terça-feira, 11 de agosto de 2026

[Aparecido rasga o verbo] Quando o assim do nada, o “meu tudo” se engrandeceu

Aparecido Raimundo de Souza

MUITAS E MUITAS VEZES, a gente para no meio do caminho, olha a casa que antes estava sempre cheia de vozes, de passos, de portas batendo, de risos que vinham não só da cozinha, mas também da varanda, dos quartos e, de repente, de um canto que ninguém lembrava mais que ele existia. Num piscar de olhos, tudo calou. E então, pintou no pedaço, aquele pensamento esdrúxulo, que bateu forte como uma chuva de granizo no telhado: foi a morte. A morte é o fim. É o ponto final sem retorno. É o nada absoluto. Tudo o que existiu, o que se falou, o que se construiu com o suor e com o coração, o amor que foi regado dia após dia, de repente sumiu, se esvaiu igual fumaça que o vento levou e não deixou o menor rastro para se tentar localizar o paradeiro.

Permaneceu no ambiente só a cadeira de balanço encostada na parede que ninguém mais sentou, o relógio cuco no corredor que parou na hora exata da partida, o armário do quarto que ainda guardava as mesmas roupas, o peso do silêncio que demorou e não quis ir embora e o nome que já não se ouvia em voz alta na porta principal da frente da casa, porque quem chamava, ou quem respondia, já não se fazia mais presente. E o peito sentido apertava, a garganta fechava, e a gente dizia com toda a dor do mundo: acabou. Passou. Esse não volta nunca mais. Eu também já pensei assim, confesso. Muitas e muitas vezes. É o que os olhos veem, é o que a razão grita bem forte dentro da cabeça, é o que a lógica fria tenta explicar: o corpo parou, a vida acabou, ponto final, fim da história.

Mas o coração, nossa, o coração, esse eterno teimoso, esse que não aprendeu a obedecer às regras impostas, esse que sabe de coisas que a inteligência humana ainda não conseguiu decifrar sussurrava devagar, murmurava baixinho, quase sem voz, bem lá no, onde ninguém mais ouvia: “não é bem assim, não é o fim|. É só uma mudança estratégica de lugar”. Pode parecer triste, à primeira vista,

pode doer muito ouvir que a morte não é o fim, porque isso, de certa forma, lembra de imediato, num sem pestanejar, o quanto já perdemos, o quanto já choramos, o quanto a saudade apertou forte o nosso vazio até faltar o socorro essencial, qual seja o ar que nos mantém vivos.

Dói admitir sim, confesso, mas é exatamente nela, nessa passagem que tanto tememos, que tanto evitamos falar, que está guardada a nossa maior, a mais doce, a mais verdadeira e a mais segura esperança. A morte nunca foi o lugar onde se perde quem se ama. Nunca será. Pelo contrário, a morte é o lugar reservado, calmo, tranquilo, sereno e luminoso, onde, um dia, (sempre há um dia) encontraremos todos os nossos antepassados de novo, ou da mesma forma teremos os benfazejos de abraça-los inteiros, saudosos, como nunca mais havíamos feito. Dito de outra forma: vistos. Aqueles que um dia fizeram o nosso dia a dia valer a pena, que estiveram presentes em cada pedacinho pequeno ou grande da nossa história. E quem seriam essas criaturas?

O pai de mãos calejadas e voz firme que nos ensinou a andar, a cair e a levantar de cabeça erguida, que nunca falou muito, mas com um olhar sincero e meigo, que dizia tudo; a mãe de mãos macias e cheiro de café e pão quentes, que enxugou as primeiras lágrimas, que fez curativos em todos os nossos ferimentos, mazelas do corpo e da alma, a mesma santificada que orou por nós antes mesmo de nascermos. O filho que nos fez entender de uma hora para outra o que é amor sem medida, sem condições, sem fim, com aquele sorriso inebriante que iluminava qualquer canto escuro; o irmão que passou a vida implicando, roubando doces, brigando por nada, mas que na hora mais difícil se fazia o primeiro da fila a chegar e a dizer “estou aqui”.

