Depois do papel ridículo dos jogadores argentinos na final da Copa do Mundo, resta torcer para que os políticos latino-americanos não sigam o mesmo caminho nas relações regionais
Nuno Vasconcellos
Alguns acontecimentos recentes
têm transformado o ambiente político na América Latina em palco de
desentendimentos permanentes. Tudo é motivo para beligerância e a situação
exige cuidados! Se os líderes regionais não derem o exemplo e não se esforçarem
para conter os ânimos, a situação pode produzir cenas tão constrangedoras
quanto as do papel ridículo dos jogadores da seleção da Argentina na final da
Copa do Mundo, no domingo passado.
Só para recordar: inconformado
com a derrota para o time da Espanha, o volante Leandro Paredes partiu para a
agressão física a adversários tão logo a partida terminou. Em tempo: o
resultado foi justo e, pelo que se viu em campo, o placar de 1 a 0 foi até
modesto. Mesmo assim, Paredes apelou feio, arrastou companheiros para a
confusão e cometeu um ato que apenas expôs seu despreparo.
Não! Ninguém está sugerindo
que, diante de impasses, o presidente de um país apele para a agressão física
contra um outro, com quem não compartilhe a visão política. A comparação com a
atitude destemperada do jogador está na ameaça de que alguém só aceite o
resultado de uma eleição caso saia vencedor.
DIVERGÊNCIAS CONHECIDAS
Um episódio que pode inflamar o debate político nos próximos dias foi a visita do presidente da Argentina Javier Milei a São Paulo neste final de semana. Por menos ocorrências extraordinárias que tenham acontecido, a visita é um prato cheio para comparações — que servirão de combustível para os dois lados durante a campanha eleitoral deste ano.
Com divergências notórias com
o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Milei não viajou ao Brasil na condição
de Chefe de Estado — mas de militante. Recebido com honras pelo governador
Tarcísio de Freitas no Palácio dos Bandeirantes, em São Paulo, participou em
seguida da convenção do PL, que oficializou a candidatura do senador Flávio
Bolsonaro à presidência da República, na Arena Pacaembu.
Dias antes, Milei teve negado
pelo STF o pedido para visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro, preso em regime
domiciliar em Brasília. Argumentos jurídicos à parte, é evidente que resposta
negativa ao pedido era a hipótese mais provável — e que Milei e seus
correligionários brasileiros só insistiram nessa ideia para tirar proveito
eleitoral do “não” que certamente receberiam como resposta.
CORRUPÇÃO DA GROSSA
É óbvio que a recusa foi
explorada por Milei no discurso longo, previsível e recheado de críticas à
esquerda diante de convencionais do PL. O apoio a Flávio é uma espécie de troco
de Milei a Lula. Em 2023, de volta ao Palácio do Planalto, o presidente apoiou
abertamente a candidatura do peronista Sergio Massa, derrotado por Milei nas
eleições argentinas de novembro. Desde então, os dois não perdem uma
oportunidade de medir forças e provocar um ao outro. No ano passado, Lula
esteve em Buenos Aires para um encontro do Mercosul e não solicitou reunião
bilateral com o argentino.
Na
ocasião, pediu e recebeu da Justiça autorização para visitar a
ex-presidente Cristina Kirchner, que cumpre pena em regime domiciliar. Ela
foi condenada por desvio de dinheiro público em mais de 50 licitações de obras
rodoviárias — ou seja, por corrupção da grossa.
Nenhuma autoridade em Brasília
comentou a viagem de Milei nem tentou impedi-la. Isso é prudente. Afinal,
qualquer passo em falso pode se voltar contra o governo e em política, assim
como no futebol, vale o princípio exposto no título deste texto: apelou,
perdeu! É evidente, porém, que a visita não agradou ao governo. E que,
certamente, haverá resposta caso o Planalto tenha se sentido incomodado por
algumas das críticas de Milei ao “socialismo do Século 21” proposto pela
esquerda.
A realidade, porém, é que as
desavenças, no ponto em que chegaram, dificultam a solução favorável de
problemas que afetam os dois países. A Argentina luta para sair a crise
econômica crônica para a qual foi empurrada por anos de irresponsabilidade
peronista.
Buscar uma proximidade efetiva
com o Brasil, mesmo conhecendo as afinidades do atual governo com os políticos
que deixaram a Argentina em estado de petição de miséria, poderia ajudar o país
a superar as atuais dificuldades. O Brasil, por sua vez, ganharia muito caso
uma proximidade com Milei o ajudasse a aplainar as divergências com os Estados
Unidos.
Pode parecer ingênuo propor
esse caminho num momento que os dois vizinhos estão cada vez mais afastados. Se
as rusgas não tivessem chegado ao ponto em que chegaram, talvez fosse possível
que governos com orientações diferentes trabalhassem na busca da solução dos
problemas comuns. No ponto em que a situação evolui, no entanto, será
necessário esperar que os astros políticos se alinhem para que Brasil e
Argentina venham um dia a caminhar juntos.
Título e Texto: Nuno
Vasconcellos, O Dia, 26-7-2026

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Não publicamos comentários de anônimos/desconhecidos.
Por favor, se optar por "Anônimo", escreva o seu nome no final do comentário.
Não use CAIXA ALTA, (Não grite!), isto é, não escreva tudo em maiúsculas, escreva normalmente. Obrigado pela sua participação!
Volte sempre!
Abraços./-