segunda-feira, 13 de julho de 2026

A fábrica de inúteis

A mãe disse não. Ele chamou advogado

Rogerio Pires 

Um vídeo correu as redes nos últimos dias e resume, em menos de um minuto, o estado de uma geração inteira. Nele, um rapaz de 24 anos aparece aos prantos. Não perdeu um parente. Não recebeu diagnóstico grave. Não foi demitido. 

Ele chora porque a mãe avisou que, depois dos 25, não vai mais pagar as contas dele. 

E a reação do rapaz, segundo o relato que viralizou, não foi procurar emprego. Foi procurar advogado. Processar a própria mãe para garantir sustento vitalício, como se ela tivesse assinado, na maternidade, um contrato de servidão perpétua. 

Pare e pense no que isso significa. 

Um homem adulto, com saúde, com estudo, com todas as ferramentas do mundo moderno na palma da mão, entende que a mulher que o pariu, criou e bancou por um quarto de século ainda lhe deve alguma coisa. E chora em público, filmando o próprio choro, esperando aplauso. 

O pior é que o aplauso vem. 

Não é caso isolado. É epidemia. 

Quem acha que se trata de um surto individual precisa olhar para o que já chegou aos tribunais mundo afora. 

Em 2020, a Suprema Corte da Itália precisou julgar o caso de um homem de 35 anos, professor de música em meio período, que exigia mesada dos pais. Alegava que 20 mil euros por ano não davam para viver no padrão que ele merecia. A corte negou. Precisou de juiz togado para dizer o óbvio: adulto se sustenta.

Três anos depois, também na Itália, uma mãe de 75 anos foi à Justiça para conseguir algo que deveria ser automático: despejar da própria casa os dois filhos, ambos na casa dos 40 anos. A imprensa local os apelidou de “parasitas”. Eles contrataram advogados para permanecer no sofá materno. 

Os números europeus contam o resto da história. O italiano médio só sai da casa dos pais aos 30 anos. Na Croácia, aos 33. Enquanto isso, na Finlândia, na Suécia e na Dinamarca, países onde ainda se cobra alguma coisa dos jovens, a média é 21. 

E no Brasil? Aqui a lei até prevê que a pensão alimentícia se estenda além dos 18 anos enquanto o filho estuda. Faz sentido para quem está na faculdade se dedicando. Mas o mecanismo virou porta aberta para a profissionalização da dependência. Tem gente colecionando matrícula de cursinho só para manter o boleto chegando na conta do pai. 

De onde vem essa gente?  

Ninguém nasce assim. Essa geração foi fabricada. 

Foi fabricada numa escola que aboliu a reprovação porque nota baixa “traumatiza”. Numa cultura que transformou qualquer frustração em “violência”. Num discurso woke que ensina o jovem a se enxergar como vítima permanente de tudo e de todos, inclusive da própria família. 

Se tudo é opressão, nada é responsabilidade. Se o mundo lhe deve reparação, trabalhar é humilhação. Se sentir desconforto é sofrer abuso, a mãe que corta o cartão de crédito vira agressora. E agressor, como se sabe, se processa. 

O resultado está aí, chorando em selfie. Uma geração de todes e nutella, embalada a vácuo, incapaz de atravessar a rua da vida adulta sem segurar a mão de alguém. De preferência, a mão que segura a carteira. 

E não pense que isso fica no âmbito privado. O jovem que processa a mãe hoje é o eleitor que amanhã vai exigir do Estado o mesmo colo eterno. É o adulto funcional que acha que o dinheiro dos outros existe para financiar o conforto dele. A conta da família de hoje é a conta do pagador de impostos de amanhã. 

No meio dessa vergonha toda, uma pessoa merece respeito: a mãe. 

Ela fez o que milhões de pais brasileiros têm medo de fazer. Estabeleceu um limite. Disse não. Empurrou o filho, ainda que aos gritos e lágrimas dele, para a vida real. Isso não é abandono. Isso é o último e mais difícil ato de amor que existe. 

Criar filho não é criar dependente. É criar gente que um dia consegue viver sem você. Toda vez que um pai cede à chantagem emocional de um adulto mimado, ele não está protegendo o filho. Está sabotando o homem que aquele filho deveria ter se tornado. 

O rapaz do vídeo vai perder o processo, se é que ele existe de verdade fora do teatro das redes sociais. Mas a pergunta que fica é outra: quantos milhares de “processos” silenciosos como esse acontecem todos os dias dentro das casas brasileiras, sem advogado, sem tribunal, vencidos pela chantagem do choro?

Título, Imagem e Texto: Rogerio Pires, Timeline, 13-7-2026

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