sábado, 15 de agosto de 2026

Eles chegaram às 7h30 e a loja estava fechada

Em 48 horas, a Casas Bahia apagou 298 endereços do mapa e mandou 1,9 mil pessoas para casa. O que veio depois é pior

Rogerio Pires 

Em Ponta Grossa, no Paraná, os 31 funcionários de uma loja da Casas Bahia na Avenida Doutor Vicente Machado foram orientados a comparecer às 7h30 desta sexta-feira. Chegaram no horário. Uniforme, crachá, café tomado em casa, a rotina de sempre. A loja não abriu mais.

A mesma cena se repetiu em cidades do Paraná, da Bahia, de Pernambuco, do Mato Grosso do Sul. Em alguns pontos, um cartaz colado na porta avisava apenas que não haveria expediente.

Imagine perder o emprego dentro de uma casa que já está endividada. Agora pare de imaginar. É o que aconteceu com milhares de brasileiros nas últimas 48 horas.

O número que a empresa não quis comentar

A Casas Bahia fechou 298 lojas entre quinta e sexta-feira, segundo apuração do Valor Econômico. São 28,7% de toda a rede física da companhia no país, que tinha pouco mais de mil unidades. Cerca de 1,9 mil pessoas foram demitidas: 600 na quinta, entre 1,3 mil e 1,4 mil na sexta. Pelo relato do jornal, o total pode chegar a 3 mil.

Para dar dimensão do choque: nas gestões anteriores, a empresa fechava de 20 a 30 lojas por ano. Nos doze meses até março, o grupo tinha encolhido em 26 unidades no saldo entre aberturas e fechamentos. Agora foram 298 em dois dias.

A companhia vem de prejuízo de quase R$ 1,1 bilhão só no primeiro trimestre de 2026, mais que o dobro da perda do mesmo período do ano anterior, depois de fechar 2025 com cerca de R$ 3 bilhões no vermelho. Passou por recuperação extrajudicial em 2024 para renegociar cerca de R$ 4 bilhões em obrigações. Procurada pela imprensa, não se manifestou até a publicação das reportagens.

E não é um caso isolado.

A fila

O Grupo Mateus, terceira maior rede de varejo alimentar do país, fechou 28 lojas e cortou 6.673 postos de trabalho entre 2025 e o primeiro trimestre de 2026. O quadro caiu de 47,9 mil para 41,2 mil funcionários, quase 14% da força de trabalho, concentrado no Maranhão, Pará, Piauí, Ceará, Sergipe e Bahia. Tudo isso em uma empresa que faturou R$ 43,5 bilhões em 2025.

A CVC fechou o segundo trimestre com prejuízo contábil de R$ 72,5 milhões, alta de 56,2% sobre o mesmo período do ano passado, com receita em queda e uma reorganização que já eliminou três vice-presidências e produziu custos de rescisão que a própria empresa detalhou no balanço.

A Raízen, gigante do etanol e dos combustíveis, registrou prejuízo de R$ 1,64 bilhão no trimestre encerrado em junho e fechou o período com dívida líquida de R$ 56,87 bilhões, 15,5% maior do que um ano antes. A empresa está em recuperação extrajudicial. Nos trimestres anteriores, os números foram ainda mais duros: R$ 15,6 bilhões de prejuízo entre outubro e dezembro, R$ 7,3 bilhões no trimestre seguinte, com rebaixamentos de rating pelas três principais agências.

A Estrela, a fábrica de brinquedos que atravessou gerações com o Banco Imobiliário, o Autorama e o Genius, entrou em recuperação judicial em maio, com dívida de R$ 115 milhões e prejuízos acumulados acima de R$ 660 milhões. No pedido, a empresa registrou que o quadro de funcionários caiu de cerca de 10 mil, no auge dos anos 1980, para 1,5 mil hoje. A própria petição chama a redução de “medida extrema, porém indispensável”.

A Americanas segue em recuperação judicial. A Oi está na segunda. Só a Serede, braço de serviços da Oi, foi à falência deixando 4,8 mil demitidos.

O recorde que ninguém comemora

Nada disso é obra do acaso, e os números macro provam.

Em 2025, o Brasil registrou o maior número de empresas em recuperação judicial da série histórica da Serasa Experian: 2.466 CNPJs envolvidos, alta de 13% sobre 2024. Foram 977 processos, o maior volume desde 2016. E aqui mora o detalhe que arrepia: em 2016, no auge da recessão, os processos envolveram 1.738 empresas. Agora envolvem 2.466. Há mais empresas em apuros hoje do que na pior crise da última década, sem que ninguém tenha decretado recessão.

Em janeiro de 2026 havia 8,7 milhões de CNPJs negativados no país, com dívida média de R$ 23.138 e cerca de sete restrições por empresa inadimplente. Inadimplência, historicamente, é o prelúdio da recuperação judicial. Nos primeiros três meses deste ano, só no agronegócio, foram 474 pedidos, alta de 21,9% sobre o mesmo período de 2025.

Do outro lado do balcão, a situação das famílias é gêmea. Em julho de 2026, 82% das famílias brasileiras declararam ter algum tipo de dívida, o maior percentual de toda a série da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, da CNC, iniciada em 2010. Foi o sexto mês seguido de alta. Entre as famílias que ganham até três salários mínimos, quase quatro em cada dez já estão com contas em atraso. O cartão de crédito é o vilão citado por 84,6% dos endividados, com rotativo que passa de 400% ao ano.

Duas curvas subindo juntas. Empresas quebrando e famílias se endividando. Elas se encontram exatamente na porta de uma loja que não abriu.

De quem é a conta

As empresas apontam o mesmo conjunto de causas: juros elevados por tempo prolongado, crédito seletivo, custo do dinheiro, consumo fraco. Cada setor tem sua particularidade, e é honesto reconhecer. A CVC apanhou da alta de 52,4% nas tarifas aéreas em doze meses. A Raízen apanhou do preço do açúcar e do clima. A Estrela apanhou da concorrência chinesa e dos jogos digitais. O varejo físico apanha do comércio eletrônico há uma década.

Mas há um denominador comum, e eu considero que ele não pode ser varrido para debaixo do tapete: o custo do dinheiro no Brasil é uma escolha, não um fenômeno meteorológico. Juros altos por tempo prolongado são a resposta clássica a um governo que gasta mais do que arrecada e joga a conta do desequilíbrio fiscal para o Banco Central resolver sozinho. Quem paga essa fatura não é o Planalto. É o dono do pequeno comércio que não consegue rolar a dívida, é a rede de varejo que fecha 298 pontos de uma vez, é o trabalhador que chega às 7h30 e encontra a porta trancada.

O que fica

Por trás de cada porta fechada existe alguém voltando para casa sem saber como vai pagar as contas de setembro.

Existe a mãe que ia começar a pagar o material escolar em outubro. Existe o pai que acabou de financiar a geladeira em doze vezes. Existe o rapaz de 22 anos que estava no primeiro emprego com carteira assinada e agora vai bater na porta de uma loja que também está fechando.

O barulho mais assustador da economia brasileira hoje não vem da Faria Lima nem do plenário do Congresso. Vem da grade de metal descendo pela última vez numa loja de bairro, às sete e meia da manhã, diante de 31 pessoas de uniforme que não sabiam de nada.

Isso não é só economia. São famílias. São vidas. E são números que o governo precisa explicar.

Compartilhe este texto. Porque por trás de cada emprego perdido existe uma família lutando para não perder também a esperança.

Título, Imagem e Texto: Rogerio Pires, Timeline, 15-8-2026

Rogerio Pires é professor, pesquisador, mestre, doutor H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.

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