Não foi só o futebol brasileiro que perdeu prestígio. A diplomacia, que já foi uma das mais respeitadas do mundo, também não consegue mostrar o mesmo brilho do passado
Nuno Vasconcellos
A frustração que se espalhou pelo país
na semana passada, depois que a derrota para o time da Noruega tirou a Seleção
Brasileira da Copa do Mundo de 2026, trouxe uma discussão que não pode ser
adiada. Uma discussão que, além do futebol, se estende a outras situações da
vida nacional. O ponto de partida do debate, que além de urgente é necessário,
é o seguinte: não é mais possível continuar tentando tapar o sol com a peneira
e seguir ignorando que os problemas do país são consequência de uma mania que
precisa ser abandonada.
Essa mania é a de se queixar das consequências sem atacar as causas dos problemas. No caso da Copa, a desclassificação não começou aos 34 minutos do segundo tempo da partida, quando Erling Haaland marcou o primeiro gol da Noruega. Ela foi consequência de erros que começaram a ser cometidos anos atrás e que, enquanto não forem corrigidos, seguirão produzindo uma decepção atrás da outra. A verdade é que o futebol do país já não é o mesmo do passado. Ele vem sendo dilapidado pelas trapalhadas e omissões dos cartolas, pelo despreparo dos treinadores, pelo endeusamento prematuro de atletas e por uma série de outros males.
Não é o caso de entrar em detalhes nem
de tentar explicar, aqui, o processo que levou à perda de força e de prestígio
internacional de uma Seleção que, embora não consiga se impor sobre os
adversários, ainda mobiliza a paixão dos brasileiros. Queiram ou não queiram os
que criticam o interesse que o futebol sempre despertou em um país que tem
problemas muito mais sérios para resolver, a Seleção sempre ajudou a projetar
uma imagem positiva do Brasil no mundo.
Nesta Copa, sob comando do italiano Carlo Ancelotti — que tem contrato com a Confederação Brasileira de Futebol até a Copa de 2030 —, o time chegou a dar ao torcedor a esperança de que poderia ter ido mais longe. O que se viu, no final das contas, foi a repetição dos erros de outros Mundiais. E a certeza de que o futebol brasileiro terá de mudar. O primeiro passo na direção de uma nova era depende de reconhecer que as glórias do passado são incapazes de garantir as vitórias do presente.
Uma das lições deixadas por essa Copa é a de que não se entrar sem o preparo adequado numa disputa com adversários bem treinados. Isso significa abrir as portas para a derrota. A verdade incômoda, porém, é que as apostas em soluções improvisadas, baseadas na crença de que, no final das contas, o talento individual é suficiente para remover as dificuldades, são atitudes que não se vê apenas em relação ao futebol. O erro que se comete em relação à Seleção se repete em outros aspectos da vida nacional. Quer um exemplo? Basta olhar para o comportamento da diplomacia brasileira nos últimos tempos.
PROVA DE DESPREPARO
Assim como os jogadores da Seleção, os diplomatas do Itamaraty já estiveram entre os mais respeitados do mundo. Por seu preparo e competência, ajudaram a construir uma imagem positiva do Brasil. E ganharam a fama de se guiar pelos interesses do país — e não pela ideologia do governo no poder.
Assim como acontece com o futebol, a
recordação do que a diplomacia já fez pelo país no passado já não é suficiente
para garantir bons resultados no presente. A impressão que se tem hoje é a de
que os diplomatas brasileiros vivem à margem da realidade e desenvolveram o
hábito de se apoiar em realidades fantasiosas para lidar com o ambiente cada
vez mais disputado e tenso que hoje cerca a geopolítica e o mercado mundial.
A cada dia fica mais claro que o
Brasil não parece à altura dos desafios que enfrenta. Na semana retrasada, por
exemplo, num momento em que as atenções do país ainda estavam tomadas pela Copa
do Mundo, o Itamaraty deu mais uma demonstração de despreparo. O problema é que
a culpa, desta vez, não pode ser atribuída a algum “estagiário”. A pixotada
veio de cima. Ela leva a assinatura do ministro das Relações Exteriores Mauro
Vieira.
O problema foi a carta do chanceler
Mauro Vieira, em resposta a uma consulta oficial feita pelo deputado Evair
Vieira de Melo (Rep./ES). O parlamentar formulou questões sobre a posição do
Brasil diante da decisão do governo dos Estados Unidos de classificar o Comando
Vermelho e o Primeiro Comando da Capital como organizações terroristas. A
resposta do chanceler foi considerada “precária e frágil” por Vieira de Melo,
que já convocou o diplomata para explicar sua posição na Câmara. Sem apresentar
um único dado convincente e sem aprofundar um milímetro na análise dos fatos
complexos que envolvem a questão, a carta se limita a reproduzir os chavões
utilizados pelo governo desde que esse assunto veio à tona.