A irmã, às vezes chata, mas com a convivência familiar foi a primeira ouvinte e confidente que guardou todos os nossos segredos como se fossem um punhado de joias raras. E o “vô” de chapéu na cabeça para esconder os cabelos brancos, do seu gesto repetitivo de se sentar na rede da varanda para contar histórias na ponta da língua; a tia que sempre trazia um doce nas mangas escondidos e um abraço terno, apertado esperando; o amigo vizinho, da casa em frente, que parecia um irmão de sangue, com quem a gente dividia sonhos, medos, as mais diversas artes e os namoros e agarros com as meninas que moravam nas ruas próximas à nossa, onde no mesmo palpitar ficávamos trocando beijos, e carícias, até tardão das noites que pareciam eternas.

Tantas criaturas boas e amadas, que um dia, sem aviso prévio, pegaram as suas malas invisíveis e partiram, se foram sem dizer ao certo para onde, ou por qual motivo, sem ao menos, meu Deus, sem ao menos marcarem dia e hora para regressarem. Aqui, deste lado da vida, nós os perdemos de vistas. Por um tempo, que para nós parece uma eternidade, eles viraram lembranças, se tornaram um punhado de saudades, sem mencionar o fato que deixaram um espaço vazio dentro do coração, um labirinto insondável que nada parece conseguir encher direito. Estagna os nossos sentidos para o que podemos tocar, ouvir e ver. É realmente como se tivessem desaparecido, no nada, num vácuo sem fim, ou descambado para um precipício insondável. Mas, creiam, é só aparência.

É também só o limite minúsculo, muito pequeno quase imperceptível dos nossos olhos humanos, que só enxergam o que é de carne e osso, o que está aqui e agora e se quisermos, até poderemos tocar, sentir e amar. Porque o que é de verdade, o que nasceu do amor maior, do amor incomensurável, o que ficou gravado no “para sempre da alma”, a morte não tem poder nenhum para acabar, para por fim, ou para exterminar. Ela não tem robustez para isso. Nunca terá. Ela só desfaz o corpo que se exaspera moído, cansado, doente, ferido pelo tempo e pela vida. Ela acabará com a dor, com o sofrimento, com o fardo pesado e incômodo que pesa nos ombros, porá em exaustão à velhice que assola a pele, que fustiga os nervos das pernas, que desacelera os braços, e contamina os ossos.

O resto, o essencial, o que realmente somos de verdade, na verdadeira acepção da palavra, ela não bole, não toca. Apenas transporta. Guarda. Espera. E um dia, (repetindo, sempre, há um dia), e quando chegar a nossa vez de cruzar essa mesma porta e atravessar a ponte grandiosa e silenciosa que todos os nossos antepassados cruzaram antes de nós, o que entrará em cena, de imediato, de verdade, não será, de jeito nenhum, o fim. Em oposto, de fato, vingará a vitória radiosa do contrário, ou seja, entrará em cena, o mais completo, o mais pleno e o mais feliz de todos os começos. Do NADA os nossos sentidos limitados perceberão, indubitavelmente, que explodirá, de repente, sem aviso, ou alarde, o mais fantástico e sobrenatural e indestrutível TUDO.

Pois bem! De uma hora para outra, ouviremos de novo a voz do pai nos chamando pelo nome, exatamente como em nosso ontem, sem mudanças nenhuma. Sentiremos, de igual forma, o cheiro gostoso do café saboroso que a mãe fazia bem cedinho antes mesmo do sol nascer, e o mais importante, nos envolveremos nos abraços dela que apertava tão forte e tão firmemente que parecia não querer mais soltar. No mesmo trilho, nos depararemos com os irmãos com os mesmos sorrisos de quem nunca saiu, o brilho nos olhos, a mesma graça pujante de quem sabe todos os nossos defeitos e mesmo assim nos seguirá amando do mesmo jeito.

