Aparecido Raimundo de Souza
Para a Lilia, a minha princesa oculta que guardo no coração.A NOSSA VIDA, por mais simples que
seja, tem dessas coisas que a razão não explica, mas o coração entende antes
mesmo de pensar. Muita gente por aí diz e repete: “quando um casamento acaba,
tudo o que veio com ele vai por água abaixo também”. De certa forma, não deixa
de ser verdade. Os parentes viram conhecidos, os laços se desfazem, os caminhos
se separam para sempre e cada um segue o seu, sem olhar para trás. Eu também,
um dia, achei que fosse realmente assim.
Até que o tempo, com a sua sabedoria quieta e contemplativa, me mostrou o contrário, e o fez na figura de uma menina que chegou à minha vida como irmã da minha então esposa Carla, e que com o passar dos anos deixou de ser apenas minha cunhada para ser, para todos os efeitos de sentimento, mais uma filha que a vida me deu de presente. Seu nome, Lília. Quando eu era casado com a Carla, ela ainda era pequena, e eu sempre a tratei com todo o carinho do mundo, exatamente como se fosse uma filha.
Dava conselhos, ouvia as suas histórias, ficava feliz com as suas vitórias, muitas vezes me preocupava com os seus medos e tristezas. E quando chegou o dia da separação, aquele momento em que muita gente some, em que portas se fecham e silêncios se instalam, o que aconteceu com a gente foi exatamente o oposto. Nós nos aproximamos ainda mais. Nunca deixamos de conversar, de nos contar como foi o dia, de compartilhar o que dava no coração.
O casamento meu com a Carla ficou no
passado, se agigantou como parte de uma história finda, mas o amor que se
construiu ali entre eu e a Lilia, não teve data de validade, não teve contrato,
ou seja, não acabou por decisão de ninguém. Lília tem uma magia própria, um
brilho incandescente, uma fagulha dourada que só quem conhece bem consegue ver.
Ela dança, e quando dança, parece que o mundo inteiro dá uma trégua para olhar.
Tenho fotos e vídeos dela, mimos guardados com muito carinho, onde a sua formosura está em movimento, sem falar no sorriso leve, os olhos brilhando numa luminosidade que chega a ser surreal. Todo o seu “eu” interior se faz entregue por inteiro à arte. E não é por acaso que ela sempre foi apaixonada por bruxinhas, feiticeiras, histórias de magia e encantamento. Para mim, isso é a coisa mais natural do mundo.
Ela mesma é um pouco feiticeira, porque
sabe fazer maior todos os demais feitiços que existem, (a meu ver, o maior
deles, qual seja, o de manter o amor vivo, pulsante), aquele gostar consagrado
que atravessa distâncias, que constrói pontes onde só existe um elo grandioso,
notadamente de separação. E é exatamente dessa ponte sobre um mar proceloso,
que eu quero falar.
Lília tem uma pessoa na família a
Narjara, que é mãe de um casal de crianças que enchem o coração de qualquer um
só de ouvir falar. Faço referência ao Miguel e a Maria. Esses dois são os meus
netos, filhos da minha filha Narjara. A verdade, porém, é de uma justeza
concisa; uma verdade doce e ao mesmo tempo um pouco amarga e dolorida: até hoje
eu nunca os abracei, nunca os peguei no colo, nunca vi o brilho dos seus olhos
de pertinho, ao vivo e a cores.
Tudo o que conheço deles, tudo o que
guardo no peito, tudo o que me faz “avô de verdade”, vem das fotos que a Lília
me manda, um dia após o outro. É ela quem me mostra o Miguel crescendo,
sorrindo, brincando, descobrindo o mundo. E hoje, justamente hoje, (ontem) esse
menino completou quatro anos de vida. Quatro anos de existência que eu
acompanho devagar, quadro a quadro, imagem por imagem, graças ao carinho dela.
É ela também quem me traz a outra neta,
a Maria, uma gracinha com a sua doçura, com o seu jeitinho ainda pequeno e
cheio de um futuro promissor, cuja idade exata às vezes escapa, mas cuja
presença no meu coração é certa, grande e definitiva, como a de todos os que
amamos. Cada foto que chega no meu celular é um abraço que vem de longe, é um
pedacinho do tempo que não se perde, é também a certeza de que, mesmo sem estar
presente fisicamente, eu estou ali, e eles estão aqui comigo, num lugarzinho
secreto.
E tem um dia, (desses dias em que a
gente nunca esquece), que ela, a Lilia, me disse uma frase curtinha, mas que
entrou penetrantemente fundo dentro de meu ser e ficou ecoando dentro do peito
e até agora mexe comigo de um jeito que não consigo explicar direito:
— Eu te considero como o meu pai...
Na hora, eu não tive palavras. Porque
pai não é só quem dá o sangue, não é só quem está registrado num papel, não é
só quem mora debaixo do mesmo teto.
Pai é quem acolhe, quem está, quem
continua, quem não some quando as coisas mudam. E se ela me vê assim, é porque
o coração dela é maior do que qualquer lei existente, do que qualquer
parentesco formal, do que qualquer separação. No papel, na história, na vida
alheia, ela é e sempre será a irmã da minha ex mulher, a minha cunhada. Mas no
cerne da alma, na verdade do sentimento, ela é a minha filha. E ponto final.
Hoje, ao parar para escrever essa
crônica, vejo claramente: Lília é essa menina mulher que dança, que gosta de
histórias de magia, que carrega feitiços bons no olhar e no jeito de ser. E o
seu maior encanto, sem dúvida nenhuma, não está em nenhuma poesia antiga nem em
nenhuma lenda que me venha a cabeça: está em ser o caminho por onde o amor
continua chegando até mim. Graças a ela, eu não sou um “avô alheio” à história
dos meus netos.
Graças a ela, cada sorriso do Miguel,
cada olhar da Maria, cada passo deles, atravessa o tempo e a distância e vem
bater aqui na porta do meu coração. Ontem Miguel fez quatro anos. Eu, o avô
desconhecido, o parabenizei de longe, com todo o amor do mundo, desejando que
ele cresça forte, feliz, saudável, e que um dia, quem sabe, esse avô que o
pequeno só conhece por fotos, possa finalmente apertá lo bem forte no colo. O
mesmo desejo se estende para a Maria.
Que da mesma forma, o Pai Grandioso
preserve a sua vida, abençoe seus passos e ilumine o seu futuro. E para você,
minha Lília, que é feita de dança, de sonho, de bruxinhas boas e de um coração
magnânimo, que não mede amor, saiba que você não é só parte da minha história.
Você é uma das coisas mais bonitas que ela me deu. Cunhada por lei, filha por
escolha do coração, fonte de luz e de carinho. Obrigado pelas fotos, com
extensão as mensagens trocadas, e no mesmo tom, por reiterar cada “estou aqui”,
e, sobretudo, por me dizer “que me vê como seu pai”.
A magia mais poderosa que existe no
mundo não está em varinhas, nem em poções, nem em encantamentos antigos. Está
exatamente no que você faz todos os dias: amar sem condições, manter viva a
família onde só prevalece a distância, e fazer com que, mesmo de longe, o amor,
ainda que debilitado, meio que sucumbido, nunca acabe. Que o Deus Maior lhe dê
muitos e muitos anos de danças, de sonhos realizados, de saúde e de Felicidade
Plena. E que nunca se esqueça: assim como você me tem como pai, eu também tenho
você, para sempre, no meu coração a sua presença infinitamente marcante como
minha filha.
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Nova Venécia, no Espírito Santo, 14-7-2026
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