As campanhas eleitorais, que deveriam propor alternativas e discutir o futuro, acabaram se reduzindo, no Brasil, a um acerto de contas com o passado
Nuno Vasconcellos
Quem se habituou a olhar a política
brasileira como um poço de defeitos terá, a partir de hoje, motivos para se
sentir ainda mais desanimado. Embora as candidaturas já estejam nas ruas desde
o ano passado, foi dada a largada oficial da campanha para as eleições deste
ano. De agora em diante, os candidatos poderão deixar de lado a linguagem
cifrada que utilizaram até aqui e se dirigir sem subterfúgios ao eleitor para
pedir o voto.
Antes de prosseguir, é preciso deixar
claro um aspecto fundamental. A campanha eleitoral é extremamente importante e,
por essa razão, deve ser acompanhada com lupa. Não existe democracia sem
eleição, da mesma forma que não existe eleição sem campanha. Esta é, portanto,
uma hora decisiva, em que os políticos fazem de tudo para conquistar a
confiança e o voto do eleitor. O momento em que precisam deixar claro não
apenas o que têm a oferecer à sociedade, mas, também, aquilo que os diferencia
dos adversários. Até aqui, tudo bem.
A HORA DA “DESCONSTRUÇÃO”
O problema é que, a cada campanha, o
debate no Brasil tem se reduzido a uma troca de acusações permanente — em que
as narrativas se mostram mais importantes do que os fatos. As campanhas no
Brasil têm sido marcadas por situações em que as propostas políticas muitas
vezes são mantidas ocultas atrás das estratégias de marketing. E, muitas vezes,
adotam estratégias que, em vez de ressaltar as propostas do candidato, se
concentram em criar embaraços e a “desconstruir” a imagem do adversário.
“Desconstruir”, no dicionário das campanhas, nada mais é do que jogar no ventilador os defeitos do oponente. Simples assim. Nesse ambiente, o eleitor pode ir se preparando para, nas próximas semanas, presenciar debates acalorados, mas pouco esclarecedores. E, além disso, para testemunhar uma série de tentativas de espalhar todas as cascas de banana possíveis no caminho do adversário. Uma amostra dessa tendência foi dada na quinta-feira passada — quando veio à tona uma fraude que atingiu a campanha do senador Flávio Bolsonaro.
SERVIÇO SUJO
Ao levar ao TSE a documentação para
registro da candidatura do filho de Jair Bolsonaro à Presidência da República,
os advogados do PL foram informados de que ele estava em situação irregular. De
acordo com os registros, Flávio teria deixado o partido e se filiado ao Missão
— e não poderia, portanto, sair candidato pelo PL.
A primeira suspeita, logo afastada,
foi a de que o sistema da Justiça Eleitoral tinha sido vítima de algum hacker.
Logo, porém, surgiram indícios de que o serviço sujo partiu do próprio Missão.
A candidatura, no final das contas, foi registrada sem que o episódio tenha
sido totalmente esclarecido. Casos como esse, independentemente de onde partam
e a quem pretendam atingir, não podem ser tratados como meras traquinagens.
Eles devem ser vistos como o que de fato são — ou seja, crimes. E, como tal,
investigados e punidos. Se as dúvidas que surgirem não forem prontamente
esclarecidas, o bate-boca e a troca de acusações que tem marcado a política
brasileira ficará ainda mais quente e o clima ainda mais azedo.
ANDANDO EM CÍRCULOS
Seria bom que o Brasil não precisasse
perder tempo discutindo molecagens como essa e se dedicasse ao debate de temas
que, por mais importantes que sejam, nunca ocupam espaço central nas discussões
eleitorais. Quer um exemplo? Vamos a ele!
O Ministério do Planejamento e Orçamento divulgou na terça-feira passada que o
governo não dispõe de R$ 105,5 bilhões para cobrir as despesas assumidas para
este ano — e que serão empurradas para 2027. Qualquer pessoa que já tenha
passado na porta de uma faculdade de economia sabe que a consequência dessa
prática, que é corriqueira no Brasil, é, no final das contas, mais pressão
inflacionária. Embora a campanha eleitoral seja o momento adequado para se
discutir esse assunto, ele tem tudo para ser solenemente ignorado.
Por quê? Ora... falar em falta de
dinheiro a esta altura significa apontar o dedo para um assunto que os
políticos preferem manter afastado do eleitor. O orçamento deste ano reservou
R$ 4,9 bilhões para cobrir as despesas com a propaganda eleitoral do candidato
— sem contar os R$ 110 milhões do dinheiro público que pingam nas contas dos
partidos todo mês para bancar a manutenção das estruturas caríssimas que os
mantém funcionando.
Embora falte dinheiro para tudo, para
o fundo que financia as campanhas eleitorais e para os partidos políticos,
nunca faltou um tostão. O eleitor precisa discutir essas questões e definir
suas prioridades. Do contrário, terá a sensação de que o Brasil está andando em
círculos e que a situação será a mesma, senão pior, daqui a quatro anos —
quando ele for novamente chamado escolher seus governantes.
Título, Imagem e Texto: Nuno Vasconcellos, O Dia, 16-8-2026
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