A pressão americana aumentou o custo da repressão no Brasil, mas a máquina continua operando contra opositores do regime
Leandro Ruschel
Há uma ilusão confortável na direita brasileira: a de que Washington pode resolver aquilo que o Brasil não teve coragem de desmontar por dentro.
A volta de Trump elevou o custo da
repressão no Brasil. Isso é verdade. O regime passou a ter de calcular melhor
seus passos, medir o desgaste internacional e lidar com uma pressão externa que
antes não existia.
Mas custo não é impedimento.
Os Estados Unidos nunca foram a causa
da liberdade brasileira. Foram, no máximo, um freio. E freio não muda a direção
do carro quando quem está ao volante continua sendo o mesmo regime.
Por isso a pergunta precisa ser
respondida com cuidado: se Trump não conseguir eleger seu sucessor, o Brasil
fica mais exposto?
Sim. Mas não porque Washington seja a
salvação. E sim porque o problema brasileiro continua de pé: a máquina interna
de censura, perseguição política, captura institucional e controle econômico.
Esse escudo tem três propriedades. E é
preciso entender as três juntas.
A primeira: ele encarece a repressão,
mas não a impede
Durante o período de pressão máxima,
Malafaia virou réu, Zema foi puxado para o inquérito, Flávio virou alvo de um
inquérito aberto por Moraes por causa de um post crítico a
Lula, Gayer virou réu, Van Hattem também foi denunciado.
Ou seja: a máquina não parou. Ela só
ficou mais cara de operar.
A segunda propriedade: ele é
negociável
As sanções contra Moraes foram revogadas em dezembro de 2025, com Trump no auge da força política, sem nenhuma eleição pelo caminho. Não caíram por fraqueza americana. Foram trocadas.
E o que foi combinado exatamente
ninguém sabe, porque o Itamaraty colocou tudo sob sigilo de cem anos.
A gente sabe que houve empresários
fazendo pressão, houve lobby, houve negociação. E as medidas caíram.
A terceira propriedade: ele tem prazo
O mandato de Trump termina em 20 de
janeiro de 2029. E, em novembro deste ano, os Estados Unidos têm eleições de
meio de mandato que podem deixá-lo muito mais amarrado se ele perder o controle
da Câmara, do Senado ou das duas casas.
Portanto, estamos falando de um
instrumento que encarece, mas não impede; que já foi trocado uma vez; e que
pode ter data para acabar se a sucessão de Trump não for feita por alguém
alinhado à sua visão política.
Agora, o que está concretamente em
jogo se o establishment reconduzir o Descondenado?
O Supremo de hoje já é produto de uma
coalizão entre PT e Centrão.
Não é um tribunal petista puro. É um
arranjo. E é exatamente por isso que ele oscila. Ora aperta, ora abre um pouco
a válvula, conforme a conta política do momento.
Nós temos que entender que o Centrão
não tem o mesmo projeto autoritário do PT.
Claro que eles gostam da repressão a
quem fala mal de político. Mas não é o mesmo projeto chavista que o PT tem.
O que quatro indicações fazem não é
criar a captura.
Uma certa captura já existe.
O que elas fazem é tirar o Centrão do
jogo e entregar a balança inteira nas mãos do PT.
E são quatro vagas mesmo.
Uma vaga está aberta desde outubro de
2025, com a saída de Barroso. Lula indicou Jorge Messias, e o Senado rejeitou
por 42 a 34. Alcolumbre prometeu à oposição que a escolha caberá a quem ganhar
em outubro.
Aquela cadeira virou prêmio da
eleição.
E muito da resistência a Messias vem
justamente do Centrão percebendo que a indicação de mais soldados de Lula no
Supremo pode mudar completamente a balança.
Essa sociedade em que o PT
aparentemente é sócio minoritário pode virar uma sociedade em que o Centrão
fica como sócio minoritário.
E veja quem sai primeiro: Fux, em
abril de 2028.
