sexta-feira, 7 de agosto de 2026

[Aparecido rasga o verbo] Havia um sol naquele céu...

Aparecido Raimundo de Souza

HAVIA UM SOL, naquele céu, meu Deus! Era um sol bonito, diferente, grandioso, mavioso, aconchegante, e trazia em sua pele macia algo desvairado e excepcional de todos os outros. Não era um sol agressivo de meio-dia, à pino, que queimava a nuca e fazia a gente correr para a sombra mais próxima, mas aquele sol, uau!... Ele se mostrava dourado, e nos finais de todas as tardes, derramava sobre toda a extensão do terreiro, uma incandescência inebriante, como se alguém tivesse virado, tipo assim, um balde de mel sobre o meu mundinho que não ia além do portão de madeira que separava a rua e as demais residências da nossa.

E o mais importante: ele não cegava. Acariciava. Pairava sobre as folhas da mangueira nos fundos do quintal, brilhava soberbo como se fosse de papel laminado, a parede de barro da casa do meu avô João Raymundo ganhava um tom indescritível, e até o pó que levantava, quando o vento passava, parecia flutuar e o fazia leve e flavescente, ensejando no ar uma mesura incandescente que se estendia e se encompridava para além dos meus olhos ávidos de menino sapeca. Eu tinha, nessa época, onze anos. Nesses dias do sol sempre bonito, eu teimava em usar uma camiseta que ficava grande em mim.

Viera herdada de tio José, (irmão de meu avô) e houve um dia especial, em que eu devorava uma manga que vovô tinha colhido minutos antes. O suco da fruta doce escorria pelo meu pulso até secar nos espaços do cotovelo, deixando uma marca engraçada tipo assim, uma coisa meio grudenta. Vovô João Raymundo se fazia sentado na cadeira de madeira perto da porta da cozinha, consertando uma rede que tinha se rasgado na semana anterior quando ele saíra para pescar com alguns vizinhos. Seus dedos grossos e cheios de calos passando a agulha de ponta fina entre os fios de náilon se conchavavam com uma delicadeza que eu nunca tinha visto em ninguém.

O radinho de pilha, encostado nos pés do fogão de lenha, tocava Milionário e José Rico, a voz do Milionário parecia vir de muito longe, misturada ao canto de um bando de passarinhos que pousavam nos galhos mais alto do vergel que se perdia para as bandas do Rio.

— Esse sol é dos bons — ele dizia sem parar de costurar, sem levantar os olhos da rede. Deixa a gente lembrar dos dias que ainda vão chegar, e dos que já se foram para bem longe no distante longínquo que agora se divorcia diante de nossas vistas.

Nesse tempo, eu não entendia nada do que ele falava. Só queria acabar de chupar a manga para correr atrás dos meus brinquedos e do Carnaval, um gato com o semblante de animal pesaroso que dormia no telhado onde ficava o poço de água, para jogar o caroço no mato ou qualquer outra coisa desusada para ver se acertava um formigueiro que florescia a olhos vistos. Mas guardei essa frase de meu avô, escondi bem escondidinho dentro de um lugar secreto como emparelhei a sete chaves, numa das gavetas de um criado mudo, uma correntinha de ouro com a medalhinha de Nossa Senhora Aparecida, que certo dia encontrei na beira da barranca do rio, deixada, talvez, por alguém (uma menina) que viera de fora para tomar banho.

Vovô João Raymundo dizia que o meu achado não servia para nada, mas o trocinho tinha peso, tinha textura, tinha um brilho que fazia a gente não querer jogar fora. Era, a meu entendimento de moleque, o brilho inquestionável da Santa que viera de roldão. O sol com o passar das horas, ia baixando devagar, como quem procura se esconder, como quem não quer incomodar. Ele pintava o céu de rosa claro no alto, de laranja queimada perto da linha do horizonte, e as sombras do quintal, aos bocados poucos iam se esticando, ficando compridas e finas, até, que o obumbrado da   mangueira alta e imponente, chegava quase à porta rangente da cozinha.

Meu avô parou de costurar, limpou as mãos na calça de jeans surrada e me chamou para eu me aninhar ao seu lado. Eu subi correndo, e embora afastado a poucos metros, senti o cheiro de seu fumo de corda e também o sabor do café com leite e os pães quentinhos que ele sempre tinha ao alcance da minha fome. Esses pães, era a vovó Martinha que fazia com carinho e esmerado cuidado. Vovô, a certa altura, me apontou com o dedo para um pontinho branco e fraco que já aparecia meio assustado no céu ainda azul, do lado onde o sol sempre escolhia para desaparecer de vez e sumir do mapa.

