiasmada e aberta para alguma coisa diferente. Um fim de noite fora dos convencionais a que está acostumada, se é que entende o que digo.
— Não. Sou homem e muito macho. Gosto da coisa ao vivo e a cores, pode acreditar. Ao me referir a um fim de noite fora dos convencionais eu pensava em sair com você como se fôssemos um...
— Você me parece carente...
Risos.
— O que foi que falei de engraçado?
— Nada.
— Para os carentes é mais caro ou tem algum abatimento?
— Não faço nenhuma restrição ou distinção. Meu preço...
— Como você é mercenária. Só fala em dinheiro, só pensa em grana. Credo!
— Sem ele não se sobrevive, meu amigo. Acho que ninguém...
— O dinheiro não é tudo.
— Mas ajuda um bocado.
— Então, chegamos a um consenso?
— Você tem carro?
— Sim.
— Pode vir agora?
— Perfeitamente. Basta dizer aonde
— Encontro você na esquina da Avenida Atlântica com a Rua Souza Lima, próximo da Galeria Alasca. Sabe onde é?
— Conheço Copacabana como a palma da minha mão. Essa Rua, a Souza Lima é pertinho aqui da Sá Ferreira, onde estou agora. Como te reconhecerei?
— À primeira vista. Vou estar com meu carro parado e o pisca alerta ligado na esquina da calçada da Souza Lima, lado direito de quem segue em direção ao Forte. Aposto que ficará encantando com o que verá pela frente... e a ti, como saberei que é a garota que procuro?
— Estou acondicionada num vestido vermelho acima dos joelhos e uma blusa branca. Para não haver dúvidas, colocarei no pescoço um lenço cor de rosa. Qual é o seu carro?
— Um Lamborghini Gallardo vermelho...
— Nunca ouvi falar nessa marca de automóvel...
— Poucos o possuem no Brasil. Meu carro é equiparado a uma... uma Ferrari.
Risos.
— Fala sério!
— Esteja lá e verá que não estou blefando.
— Um cara com uma quase Ferrari – disse de si para si, Paloma, e atrás de uma prostituta? Vou fingir que acredito. Meu presado, daqui a vinte minutos está bom para você?
— Perfeito.
Quando Paramélio viu pelo retrovisor a tal da Paloma se aproximando, deu uma buzinadinha. Paloma encantadamente boquiaberta ao se deparar com aquela carreta italiana no local combinado, sorriu.
— Mais um “pato” que vou depenar... esse não tem cara de pobretão...
Ambos, a bem da verdade, ficaram submergidamente espantados. Ela, com a máquina que o seu futuro cliente pilotava e ele, por sua vez, igualmente boquiaberto e entupigaitado com a beleza e a garbosidade da moça. A safada, apesar de meretriz de carteirinha, um tremendo de um avião.
Sua atração, como um todo, chegava a ser quase hipnótica. Lembrava uma boneca de vitrine de boutique sofisticada, tão perfeita que seus traços se acasalavam maviosamente com o impecável ondulante das curvas sinuosas.
Trazia no conjunto uma pecaminosidade muito leve presentes no decote ousado contrastando com o vestido bem curto com um rasgo minúsculo, quase imperceptível e provocante aberto num dos lados por uma fenda que lhe revelava a maciez das pernas fartas. Realmente uma fêmea indiscutível e indescritível. E aquele lenço cor de rosa em volta do pescoço...
— Olá, você deve ser o Paramélio, disse ela se aproximando?
— Fiambrudo. Paramélio Fiambrudo, em carne e osso.
— Paloma. Muito prazer.
Num gesto de delicadeza, Paramélio apertou um botão no painel, ao tempo em que esticou o braço esquerdo e abriu a porta.
— Entre...
— Primeiro combinemos o preço que lhe falei pelo celular e quantas horas eu ficarei a sua disposição.
— Ora, relaxe, entre e se acomode. Não vou dar o cano.
— Assim ou nada feito.
— Três horas, está bem?
— Para mim tudo ok. Passe a grana. Três mil reais.
— Aqui, assim, no meio da rua?
— É pegar ou largar. Não gostou do visual?
— Posso lhe fazer uma pergunta?
— Até duas...
— Por que você não é um pouco mais romântica e gentil?
— Romantismo é dinheiro aqui dentro das entranhas da minha calcinha, amigo. Quando vejo um monte de notas de duzentos reais, passo a ser generosa e gentil... entre outras coisas. Seu belo carrão, apesar de ser espetacular, não me enche os olhos.
—Mata uma curiosidade. Se depois do jantar — só para saber, não quero dizer que vá colocar em prática — se depois do jantar — eu lhe pedisse uma seção de sadomasoquismo, estaria disposta a colaborar?
A beldade se abriu num sorriso maroto, pensou um pouco antes de responder:
— É para você me bater, ou o seu tesão aumenta apanhando?
— Qual a diferença?
— Se for para eu te sentar o cacete, mais R$ 500 reais.
— Nossa! E para eu te descer o pau até as suas carnes pedirem socorro?
A rapariga fez um gesto gracioso e fingiu uma provocação ensaiada, seguida de um sorriso zombeteiro que se formou em seu rosto de cinderela.
— Você bate muito, tipo assim, costuma machucar, deixar marcas, essas coisas?
— Não. Não deixo marcas, nem lesiono. Ainda mais uma pele macia e aveludada como a sua. Geralmente uso um cassetete de borracha. Esse aqui. Olha só o tamanho do bicho...
Juntando as palavras ao gesto, Paramélio puxou de baixo do banco do carona um bastão de borracha maciça desses que os policiais militares usam quando estão em serviço e o exibiu à Paloma. E completou estranhamente eufórico:
— Ganhei de um primo meu que é policial. Prometo solenemente que encaçaparei seu corpinho escultural com carinho, obviamente até você me devolver o dinheiro que lhe pagarei...
Paloma, de repente escondeu a magia do semblante alegre. Ficou pálida, muda, séria e silenciosa. Empurrou, com força bruta, a porta do carro e deu alguns passos atrás. Encarou Paramélio pela janela:
— Isso é alguma brincadeira? Ta tirando um sarro com a minha cara?
Paramélio antes de responder, saiu ao encontro dela. Vista de perto, o pedaço do caminho da perdição lhe pareceu mais bonito ainda. Os olhos eram esplendorosos, emoldurados por cílios longos e escuros. O perfume que exalava dos seus cabelos a tornava mais voluptuosa e desejada.
— Paloma, só estava brincando. Deixa de bobeira, vamos sair, numa boa...
O encantamento dela, todavia, vista ao reflexo da lua clara que inundava o céu e o mar da Praia de Copacabana, se espalhou por todo o corpo, como uma sombra estranha motivada por um medo tétrico que, no minuto seguinte, se engrandeceu sobre o seu rosto jovem e bem torneado como se tivesse sido esculpido pelos olhos mansos das mãos do Criador.
— Estou indo embora. Boa noite.
Paramélio tentou segura-la pelo braço:
— Venha comigo. Por favor... estava brincando... me perdoa, Paloma, me perdoa se a assustei...
Não teve jeito. A deusa maviosa de curvas harmoniosas desistiu do seu intento. Acenou para um táxi e sumiu na poeira, deixando, no ar, um sentimento de repulsa imensurável saído dos seus olhos espantados. No rosto de Paramélio, igualmente um vazio mortiço atrelado a uma interrogação indescritível.
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Belo Horizonte, nas Minas Gerais, 21-8-2026
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