O único que rompeu com a máquina,
reverteu os próprios votos e chamou pelo nome os julgamentos de fachada que
condenaram os presos de 8 de janeiro.
Cármen Lúcia sai em abril de 2029.
Gilmar Mendes sai em dezembro de 2030.
A primeira dessas cadeiras a vagar é
justamente a de Fux, a cadeira que quebrou aquele bloco que garantia as
condenações do 8 de janeiro.
E aqui eu preciso ser claro sobre uma
coisa que a Faria Lima não entende.
A destruição da economia não é
incompetência. É objetivo.
Não é teoria. É o método de todo
partido revolucionário de esquerda que chegou ao poder.
Cuba e Venezuela não empobreceram por
acidente. Empobreceram porque povo dependente do Estado é povo controlado.
Quem depende da cartilha de
racionamento, do emprego público, da bolsa, de qualquer coisa, não faz
oposição.
A miséria não é um efeito colateral do
projeto. É instrumento, objetivo.
O pessoal da Faria Lima acredita que o
Centrão segura a bucha. Acredita que, sem maioria no Congresso, o pior não
acontece. E acredita principalmente que existem travas técnicas.
A autonomia do Banco Central, por
exemplo.
Então vamos falar dessa trava.
Em 2021, PT e PSOL foram ao Supremo
pedir a derrubada da Lei da Autonomia do Banco Central. Acabaram vencidos por
oito votos a dois.
Agora mude a composição do Supremo.
Uma mudança ali pode muito bem
facilitar a derrubada de qualquer coisa, inclusive da própria autonomia do
Banco Central ou de qualquer outra medida de responsabilidade fiscal.
Ou seja: é preciso ser muito ingênuo e
não ter nenhum conhecimento histórico para não enxergar que uma minoria
organizada, com controle gramsciano das instituições, tem
plenas condições de se impor a uma nação inteira.
Os empresários venezuelanos também
achavam que mantinham Chávez na rédea curta. Deu no que deu. Mas eu nem acho
que o cenário venezuelano seja o mais provável para o Brasil.
O mais factível é o argentino.
Explosão de gastos públicos, inflação,
fuga de capitais e, para conter a fuga, o fechamento da porta de saída.
Só que preste atenção no debate: no
Brasil essa porta não se fecha do jeito argentino.
Ela se fecha por dentro.
Tributação punitiva sobre remessa e
sobre ativo no exterior. Aperto sobre estrutura offshore. Direcionamento
compulsório de carteira para papel do governo.
É mais sutil. Não vira manchete. E
funciona da mesma forma.
O resultado é crescimento pífio,
liberdade individual encolhendo e criminalidade em alta, que talvez seja hoje o
principal problema brasileiro.
Então eu volto à pergunta inicial.
Não, não já era se Trump não eleger
seu sucessor, porque o problema do Brasil nunca esteve em Washington. Está no
ato institucional de 2019, que continua de pé, nas quatro cadeiras que serão
preenchidas, na crença de que basta ganhar uma eleição.
O escudo americano encarece a
repressão, é verdade. Mas não desmonta o regime por dentro.
Eu não acredito em implosão do Brasil.
Não vai ter um dia em que o país acorda na Venezuela e todo mundo percebe. O
sapo vai continuar sendo cozido lentamente na panela. E é justamente por isso
que o próximo mandato é mais perigoso do que o atual, porque nada vai parecer
grave o bastante, em nenhum dia específico, para que alguém reaja.
Quem espera o estrondo para se mexer
vai descobrir que ele nunca vem. A água só esquenta. E o sapo morre sem
perceber.
Veja mais comentários sobre o assunto:
Título, Texto e Vídeo: Leandro Ruschel, Substack, 4-8-2026
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Dedo numa ferida aberta
Esta capa da Veja talvez seja um dos retratos mais acabados da degradação do jornalismo brasileiro, que se tornou vassalo do sistema

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