“A designação pode servir para que
autoridades estadunidenses apliquem medidas administrativas e judiciais de
caráter unilateral e extraterritorial contra pessoas, empresas ou organizações
brasileiras, inclusive contra aquelas sem vínculos diretos com os EUA”,
escreveu e assinou o chanceler. “Adicionalmente, tal aplicação pode ocorrer com
amplo grau de discricionariedade (...) com sérias possibilidades de implicações
para cidadãos brasileiros nos planos financeiro, migratório e penal”
prosseguiu. “Finalmente, há a possibilidade do uso da força militar dos Estados
Unidos em território brasileiro”.
De acordo com o portal Poder 360, nem
o presidente Luiz Inácio Lula da Silva gostou do que leu. Na quarta-feira,
teria telefonado para o chanceler para expor seu desagrado não só pelo conteúdo
da carta, mas, também, pelo fato de o próprio ministro ter assinado um
documento que poderia ter sido confiado a um assessor graduado. Vieira não se
deu ao trabalho de explicar em que evidências se baseou para atribuir tais
intenções aos Estados Unidos. Nem apresentou um único indício dos elementos que
reuniu para chegar a tais conclusões.
O chanceler deixou claro, também, que depois da decisão do governo de Washington de classificar as facções como organizações terroristas, o Itamaraty não tomou qualquer providência em relação a isso. Ressalvou, porém, que, por se tratar de um movimento unilateral, o ato “não requer manifestação formal do governo brasileiro”. Mas que, ainda assim, o governo “tem externado sua oposição a essa medida”.
“Esse comentário é absurdo”, disse o
Departamento de Estado americano em sua manifestação sobre a carta. “Os Estados
Unidos estão tomando medidas decisivas, no âmbito de suas próprias competências
soberanas, para combater os narcoterroristas. Essas gangues brasileiras agora
atuam nos Estados Unidos, e vamos defender nosso povo contra elas", afirma
o órgão.
A decisão de Washington foi, como disse a carta, um ato unilateral — mas quem não quis conversa foi Brasília. O governo brasileiro simplesmente se recusou a tratar do assunto quando ele foi proposto pelos Estados Unidos. No dia 5 de maio de 2025 — pouco mais de um ano antes de o governo americano classificar as facções criminosas brasileiras como organizações terroristas transnacionais —, uma delegação dos Estados Unidos, chefiada por um diplomata chamado David Gamble, esteve no Brasil para tratar desse assunto.
FALANDO SOZINHO
Ex-militar, Gamble passou a trabalhar
no Departamento de Estado depois de se transferir para a reserva. O diplomata
é, atualmente, encarregado de Negócios na Embaixada dos Estados Unidos na
Malásia — ou seja, o segundo posto mais importante da representação diplomática
em um país estratégico para os interesses americanos no Sudeste Asiático. Nessa
posição, foi um dos articuladores do encontro entre os presidentes Lula, do
Brasil, e dos Estados Unidos, Donald Trump, realizado em Kuala Lumpur no dia 26
de outubro do ano passado — e que marcou a retomada das conversas entre os dois
países depois de um longo afastamento.
Quando esteve em Brasília, Gamble
respondia interinamente pela Coordenação de Sanções Internacionais do
Departamento de Estado. Talvez em razão do posto que ele ocupava naquele
momento, a missão foi cercada de especulações. Muita gente suspeitou de que a
pauta que ele trazia incluía possíveis sanções contra autoridades brasileiras —
num momento em que as tensões entre os dois governos estavam elevadas.
Nada disso. Gamble manteve reuniões
com funcionários do Itamaraty e do ministério da Justiça e tentou convencer o
Brasil a aceitar o reconhecimento das facções criminosas como Organizações
Terroristas transnacionais. Em todos os encontros que teve, ele ficou
praticamente falando sozinho. Nenhum de seus interlocutores deu a menor
importância ao assunto.
Gamble deixou a porta aberta para prosseguir as tratativas, mas o governo brasileiro não quis saber de conversa. O diplomata ainda nem tinha tomado o avião de volta a Washington quando a ideia foi descartada por Mário Sarrubbo, que na ocasião ocupava a Secretaria Nacional de Segurança Pública do Ministério da Justiça, durante a claudicante passagem de Ricardo Lewandowski pela pasta.
BANDEIRA ELEITORAL
A resistência brasileira ao diálogo
prosseguiu mesmo depois que os Estados Unidos terem dado demonstrações práticas
de que pretendiam endurecer o tratamento aos cartéis de drogas, onde quer que
eles estivessem. Em setembro de 2025, os Estados Unidos despacharam para o mar
do Caribe uma frota de guerra poderosa capitaneada pelo imponente porta-aviões
USS Gerald Ford. Em outubro tiveram início os ataques americanos às lanchas
velozes, que singravam o Atlântico e o Pacífico carregadas de drogas destinadas
ao mercado americano.
