segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Cuidado com o Lobo Mau: Universidade de Cambridge classifica o Capuchinho Vermelho como um "conteúdo para adultos," que "inclui temas de violência."

Paulo Hasse Paixão

A Universidade de Cambridge decidiu que até o Capuchinho Vermelho é demasiado perigoso para os frágeis cérebros e a sensibilidade susceptível dos jovens.


O Clare College emitiu um alerta oficial de conteúdos antes de um seminário online gratuito de humanidades para alunos do ensino secundário da rede pública britânica, sinalizando a história como integrando “conteúdos para adultos, incluindo temas de violência, com referência a contos de fadas”.

Contos de fadas para adultos? O Capuchinho Vermelho é um conto erótico?

O seminário, parte de um curso desenvolvido para preparar os alunos do ensino secundário para os estudos universitários, incentivou os participantes a “lerem para além da superfície” das histórias de ninar. As notas oficiais do curso advertem:

“Aviso de conteúdo: Note que esta sessão envolverá a discussão de algum conteúdo para adultos, incluindo temas de violência, com referência a contos de fadas.”

Na versão original da fábula de Charles Perrault, de 1697, o lobo come a avó e a menina. A versão posterior dos Irmãos Grimm mantém a tensão entre o lobo e as personagens humanas, mas permite que um caçador as salve. Certas adaptações modernas intensificaram ainda mais a atmosfera sombria.

Mas seja como for, este conto preenche a imaginação das crianças desde essa altura e ninguém vai ficar traumatizado com uma história deste género, fantasista e própria do imaginário infantil. Ainda assim, Cambridge tratou-a como um potencial evento traumático para os adolescentes.

Alertar para a violência do conto de Perrault é como advertir que as fábulas de La Fontaine podem incluir cenas de maus tratos a animais.

Lord Toby Young, da Free Speech Union, desmascarou o absurdo:

“Colocar avisos de conteúdo sensível nos contos de fadas é infantilizante, até para Cambridge.”

O professor Dennis Hayes, diretor da Academics For Academic Freedom, há muito que alerta para as consequências deste tipo de paternalismo patético e comentou a circunstância nestes termos:

“Depois de alguns avisos de conteúdo sensível, os professores deixam de apresentar qualquer coisa que seja controversa. Gradualmente, não há mais discussão crítica”.

O comentador Adam Brooks captou a reação geral num pequeno vídeo que tem circulado na web. Chamou à medida “ridícula”, questionou o que está errado numa cultura que cria vítimas perpétuas e acusou as universidades de fazerem lavagem cerebral aos estudantes, transformando-os em flores de estufa no processo.

O que antes era um alerta infantil, pedagógico, sobre os perigos de falar com estranhos foi reclassificado como material para adultos que exige proteção institucional.

A mensagem para a próxima geração é clara: o mundo é demasiado assustador para ser enfrentado sem orientação oficial, e as histórias que outrora fortaleciam o carácter devem agora ser tratadas com extrema delicadeza.

Este é apenas o mais recente capítulo de uma longa campanha para envolver a cultura clássica no revestimento sanitário da insanidade moderna.

Por exemplo, a Disney colocou avisos sobre representações culturais “ultrapassadas” nos seus próprios filmes mais antigos, e as editoras começaram a imprimir livros clássicos com alertas de “conteúdo sensível”.

Como o ContraCultura documentou em 2022, a editora Wilder não foi capaz de publicar a monumental obra crítica de Kant sem um introito politicamente correcto, repleto de advertências estapafúrdias e monumentais disparates.

Num cúmulo do ridículo e da alienação, o filme Wicked foi ridicularizado por alertar o público para a discriminação das pessoas com pele verde…

A universidade de Massachusetts chegou mesmo a interditar a própria expressão “aviso de conteúdo sensível” porque as palavras podiam ser perturbadoras.

Uma empresa tecnológica progressista tentou eliminar a “linguagem violenta” do discurso quotidiano, enquanto uma edição comemorativa dos 75 anos de “1984”, de Orwell, foi publicada com os seus próprios alertas de conteúdo sensível e discursos sobre o herói “problemático” do livro.

As peças de Shakespeare têm sido sistematicamente infestadas com os mesmos avisos e destruídas com versões mutiladas para as “audiências modernas”. A Royal Shakespeare Company chegou mesmo a alertar o público de que As Alegres Comadres de Windsor contêm “humilhação corporal”. E em 2024, um “estudo” financiado pelo governo “conservador” britânico, que custou aos contribuintes um milhão de libras, concluiu que a obra de Shakespeare é racista, nacionalista e homofóbica.

As universidades que antes se orgulhavam de formar adultos, especializam-se agora em fabricar fragilidades múltiplas nas crianças e nos adolescentes.

A verdade é que, comparado com esta gente que habita as academias contemporâneas, o Lobo Mau é completamente inofensivo.

Título, Imagem e Texto: Paulo Hasse Paixão, ContraCultura, 17-8-2026 

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