E falava, num tom engraçado que não demonstrava tristeza:

— Quando eu não estiver mais aqui — ele arrazoava quase em sussurro, como se estivesse contando um segredo muito importante só para o ar ouvir — quando eu não estiver mais aqui, você se sentará no lugar onde estou agora e olhará demoradamente para esse sol mole, tranquilo, calmo e dourado, que deixa tudo bonito ao redor, sem fazer esforço algum. E eu estou e estarei sempre aqui também, lembra sempre disso.  Estarei, do mesmo modo, moldado na sua imaginação. Me farei vivo e pulsante no calor que bate na sua nuca e se agiganta abarcante na sua testa. Não se esqueça jamais das palavras de seu velho avô, também estarei na luz que entra pela janela do seu quarto, no jeito que esse mesmo sol faz as frutas ficarem mais doces como a manga que acabou de devorar. Ei, venha cá. Não precisa chorar. É só olhar para o seu velho avô e me escutar...

Nessas horas eu me encolhia no seu colo, me estreitava chupando o polegar esquerdo, atarracado em seu peito, sem entender direito o que ele queria dizer, mas dentro de mim, sentia um aperto incomum que não era fome, nem medo, nem de nada que eu conhecesse até então. O sol se pôs finalmente, se transformou em um clarão vermelho que durou só alguns segundos, e a noite lenta, meio que capengando das pernas, veio devagar, chegou trazendo o cheiro de jasmim que a minha vó Martinha tinha plantado num vaso enorme perto da varanda que acessava a porta da sala. Hoje, trocentos anos depois, vovô João não está mais por aqui. Nem a vó Martinha.

A casa onde passei boa parte da minha infância, foi vendida. A mangueira se fez cortada para alargar a plenitude do quintal, a rua foi asfaltada, virou avenida, a rede que meu avô consertou se rasgou de vez e foi jogada fora, num lixão enorme que a comunidade fundou para dispensar coisas que não se usam mais.  Entretanto, sempre que posso, venho aqui, abrolho trazido pelas lembranças que não me deixam. No meio da rua onde ficava a calçada e o portão de acesso a casa, vejo claramente um sol bonito naquele céu outrora dourado, naquele céu calmo, que segue silencioso, sem pedir nada a ninguém. Um sol hoje de aparência triste e melancólica, obscurecido por alguma dor não revelada, um sol que não quer nada, a não ser iluminar e me fazer voltar ao passado distanciado que se foi sem ao menos dizer “tchau”. 

Fecho os olhos por um breve instante e viajo.  Sinto, de novo, o suco de manga no pulso. Ouço o Milionário e o José Rico cantando no radinho de pilha imaginário, e também a mão calosa de meu avô João Raymundo passando levemente os dedos trêmulos sobre meus cabelos. E do nada, do nada vazio e oco, o cheiro dos pães, de vovó Martinha, bem ainda o sabor do seu café com leite feito na hora, uma bebida quentinha e com gosto temperado de uma imensa saudade que se perpetuou imorredoura. Aos setenta e três, entendo que as pessoas se vão. Partem. As casas mudam de donos. Os quintais que antes alimentavam lembranças, somem, desaparecem, viram asfalto, se transformam em lojas e armazéns, enfim, viram um amontoado de nada.

Todavia, acreditem, dentro de mim, aqui no meu peito envelhecido pela idade, aquele sol do meu tempo de menino de onze anos, não se põem nunca. Não se esconde. Ele fica guardado dentro de meu “eu”. Se faz pequeno e quente, como aquela correntinha com a medalha de Nossa Senhora Aparecida que um dia achei por acaso. Ainda trago comigo, como um amuleto de um dia bonito que se foi.  Se eu pudesse entrar na casa que não está mais em pé, se pudesse ao menos, correr pelo corredor comprido, e se me fosse possível abrir a janela do que um dia foi meu quarto, eu me encantaria, voltaria no tempo.

Regressaria aos meus onze anos, reviveria o velho avô, minha avó, o Carnaval, e todo o meu ser se perpetuaria naqueles falecidos de um tempo de ontem, ou dito de forma mais abrangente, se emoldaria naqueles “outroras” que se desmantelaram, que se decompuseram... mas eu sempre levarei comigo, a certeza perenal e imarcescível de que lá em cima, havia um sol. Por certo, havia um sol naquele céu. Morrerei dizendo isso, afirmando categoricamente aos meus filhos e netos.  Cá entre nós, a vocês, caros leitores, que me leem agora: havia, de fato, naquele céu, igualmente no meu infinito que nunca se cobrirá de nuvens negras nem desaparecerá, definitivamente dos meus olhos: havia um sol naquele céu que em tempo algum deixou ou deixará de aparecer, nem que seja só para meu próprio encantamento sempiterno e inextinguível. 

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Venda Nova do Imigrante, ES, 7-8-2026

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