domingo, 16 de agosto de 2026

Aberta a temporada de caça ao voto

As campanhas eleitorais, que deveriam propor alternativas e discutir o futuro, acabaram se reduzindo, no Brasil, a um acerto de contas com o passado

Nuno Vasconcellos 

Quem se habituou a olhar a política brasileira como um poço de defeitos terá, a partir de hoje, motivos para se sentir ainda mais desanimado. Embora as candidaturas já estejam nas ruas desde o ano passado, foi dada a largada oficial da campanha para as eleições deste ano. De agora em diante, os candidatos poderão deixar de lado a linguagem cifrada que utilizaram até aqui e se dirigir sem subterfúgios ao eleitor para pedir o voto.

Antes de prosseguir, é preciso deixar claro um aspecto fundamental. A campanha eleitoral é extremamente importante e, por essa razão, deve ser acompanhada com lupa. Não existe democracia sem eleição, da mesma forma que não existe eleição sem campanha. Esta é, portanto, uma hora decisiva, em que os políticos fazem de tudo para conquistar a confiança e o voto do eleitor. O momento em que precisam deixar claro não apenas o que têm a oferecer à sociedade, mas, também, aquilo que os diferencia dos adversários. Até aqui, tudo bem.

A HORA DA “DESCONSTRUÇÃO”

O problema é que, a cada campanha, o debate no Brasil tem se reduzido a uma troca de acusações permanente — em que as narrativas se mostram mais importantes do que os fatos. As campanhas no Brasil têm sido marcadas por situações em que as propostas políticas muitas vezes são mantidas ocultas atrás das estratégias de marketing. E, muitas vezes, adotam estratégias que, em vez de ressaltar as propostas do candidato, se concentram em criar embaraços e a “desconstruir” a imagem do adversário.

“Desconstruir”, no dicionário das campanhas, nada mais é do que jogar no ventilador os defeitos do oponente. Simples assim. Nesse ambiente, o eleitor pode ir se preparando para, nas próximas semanas, presenciar debates acalorados, mas pouco esclarecedores. E, além disso, para testemunhar uma série de tentativas de espalhar todas as cascas de banana possíveis no caminho do adversário. Uma amostra dessa tendência foi dada na quinta-feira passada — quando veio à tona uma fraude que atingiu a campanha do senador Flávio Bolsonaro.


SERVIÇO SUJO

Ao levar ao TSE a documentação para registro da candidatura do filho de Jair Bolsonaro à Presidência da República, os advogados do PL foram informados de que ele estava em situação irregular. De acordo com os registros, Flávio teria deixado o partido e se filiado ao Missão — e não poderia, portanto, sair candidato pelo PL.

A primeira suspeita, logo afastada, foi a de que o sistema da Justiça Eleitoral tinha sido vítima de algum hacker. Logo, porém, surgiram indícios de que o serviço sujo partiu do próprio Missão.
A candidatura, no final das contas, foi registrada sem que o episódio tenha sido totalmente esclarecido. Casos como esse, independentemente de onde partam e a quem pretendam atingir, não podem ser tratados como meras traquinagens. Eles devem ser vistos como o que de fato são — ou seja, crimes. E, como tal, investigados e punidos. Se as dúvidas que surgirem não forem prontamente esclarecidas, o bate-boca e a troca de acusações que tem marcado a política brasileira ficará ainda mais quente e o clima ainda mais azedo.

ANDANDO EM CÍRCULOS

Seria bom que o Brasil não precisasse perder tempo discutindo molecagens como essa e se dedicasse ao debate de temas que, por mais importantes que sejam, nunca ocupam espaço central nas discussões eleitorais. Quer um exemplo? Vamos a ele!
O Ministério do Planejamento e Orçamento divulgou na terça-feira passada que o governo não dispõe de R$ 105,5 bilhões para cobrir as despesas assumidas para este ano — e que serão empurradas para 2027. Qualquer pessoa que já tenha passado na porta de uma faculdade de economia sabe que a consequência dessa prática, que é corriqueira no Brasil, é, no final das contas, mais pressão inflacionária. Embora a campanha eleitoral seja o momento adequado para se discutir esse assunto, ele tem tudo para ser solenemente ignorado.

Por quê? Ora... falar em falta de dinheiro a esta altura significa apontar o dedo para um assunto que os políticos preferem manter afastado do eleitor. O orçamento deste ano reservou R$ 4,9 bilhões para cobrir as despesas com a propaganda eleitoral do candidato — sem contar os R$ 110 milhões do dinheiro público que pingam nas contas dos partidos todo mês para bancar a manutenção das estruturas caríssimas que os mantém funcionando.

Embora falte dinheiro para tudo, para o fundo que financia as campanhas eleitorais e para os partidos políticos, nunca faltou um tostão. O eleitor precisa discutir essas questões e definir suas prioridades. Do contrário, terá a sensação de que o Brasil está andando em círculos e que a situação será a mesma, senão pior, daqui a quatro anos — quando ele for novamente chamado escolher seus governantes.

Título, Imagem e Texto: Nuno Vasconcellos, O Dia, 16-8-2026 

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