O filho virá correndo para nossos braços, se fará pequeno e leve como em tempos passados, ou se acaso crescido e forte, mas sempre o nosso filho, de alma para sempre ligada à nossa as nossas emoções. Todos ali, cada um com o seu jeito, o seu riso, o seu olhar, todos inteiros, todos vivos, mais vivos do que nunca estiveram por aqui, e o mais importante, sem dores, sem doenças, sem cansaço, e sem despedidas marcadas, mesmo note, sem hora para ir embora. Ninguém mudou por dentro. Ninguém ficou para trás. Ninguém se perdeu no longo caminho percorrido. Só estavam esperando. Esperando a nossa hora. É isso o que quase ninguém nos conta direito quando o assunto é a morte: ela nunca foi uma separação eterna.

É só uma pausa pequena, passageira, com tempo certo de vida. Longa, sim. Muitas vezes dolorida, cansativa, silenciosa, opressora, para quem fica do lado de cá. Mas só isso. É o jeito sábio e amoroso da vida de guardar o que tem mais valor num lugar seguro, longe de todo mal, até que todos, sem exceção possam estar juntos de novo, de uma vez por todas, sem mais “até logo”, sem mais choros, sem mais portas se fechando, sem adeus banhado de prantos lastimosos. Muitas vezes, enquanto caminhamos por aqui, temos a impressão de que estão todos muito longe. Mas não estão. Se fazem mais perto, mais presentes do que imaginamos. Perto o suficiente para ouvirem quando falamos com eles no silêncio das noites vazias sentimos saudades.

Aconchegados o bastante para nos acariciar os cabelos quando estamos tristes e nem sequer percebemos. Perto, de igual forma, o suficiente para nos dar um conselho que vem do nada, na hora exata em que mais precisamos, como se uma voz dentro de nós falasse mais alto. O corpo deles não está mais, contudo, a presença, essa, nunca se foi. Porque amor não tem distância. Amor não tem fronteira. O Amor e o Amar, não morrem. Como dizia “Guimarães

Rosa: “as pessoas não morrem ficam encantadas”. Hoje, aqui, com os olhos que só veem o mundo material, tudo parece ausência. Tudo se faz com o semblante estapafúrdico do fim. Tudo parece o “Grande NADA”.

Mas num breve porvir, quando também deixarmos essas roupas sujas de carne e osso para trás, perceberemos ou vislumbraremos tudo de uma vez só. De repente, não mais que de repente, como quem acorda de um sono pesado e vê a luz clara do sol entrando pela janela, vamos compreender, então, que esse “tudo” o que um dia pareceu ter sumido, acabado, findado e morto tudo, o que choramos como se estivesse perdido no para sempre das amarguras, em verdade, esse tudo só estava num cantinho oculto guardado, intacto, do lado de lá.

E no exato instante em que a nossa alma também atravessar aquele limiar suave, aquele campo daquilo que hoje chamamos ou rotulamos de morte, do aparente nada que os nossos sentidos conhecem, vamos receber, de sorrisos largos e os braços completamente abertos, cheios de luzes incandescentes e de saudade imperecível e imutável, o TUDO. A morte nunca foi e nunca ou jamais será o fim. Ela é apenas o endereço certo, o lugar esperado, o momento mais feliz de todos, onde o amor finalmente reencontrará a maviosidade grandiosa do gostar eterno, e aí sim, ele se fará ad aeternum, para todo o sempre.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Brasília, Distrito Federal, 11-8-2026

Anteriores:
Ficou em mim uma ausência que nunca foi embora 
Havia um sol naquele céu... 
O amor quando é eterno, cabe nos dias pequenos 
Se eu pudesse voltar no meu tempo 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Não publicamos comentários de anônimos/desconhecidos.

Por favor, se optar por "Anônimo", escreva o seu nome no final do comentário.

Não use CAIXA ALTA, (Não grite!), isto é, não escreva tudo em maiúsculas, escreva normalmente. Obrigado pela sua participação!
Volte sempre!
Abraços./-