Aparecido Raimundo de Souza
E o mais importante: ele não cegava.
Acariciava. Pairava sobre as folhas da mangueira nos fundos do quintal,
brilhava soberbo como se fosse de papel laminado, a parede de barro da casa do
meu avô João Raymundo ganhava um tom indescritível, e até o pó que levantava,
quando o vento passava, parecia flutuar e o fazia leve e flavescente, ensejando
no ar uma mesura incandescente que se estendia e se encompridava para além dos
meus olhos ávidos de menino sapeca. Eu tinha, nessa época, onze anos. Nesses
dias do sol sempre bonito, eu teimava em usar uma camiseta que ficava grande em
mim.
Viera herdada de tio José, (irmão de
meu avô) e houve um dia especial, em que eu devorava uma manga que vovô tinha
colhido minutos antes. O suco da fruta doce escorria pelo meu pulso até secar
nos espaços do cotovelo, deixando uma marca engraçada tipo assim, uma coisa
meio grudenta. Vovô João Raymundo se fazia sentado na cadeira de madeira perto
da porta da cozinha, consertando uma rede que tinha se rasgado na semana
anterior quando ele saíra para pescar com alguns vizinhos. Seus dedos grossos e
cheios de calos passando a agulha de ponta fina entre os fios de náilon se
conchavavam com uma delicadeza que eu nunca tinha visto em ninguém.
O radinho de pilha, encostado nos pés
do fogão de lenha, tocava Milionário e José Rico, a voz do Milionário parecia
vir de muito longe, misturada ao canto de um bando de passarinhos que pousavam
nos galhos mais alto do vergel que se perdia para as bandas do Rio.
— Esse sol é dos bons — ele dizia sem parar de costurar, sem levantar os olhos da rede. Deixa a gente lembrar dos dias que ainda vão chegar, e dos que já se foram para bem longe no distante longínquo que agora se divorcia diante de nossas vistas.
Nesse tempo, eu não entendia nada do
que ele falava. Só queria acabar de chupar a manga para correr atrás dos meus
brinquedos e do Carnaval, um gato com o semblante de animal pesaroso que dormia
no telhado onde ficava o poço de água, para jogar o caroço no mato ou qualquer
outra coisa desusada para ver se acertava um formigueiro que florescia a olhos
vistos. Mas guardei essa frase de meu avô, escondi bem escondidinho dentro de
um lugar secreto como emparelhei a sete chaves, numa das gavetas de um criado
mudo, uma correntinha de ouro com a medalhinha de Nossa Senhora Aparecida, que
certo dia encontrei na beira da barranca do rio, deixada, talvez, por alguém
(uma menina) que viera de fora para tomar banho.
Vovô João Raymundo dizia que o meu
achado não servia para nada, mas o trocinho tinha peso, tinha textura, tinha um
brilho que fazia a gente não querer jogar fora. Era, a meu entendimento de
moleque, o brilho inquestionável da Santa que viera de roldão. O sol com o
passar das horas, ia baixando devagar, como quem procura se esconder, como quem
não quer incomodar. Ele pintava o céu de rosa claro no alto, de laranja
queimada perto da linha do horizonte, e as sombras do quintal, aos bocados
poucos iam se esticando, ficando compridas e finas, até, que o obumbrado
da mangueira alta e imponente, chegava
quase à porta rangente da cozinha.
Meu avô parou de costurar, limpou as
mãos na calça de jeans surrada e me chamou para eu me aninhar ao seu lado. Eu
subi correndo, e embora afastado a poucos metros, senti o cheiro de seu fumo de
corda e também o sabor do café com leite e os pães quentinhos que ele sempre
tinha ao alcance da minha fome. Esses pães, era a vovó Martinha que fazia com
carinho e esmerado cuidado. Vovô, a certa altura, me apontou com o dedo para um
pontinho branco e fraco que já aparecia meio assustado no céu ainda azul, do lado
onde o sol sempre escolhia para desaparecer de vez e sumir do mapa.
E falava, num tom engraçado que não
demonstrava tristeza:
— Quando eu não estiver mais aqui — ele
arrazoava quase em sussurro, como se estivesse contando um segredo muito
importante só para o ar ouvir — quando eu não estiver mais aqui, você se
sentará no lugar onde estou agora e olhará demoradamente para esse sol mole,
tranquilo, calmo e dourado, que deixa tudo bonito ao redor, sem fazer esforço
algum. E eu estou e estarei sempre aqui também, lembra sempre disso. Estarei, do mesmo modo, moldado na sua
imaginação. Me farei vivo e pulsante no calor que bate na sua nuca e se
agiganta abarcante na sua testa. Não se esqueça jamais das palavras de seu
velho avô, também estarei na luz que entra pela janela do seu quarto, no jeito
que esse mesmo sol faz as frutas ficarem mais doces como a manga que acabou de
devorar. Ei, venha cá. Não precisa chorar. É só olhar para o seu velho avô e me
escutar...
