domingo, 23 de agosto de 2026

[As danações de Carina] Onde irei achar a minha felicidade?

Carina Bratt

NESTE MOMENTO em que me sento para escrever as minhas ‘Danações’ de amanhã, domingo, somente uma indagação me invade a cabeça, qual seja: onde irei achar a minha felicidade? Pergunto ao vento que passa tranquilo pela janela da minha sala, que sopra a toalhinha que coloquei sobre as teclas do meu piano, vento esse que às vezes chega de manhã cedo, noutras quando a noite já demorou além da conta para dar sinais de vida. Não importa, o momento, a hora, o instante. A indagação que insisto em fustigar as suas entranhas e trazer à tona, versa sobre o mesmo tema do meu questionamento insano: onde irei achar a minha felicidade? 

Penso no meu pai, que se foi e levou consigo um pedaço de tudo o que eu conhecia como lar. Ainda hoje, tantos anos, me pego procurando a sua voz, o seu cheiro, o seu prato lavado na pia, após cada refeição, seus passos calmos no corredor, o seu jeito que me olhava repleto de uma ternura maviosa, e o momento imorredouro que sempre dizia tudo sem precisar falar coisa alguma. Quando ele partiu, levei um tempo enorme para entender que a saudade não é só a dor que fica, é também a prova de que a felicidade já esteve aqui sentada à minha mesa, ou melhor, a nossa mesa, e se divertia rindo das mesmas piadas, dividindo os mesmos dias, as horas e até os minutos.

E agora, há poucos dias, vi a minha mãe quase ir embora também. Senti o chão fugir debaixo dos meus pés. Fui ao inferno e voltei naquelas horas de lenta e agoniada espera no hospital, sem saber se ela ficava ou se partiria. Quando ela finalmente abriu os olhos e num momento fugaz reconheceu quem estava ali, entendi uma coisa: a felicidade pode estar bem pequena, quase invisível, escondidinha em algum canto, talvez atrás da televisão, ou debaixo da minha cama, ou dentro das gavetas do meu guarda roupas... ou quem sabe, brincando de esconde-esconde atrás da geladeira. Isso se a gente desleixar e não prestar um tantinho assim que seja, de atenção.

Será que ela, a felicidade está no que já passou? No colo do meu pai, no conselho da minha avó, no olhar esmaecido da minha mãe, ou por outra, na casa onde crescemos e onde tudo parecia ficar sempre no mesmo lugar? Ou será que ainda esteja por vir, talvez escondida em algum canto obscuro que eu ainda não atinei em enxergar?

Talvez eu esteja procurando no lugar errado. Talvez a felicidade não seja um lugar para se chegar, nem um tempo que vai voltar. Talvez, oxalá, não sei, ela esteja bem aqui, grudada no meu agora, no meu DNA, no fato de a minha mãe ainda estar comigo, esperançosamente viva e sorrindo. Presa, é bem verdade, em seu mundinho de rosto antigo, e eu, atarantada, de correr e poder segurar as suas mãos, de lembrar do meu pai com aquele carinho eterno e não com um vazio enorme, de rosto para lá de desfigurado.

Onde acharei a felicidade? Não sei. Mas aprendi a duros golpes que às vezes ela não vem com festas, com alegrias, com promessas de se tornar eterna e permanecer. Em contrário, ela chega do nada, chega sorrateira, se esconde quieta, se deixa ser tocada, pegada, amada e sentida no respiro de quem amamos, na lembrança de quem partiu, na graça de mais um dia a ser vivido respirando e com respingos de saúde. E talvez seja isso: não achar, não saber, mas reconhecer, sobretudo reconhecer quando ela bater à porta, mesmo de mansinho, euzinha... euzinha irei saber... eu irei saber ou entender verdadeiramente que não é outra coisa, mas, simplesmente é ELA. E isso, por todos os meus dias, me basta.

Título e Texto: Carina Bratt, de Brasília, Distrito Federal, 22-8-2026

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