A expressão «tudo o resto»
Esta questão já foi aqui apresentada por outro consulente e a vossa resposta foi «Penso que deve dar preferência ao uso da expressão "tudo o resto"».
Eu mantenho as minhas dúvidas, até porque quem respondeu não o fez com convicção ao usar o «penso que». Pois eu penso que deve ser «todo o resto», entendido como a totalidade da parte restante. Por exemplo, hoje, na capa de A Bola, lê-se que Fernando Santos fala «sobre a Liga das Nações e sobre tudo o resto».
No meu ver, estes dois conceitos são contraditórios: se fala sobre tudo, não sobra resto para acrescentar ao que fala. Ela fala, com certeza sobre a Liga das Nações e sobre a totalidade da parte restante (de matérias de futebol, certamente) que vão além do assunto principal.
Agradeço a vossa atenção.
António Antão, Professor (aposentado), Braga, Portugal
Resposta:
Carlos Rocha
A dúvida apresentada diz respeito a uma expressão que o uso fixou e que os dicionários registam.
Terá origem no galicismo tout le reste, pelo menos, como tradução literal convergente com a locução «tudo o mais»: da sinonímia de «o mais» com «o resto» terá resultado «tudo o resto», expressão que é ou foi discutível1, mas que ocorre há bastante tempo no nosso idioma, como abonam exemplos de uso até por escritores portugueses:
(1) “O amor-próprio já eu o tinha perdido há muito tempo. E o orgulho, a vergonha, tudo o resto!” (David Mourão-Ferreira, Tal e Qual o que Era, 1963)
(2) “Venho a parte principal de minha família e bagagens em Londres tudo o resto disperso e sem ordem.” (Almeida Garrett, Cartas, 1835)
São de notar, porém, que, também, entre escritores, ocorre a expressão «todo o resto» como variante de «tudo o resto»:
(3) “O meu Deus enche o mundo. Só o meu Deus existe, e todo o resto no universo é tão pequeno e tão fútil, que reclamo mais dor, mais sofrimento, mais fome.” (Raul Brandão, Húmus, 1917)
Poderá considerar-se que «todo o resto» é mais correto que «tudo o resto», argumentando que resto é um nome e, portanto, o quantificador terá de concordar com a palavra a que se associa. Contudo, apesar de o que se diz sobre «todo o resto» ter sentido à luz de princípios lógicos e do conhecimento do mundo, o certo é que se diz e escreve tudo com expressões de valor neutro, tudo, e não todo: «tudo isto», «tudo o mais».
Deste modo, sobre a génese de «tudo o resto» e a sua fixação, atuaram mais a analogia com outras expressões fixas e a força do uso do que a coerência lógica da expressão, lembrando que, na constituição de uma língua, nem tudo o que se diz ou escreve procede de regras, mas também decorre da cristalização de formas menos ou nada regulares.
Em suma, aceitam-se as duas formas da expressão, «todo o resto» e «tudo o resto». Esta última pode ter menos justificação por critérios sintáticos e lógico-semânticos, mas tem uma tradição de uso que a legitima.
1 O Dicionário Houaiss (s.v.
resto) anota que «a locução de resto foi considerada estrangeirismo por alguns
autores».
Carlos Rocha, in “Ciberdúvidas da Língua Portuguesa”, 28-6-2019
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