Nessas horas eu me encolhia no seu
colo, me estreitava chupando o polegar esquerdo, atarracado em seu peito, sem
entender direito o que ele queria dizer, mas dentro de mim, sentia um aperto
incomum que não era fome, nem medo, nem de nada que eu conhecesse até então. O
sol se pôs finalmente, se transformou em um clarão vermelho que durou só alguns
segundos, e a noite lenta, meio que capengando das pernas, veio devagar, chegou
trazendo o cheiro de jasmim que a minha vó Martinha tinha plantado num vaso
enorme perto da varanda que acessava a porta da sala. Hoje, trocentos anos
depois, vovô João não está mais por aqui. Nem a vó Martinha.
A casa onde passei boa parte da minha
infância, foi vendida. A mangueira se fez cortada para alargar a plenitude do
quintal, a rua foi asfaltada, virou avenida, a rede que meu avô consertou se
rasgou de vez e foi jogada fora, num lixão enorme que a comunidade fundou para
dispensar coisas que não se usam mais.
Entretanto, sempre que posso, venho aqui, abrolho trazido pelas
lembranças que não me deixam. No meio da rua onde ficava a calçada e o portão
de acesso a casa, vejo claramente um sol bonito naquele céu outrora dourado,
naquele céu calmo, que segue silencioso, sem pedir nada a ninguém. Um sol hoje
de aparência triste e melancólica, obscurecido por alguma dor não revelada, um
sol que não quer nada, a não ser iluminar e me fazer voltar ao passado distanciado
que se foi sem ao menos dizer “tchau”.
Fecho os olhos por um breve instante e
viajo. Sinto, de novo, o suco de manga
no pulso. Ouço o Milionário e o José Rico cantando no radinho de pilha
imaginário, e também a mão calosa de meu avô João Raymundo passando levemente
os dedos trêmulos sobre meus cabelos. E do nada, do nada vazio e oco, o cheiro
dos pães, de vovó Martinha, bem ainda o sabor do seu café com leite feito na
hora, uma bebida quentinha e com gosto temperado de uma imensa saudade que se
perpetuou imorredoura. Aos setenta e três, entendo que as pessoas se vão.
Partem. As casas mudam de donos. Os quintais que antes alimentavam lembranças,
somem, desaparecem, viram asfalto, se transformam em lojas e armazéns, enfim,
viram um amontoado de nada.
Todavia, acreditem, dentro de mim, aqui
no meu peito envelhecido pela idade, aquele sol do meu tempo de menino de onze
anos, não se põem nunca. Não se esconde. Ele fica guardado dentro de meu “eu”.
Se faz pequeno e quente, como aquela correntinha com a medalha de Nossa Senhora
Aparecida que um dia achei por acaso. Ainda trago comigo, como um amuleto de um
dia bonito que se foi. Se eu pudesse
entrar na casa que não está mais em pé, se pudesse ao menos, correr pelo corredor
comprido, e se me fosse possível abrir a janela do que um dia foi meu quarto,
eu me encantaria, voltaria no tempo.
Regressaria aos meus onze anos,
reviveria o velho avô, minha avó, o Carnaval, e todo o meu ser se perpetuaria
naqueles falecidos de um tempo de ontem, ou dito de forma mais abrangente, se
emoldaria naqueles “outroras” que se desmantelaram, que se decompuseram... mas
eu sempre levarei comigo, a certeza perenal e imarcescível de que lá em cima,
havia um sol. Por certo, havia um sol naquele céu. Morrerei dizendo isso,
afirmando categoricamente aos meus filhos e netos. Cá entre nós, a vocês, caros leitores, que me
leem agora: havia, de fato, naquele céu, igualmente no meu infinito que nunca
se cobrirá de nuvens negras nem desaparecerá, definitivamente dos meus olhos:
havia um sol naquele céu que em tempo algum deixou ou deixará de aparecer, nem
que seja só para meu próprio encantamento sempiterno e inextinguível.
Título e Texto: Aparecido Raimundo
de Souza, de Venda Nova do Imigrante, ES, 7-8-2026
O amor quando é eterno, cabe nos dias pequenos
Se eu pudesse voltar no meu tempo
O chato de galochas
Avesso
Drama de um ato só

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