Carina Bratt
ENGRAÇADO como são as coisas. Hoje de manhã, rodando aqui pelo sitio Shangri-Lá, eu mais a Ellen, neta de Aparecido e Silvia, uma amiga que trouxemos de Vila Velha, achamos um. Mas alto lá: um o quê? Um trocinho redondo, bem feito, a terra nova ao redor ainda úmida, como se tivesse sido cavado na hora em que o sol nascia. Quem passa rápido certamente não veria. Tem que abaixar, olhar devagar, espiar com toda a calma, tipo assim, com os olhos de quem já conhece o jeito gostoso da terra. É um buraco de tatu. Não tem engano. Um minúsculo buraco de tatu.
Meu pai sabia tudo de buraco. Na roça do
sitio da minha avó, onde eu passei um bom tempo da minha infância, cresci,
ouvindo ele dizer que ‘tatu é bicho que não gosta de viver em sociedade‘. Não
faz alarde. Não canta, não toca, não faz pirraça. Não deixa rastro de onde vem
nem para onde vai. Se assemelha muito, em dias de agora, aos nossos ladrões de
terninhos de grifes dependurados em nossas costas mamando nas tetas desse povo
sem eira nem beira. Quando você vê a porta redonda na terra, ele já está lá há
três dias, ou já foi embora há três noites.
Ninguém nunca vê assim de cara, no tapa, um tatu cavando. Ele faz tudo no escuro mais escuro, no silêncio calma e tranquilo como quem cumpre um acordo antigo com o chão. Meu pai tinha uma teoria engraçada. Ele apregoava que ‘cada buraco de tatu guardava um segredo. Uma confidência enorme, grandiosa, ‘mais maior’ que as dos nossos ‘reconditórios’. Tanto poderia ser um osso de galinha que ele roubou do terreiro de noite, como uma moeda de dois reais (na época dele, um vintém que alguém perdeu há cinquenta anos), como poderia ser, de igual forma, uma tristeza que a gente enterrou sem querer e depois esqueceu que existia.
E completava, sorrindo maroto: ‘Tatu não fala’. Meu papito repetia isso, cuspindo um pouco do fumo de rolo para o lado, ‘mas veja bem, minha princesinha, ele cuida. Cuida de tudo o que a terra aceita deixar guardado’. Uma vez eu quis, por pura curiosidade, cavar um. Passei a mão numa enxada pequena, fiquei quase uma hora suando o vestidinho que a mamãe me deu. Fiz um buraco três vezes maior, mais parecido com o rombo dos longevos do INSS, e não achei nada. Nem tatu, nem osso, nem moeda, nem sequer um elefante assustado disfarçado de Daniel Vorcaro. Meu pai Francisco chegou, olhou o estrago, riu bastante daquele jeito calmo dele, e disse: ‘Minha princesinha, você está procurando no lugar errado. O tatu não mora no fundo do buraco. Ele se esconde nas pregas de um saco sem fundo do poder, conhecido como ‘Poder Master’’.
Claro que meu pai não disse isso. Nem
poderia, coitado. Ele deixou desanuviado e isso é certo, que o tatu mora no
meio do caminho. Como aquela pedra ‘do Drummond de Andrade’. Quando você acha a
porta, ele já saiu pela janela que deixou de sobreaviso do outro lado do
terreno, três noites atrás, ou até mais tempo’.
Lembro que fiquei ali, olhando a terra
revirada, sem compreender nada. Hoje, do alto dos meus trinta e sete, ‘peguei a
visão’. É assim que funciona muita coisa na nossa vida, notadamente no nosso
cotidiano. A gente também faz buraco de tatu, e o faz sem perceber. Tem dia que
a gente acorda, cavouca um pouco por dentro, (ou como dizia minha avó,
‘cavuca’, se esconde um pouco do mundo, deixa um sinal discreto na superfície,
e some. Não avisa ninguém. Não deixa bilhete, não deixa uma mensagem no
celular.
Quando o outro percebe, a porta já está
lá, redonda, escancarada, bem-feita, (bem ‘fazida’, ainda lembrando dos tempos
da vovó), e a gente já está a três quilômetros de distância, cavando outro e
mais outro. Tem gente que passa a vida inteira assim: cavando buracos, abrindo
crateras, e nunca fica o tempo suficiente para ser encontrado. Tem gente que
entra num buraco e esquece que tem que sair. Tem gente que cava um enorme e
grandioso só para ver se alguém lembra dele e nota a sua presença.
Me vem à mente uma menina da minha
escola, aí pela idade de cinco ou seis anos. Trazia nos cabelinhos uma trança
cor de rosa apertada aguilhoada ou permeada por uma fita vermelha, que um dia
ajoelhou ao meu lado, na hora do recreio e quis meter a mão inteira dentro de
um buraco existente num terreno baldio perto dos muros da escola onde
estudávamos. Jurava que ‘ia tirar o tatu pra ser seu bicho de estimação: ia dar
leite com café fraco, chocolate, ia fazer uma caminha de pano no canto da sua
cama, e iria dormir com ele debaixo do cobertor’. Não tirou.
O tatu até onde ficamos sabendo depois,
já tinha ido, como sempre faz. Mas ela, pobrezinha, ficou ali uns vinte
minutos, conversando baixinho com a terra escura, como quem sabe, desde
pequena, que algumas coisas não precisamos pegar, ou tocar, para termos, ou
para sentirmos que existem. Ela hoje é grande. Se fez moça adulta, mais nova
que eu dois anos. Casou, tem uma menina linda. Por certo, já deve ter
esquecido. Euzinha nunca esqueci. Jamais! Agora eu estou aqui, de pé, no
Shangri-Lá, olhando esse buraco novo que apareceu de madrugada.
Não vou pegar a enxada. Não vou meter a
mão. Melhor deixar como está. Mas por qual razão? Porque aprendi com o meu
papito, (que já não está mais entre nós, a não ser em meu coração e no de
mamãe). Sei que os tatus, passam sem pedir licença. Como algumas portas que a
gente não precisa abrir. Basta sentir que elas existem. Saber, mesmo modo, que,
no meio da noite, quando todo mundo dorme, tem um bicho pequeno de couro duro,
que vem, que cava, que guarda o que tem que guardar, e segue o seu caminho sem
fazer um tantinho assim de barulho.
E a vida, no fundo, entendam minhas caras
leitoras das minhas ‘Danações‘ dominicais. É isso mesmo: um monte de buracos
bem feitos e organizados. Uns que a gente faz por conta própria, outros que a
gente encontra diariamente, outros tantos que vem sem sabermos os motivos ou as
razões. Resumindo tudo isso, a verdade verdadeira é que nenhum deles precisa
ter explicação demasiadamente espaçosa ou irrestrita para serem exatamente o
que são e como se farão presentes em nossa vida porvindoura.
Título e Texto: Carina Bratt, de
Vila Velha, Espírito Santo, 19-7-2026
O meu maior desejo vem exatamente daquilo que sequer tenho coragem de revelar
Não inflói, nem contribói - Mas diverte muito!
Sobre o amor
Cochinchina
O Cérbero guardião de um mundo impenetrável

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