Aparecido Raimundo de Souza
EXISTE UM órgão flexível dentro de nossa boca conhecido como “língua”.
Ela serve para auxiliar na mastigação dos alimentos, na deglutição, no paladar
e o mais importante, no auxílio direto ao milagre da fala. Todavia, além desse
órgão muscular e sensorial, existe uma outra língua, ou seja, aquela que não
fala, mas diz tudo. É a língua dos que se comunicam, ou melhor dito, dos que
falam, ou que dão o recado com as mãos, com os olhos, com o corpo inteiro e
que, curiosamente, são muitas vezes os que mais escutam, os que mais sentem, os
que mais dizem sem precisar abrir a boca ou berrar. E nós, simples expectadores
que temos a fala fácil, bastando apenas abrimos a matraca e interagirmos,
passamos a vida inteira reclamando de quem fala demais, de quem fala de menos,
de quem não entende o que dizemos, bem ainda de quem não nos ouve direito.
Na verdade, reclamamos do silêncio, reclamamos do barulho, reclamamos até
de nossa própria voz. E enquanto nos perdemos nessas queixas e lamentações,
algazarras e vozearias, os que não falam absolutamente coisa alguma seguem se
comunicando com uma clareza inverossímil que nos deveria dar, pelo menos, uma
gota da mais pura e aclarada vergonha. Eu vejo nos interiores dos ônibus, nas
praças, nas ruas, nos supermercados, nas filas dos cinemas, praticamente em
todos os lugares, pessoas de todas as idades que falam com as mãos. E o mais interessante e espantoso. Esses
seres não interagem devagar, como se estivessem explicando o óbvio. Se
comunicam rápidos e rasteiros, se contagiam cheios de vida, os dedos das mãos
dançando no ar engenhosamente ao tempo em que seus rostos iluminados por uma
vitalidade ímpar nos embriagam com uma impressão maviosa, como se cada gesto
carregasse um mundo inteiro de histórias sem fim.
E as pessoas que as ouvem (ou melhor dito, às que as veem) também
respondem assim, e entre eles não ha ruídos, não procrastina o mal-entendido,
não cria vida a confusão desordenada e martirizante que a gente faz quando
falamos demais e dizemos de menos. Do meu lado, outro dia, no metrô paulista,
um homem reclamava ao celular: “Não, não é isso! Você nunca me entende!”. E o
sujeito tagarelava, e grulhava, e quanto mais cacarejava, mais distante parecia
o outro, do lado oposto da linha de ser compreendido. E ali, a poucos passos,
num banco próximo de mim, um casal de namorados sem palavras se entendiam e se
completavam perfeitamente numa harmonia inebriante que encantava os olhos. Os
gestos dos que não falam, quero crer, são mais sinceros e espontâneos, talvez,
porque esses seres divinizados não tenham como esconder o que sentem atrás de
frases inventadas e acaloradas ou rebuscadas de palavras bonitas.