Cinco meses depois, o Rio ainda espera uma resposta que sumiu da pauta do Supremo
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No sábado, no estádio de Moça Bonita, em Bangu, algumas poucas centenas de pessoas ouviram o presidente da República agradecer a Deus por um governador que ninguém elegeu.
“Deus nos deu um homem chamado Ricardo Couto”, disse Lula, no lançamento da campanha de Eduardo Paes ao governo do estado. E completou, virando-se para o candidato: Couto começou uma limpeza que Paes “vai ter que continuar quando for eleito”.
O chefe do Executivo federal, num palanque eleitoral, elogia o homem que ocupa o Palácio Guanabara sem ter recebido um único voto, e já entrega a continuidade do trabalho dele ao próprio candidato.
Se isso não te incomoda, talvez seja porque a história de como chegamos até aqui foi contada em pedaços, espalhada por seis meses, e ninguém juntou as peças na sua frente.
Então deixa eu juntar.
A cadeira que foi esvaziando
Em maio de 2025, o vice-governador Thiago Pampolha deixou o cargo para assumir uma vaga de conselheiro no Tribunal de Contas do Estado. O Rio ficou sem vice.
Em dezembro de 2025, o presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar, foi afastado após operação da Polícia Federal. O Rio ficou sem o segundo da fila.
Em 23 de março de 2026, véspera do julgamento no Tribunal Superior Eleitoral que tratava do uso da Ceperj e da Uerj como máquina eleitoral em 2022, Cláudio Castro renunciou. O Rio ficou sem governador.
Sobrou o terceiro da linha sucessória: o presidente do Tribunal de Justiça, desembargador Ricardo Couto. Ele mesmo dizia, no início, que ficaria um mês. Já são cinco.
A Constituição tem uma resposta. Ela não foi aplicada.
A Alerj fez o que a lógica institucional manda: recompôs a própria linha sucessória. Em 17 de abril, elegeu Douglas Ruas presidente da Casa.
A Constituição do Estado do Rio de Janeiro é clara sobre a ordem. Presidente da Assembleia vem antes do presidente do Tribunal de Justiça. Com a Alerj tendo presidente, o presidente do TJ deveria devolver a cadeira.
Ruas foi ao Supremo pedir exatamente isso. E aí acontece o detalhe que quase ninguém percebeu: quem correu ao STF para pedir o contrário, para pedir que Couto ficasse, foi o PSD. O partido de Eduardo Paes.
O ministro Cristiano Zanin atendeu. Couto ficou.
O julgamento que não termina.
Existe um processo no STF para resolver isso. Ele discute se o mandato-tampão do Rio deve ser preenchido por eleição direta, com o voto do povo fluminense, ou indireta, pelos deputados estaduais.
O placar está em 4 a 1 pela eleição indireta. Votaram nesse sentido Luiz Fux, Nunes Marques, André Mendonça e Cármen Lúcia. O voto isolado pela eleição direta é do relator, Cristiano Zanin, indicado por Lula.
O julgamento travou em abril com um pedido de vista de Flávio Dino. Dino devolveu o processo em 30 de junho. O caso foi pautado para 19 de agosto. E, na véspera, o presidente do STF, Edson Fachin, retirou o tema da pauta. No lugar, entrou outro julgamento.
Não há nova data.
Nos bastidores da Corte, segundo a imprensa que cobre o Supremo, a avaliação é de que a discussão “perdeu o sentido prático” por causa da proximidade das eleições de outubro.
Perdeu o sentido para quem?
O detalhe que muda tudo
Repare no mecanismo, porque ele é elegante demais para ser acidente.
Não é preciso decidir a favor de ninguém. Basta não decidir. Enquanto o Supremo não julga, vale a última palavra dada: Couto permanece. A demora não é neutra. A demora tem beneficiário.
E o beneficiário apareceu sozinho, no sábado, em Bangu, com microfone na mão, dizendo que Deus deu ao Rio o governador atual e que o candidato dele deve continuar o trabalho.
Cinco meses de paralisia judicial produziram exatamente o arranjo que o palanque de sábado celebrou. Um governo interino elogiado pelo presidente, uma Assembleia neutralizada, um julgamento que sumiu da pauta e uma eleição em 4 de outubro chegando antes de qualquer resposta.
O que sobra para você
Você acordou hoje em um estado governado por alguém que você não escolheu, que não pediu o cargo, que não concorreu, que não fez campanha e que não prestou contas a nenhum eleitor.
Isso pode até ser tecnicamente defensável em algum voto de sessenta páginas. Mas a Constituição do Rio de Janeiro não foi escrita para ser interpretada até virar o contrário do que diz.
Não é golpe de tanque. É golpe de calendário. Ninguém precisa rasgar a Constituição quando basta deixá-la esperando na fila.
Em 4 de outubro, o eleitor fluminense volta a ter voz. Até lá, o Rio segue sendo governado por uma ausência de decisão.
Guarde essa data. E guarde os nomes de
quem preferiu que ela chegasse antes do julgamento.
Título, Imagem e Texto: Redação, Timeline, 27-8-2026
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Moraes, isso non ecziste!

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