quarta-feira, 1 de julho de 2026

Jiang Xueqin explica e desmistifica a China

Paulo Hasse Paixão 

No curto documento vídeo que publicamos no fim deste texto, o Professor Jiang Xueqin diz tantas verdades ao mesmo tempo, principalmente sobre a China (o que foi e o que é) que até custa a assimilar as verdades tantas que ele diz. Xueqin tem esta vantagem enorme, para além daquelas com que foi agraciado geneticamente, que é a do seu percurso: um sino-canadiano formado na Ivy Leage; ou seja, um astronauta de vários mundos, filósofo híbrido de culturas e ensinamentos, condição que lhe permite ver tudo de um ponto de vista quase extraterrestre. 

Uma boa parte do clip tem até a ver com assuntos históricos e culturais sobre os quais o Contra já deixou nota concordante com aquilo que é dito por Xueqin, que tem substancialmente a ver com os chineses serem bem mais materialistas e imediatistas do que parecem, menos estrategas do que os consideramos e continuarem comportar-se dentro do modelo cultural confuciano: uma nação que se considera, compreensivelmente, dada a sua escala humana e geográfica, o centro do mundo (o ‘Império do Meio’), e que nesse sentido considera que não tem nada a aprender com os outros e tudo a ganhar com a rigidez hierárquica, o respeito pelo seu legado histórico e a as sua convicções profundamente nacionalistas.

No século XIX, a China, tecnologicamente inferior às potências ocidentais, foi humilhada por teimar no seu estático tradicionalismo, recusando valorizar a inovação científica e tecnológica. No século XXI, apresenta-se orgulhosamente como o motor mundial da inovação, e por isso continua a não ter nada que aprender com os outros, ou até que se preocupar com eles.

É a história de duas arrogâncias, na verdade. Se bem que, num caso como noutro, garantiu e garante supremacias que se estendem no quadro cronológico da história universal e são difíceis de restringir ao âmbito regional. A China, para todos os efeitos, será agora a primeira potência global. Como aliás se via a ela própria antes dos ingleses concluírem as Guerras do Ópio ao subirem, impunemente, com a sua frota devastadora de canhões, o Rio Bai até Beijing.

Neste caso paradigmático e paradoxal, a tecnologia serve a queda e o apogeu, pelo que não pode ser fator nem de uma coisa nem de outra. Por dentro do movimento civilizacional de Beijing está a estabilidade, a continuidade, o foco em evitar que a humilhação novecentista se repita e, em contraponto com a sua dialética interpretação do legado de Marx, o lucro corporativo e a prosperidade material das massas, que não apenas das elites, como acontece no Ocidente, em que as oligarquias engordam à custa dos povos que desgovernam.

Nem que para isso a China tenha de trabalhar com americanos e sionistas, britânicos e alemães, iranianos e sauditas, numa cegueira moral e até ideológica, que objetiva apenas ganhos económicos. Nem que para isso tenha que estabelecer alianças novas, com adversários históricos, como a Rússia. Nem que para isso tenha de cooperar com os Nixon e os Musk deste mundo. Nem que para isso tenha que abrir o mercado às Monsanto e às Apple do imperialismo ocidental. Nem que para isso tenha que enviar os seus filhos para as faculdades americanas.

O lendário pragmatismo dos chineses, está no cerne da sua reabilitação como entidade primeira, no concurso das nações. É também causa das suas fragilidades políticas e dependências económicas.

E sem perceber isto, não se percebe nada da cosmovisão chinesa e da realidade desta imensa e fascinante civilização.

É por isso que convém ouvir o que diz o professor-profeta.

Título, Imagem e Texto: Paulo Hasse Paixão, ContraCultura, 1-7-2026 

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