A verdade é que o Brasil, sob governos
de esquerda — que venceram cinco das seis eleições presidenciais que houve no
país no Século 21 — nada tem de positivo a apresentar em matéria de segurança
pública e de combate ao narcotráfico. Pelo contrário. O que se viu foi a
expansão e o fortalecimento de facções criminosas. Elas se alastraram,
assumiram o controle de grandes extensões de território e impuseram a milhões
de brasileiros sua própria autoridade — substituindo o Estado nas áreas sob seu
controle.
A questão, no entanto, é que a postura
leniente diante da alta bandidagem, que demonstrou ao longo dos três primeiros
anos de seu atual mandato, está cobrando um preço elevado à popularidade do
presidente Lula. Ainda mais quando se percebe a facilidade com que as facções
criminosas mais fortes do país se entranharam nos estados que estão há anos sob
administração petista. Conforme o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, a
Bahia e o Ceará, governados pelo PT, ocupam o segundo e o terceiro lugar em
matéria de índices de criminalidade, atrás apenas do Amapá — que também é
administrado por partidos de esquerda desde o início do século.
Movido, pelo que tudo indica, mais por
interesses eleitorais do que por uma preocupação legítima com o combate ao
crime, o governo tem demonstrado por esse tema um interesse que não demonstrou
nos anos anteriores. Na quarta-feira passada, o diretor-geral da Polícia
Federal, Andrei Rodrigues, participou na sede das Nações Unidas, em Nova York,
de uma conferência que reuniu chefes de polícia do mundo inteiro. Como todo
integrante do governo, Rodrigues é crítico da classificação das facções
brasileiras como organizações terroristas (até porque, seu cargo estaria em
risco se pensasse de forma diferente). Mas, no discurso em portunhol feito na
reunião da ONU, ele defendeu a cooperação internacional no combate ao crime
organizado.
Na semana passada, ele havia criticado
uma decisão do governo americano — que adotou a primeira medida contra
brasileiros com base na classificação do PCC como organização terrorista.
Na semana passada, o governo americano
divulgou as primeiras sanções contra brasileiros com base na nova classificação
dos grupos criminosos. Pela decisão, Victor Henrique de Oliveira Shimada e
Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira foram acusados de movimentar US$ 30
milhões em recursos do PCC nos Estados Unidos. Sem se importar com o fato de a
decisão ter sido tomada com base na legislação americana e estar, portanto,
embasada na soberania daquele país, o diretor-geral da PF disse que a sanção
aplicada contra a dupla foi “tecnicamente um erro grosseiro” — e insistiu na
ideia de que eles não são terroristas. Alguns dias depois, a PF deflagrou uma
operação contra os mesmíssimos alvos. Stella Stefanie chegou a ser presa — mas
já está na rua, livre, leve e solta, por decisão da Justiça Eleitoral.
A questão é definir o ponto exato em
que termina a cooperação defendida pelo diretor-geral da PF e começa a afronta
à soberania nacional temida pelo Itamaraty e criticada pelo próprio Palácio do
Planalto. Esse assunto poderia ter sido debatido ao longo dos treze longos
meses que separam a visita de Gamble e o carimbo de organização terrorista que
o Departamento de Estado dos Estados Unidos aplicou nos prontuários do PCC e do
CV. A verdade, porém, é que, a despeito de o diálogo entre os dois países ter sido
retomado nos últimos meses, as provocações de lado a lado persistiram e
alcançaram um ponto que parece agradar ao presidente Lula.
Transformada em bandeira eleitoral
pelo presidente Lula, no episódio das tarifas de 40% impostas aos produtos
brasileiros importados e retiradas pelo governo dos Estados Unidos no ano
passado, e repetidas agora, sob o risco de um novo tarifaço, desta vez de 25%
contra o Brasil, a questão da interferência americana tornou-se um assunto
recorrente no discurso de Lula. A reação às medidas de Trump parece ter sido a
mola que impulsionou a retomada da popularidade do presidente — que estava em
queda livre até o momento em que ele passou a reagir de forma enérgica às
medidas da Casa Branca.
Na semana passada, o senador Flávio
Bolsonaro (PL/RJ) participou nos Estados Unidos de uma audiência que tratou da
nova fornada de tarifas de 25%, que podem entrar em vigor a partir do próximo
dia 15 — ou seja, quarta-feira que vem. Ao contrário de Lula, a quem deverá
enfrentar nas eleições presidenciais, o senador defende o alinhamento integral
com os Estados Unidos. Esse, provavelmente, será o debate mais incandescente da
campanha que escolherá o presidente do Brasil pelos próximos quatro anos.
Não deixa de ser interessante. Por
mais que tenha procurado se manter distante dos Estados Unidos ao longo de seu
atual governo e de ter ensaiado a abertura de um diálogo que ficou só na
tentativa, Lula se deu conta de que, de certa forma, depende da ajuda de Trump
para se reeleger. Isso mesmo. A reeleição do presidente para o quarto mandato,
neste momento, depende da capacidade de Lula continuar provocando a Casa Branca
à espera de que uma reação mais enfática de Trump justifique a elevação do tom
antiamericano do discurso de Lula.
Título e Texto: Nuno Vasconcellos, O Dia, 12-7-2026
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