Aparecido Raimundo de Souza
João Eduardo no fabrico da sua Pipa,
usou as varetas de bambu fininhas, cortadas do sitio do Tio Dininho, fez um
rabo de meia dúzia de fitas coloridas que batiam em seu rosto como pequenas
bandeiras. Pronta a sua mais nova diversão, o pequeno correu para o campinho
onde jogava bola. Segurava a linha com as duas mãos, e aos poucos, com jeito,
deixou que a Pipa saísse do chão e subisse. Radioso o seu “papagaio” (1) voou
acima dos telhados vermelhos do humilde bairro e seguiu altaneiro. De repente, lá no mais distante que os olhos
quase não podiam enxergar, árvores frondosas balançavam com o vento de
concepção enfraquecida. Mais aquém até que as aves que passavam rápidas como se
tivessem pressa de chegar em lugar nenhum, a Pipa finalmente alcançou o espaço.
Ela amava aquilo. O espaço. O pequeno
João Eduardo idem. Aliás, ele sentia o ar passando por debaixo do seu
“brinquedo voador” (2), e isso o fazia leve, quase sem peso, tal como a linha
branca que o ligava do carretel à Pipa, como se fosse apenas um carinho, e não
uma prisão. A Pipa por seu turno, livre, leve e solta, queria chegar cada vez
mais perto do sol. De repente, nessa “esvoação” avistou, um pouco afastada de
todas as outras, uma nuvem muito pequena do tamanho de um travesseiro de neném,
Era essa nuvem, toda branquinha e fofa. Num dado momento, a Pipa percebeu que a
nuvenzinha chorava. Se debulhava, a coitadinha, num derramar de lágrimas
baixinho e profundamente sentido.
Todavia, sem fazer barulho. Deixava cair dos seus cantos, quase imperceptíveis, um líquido miúdo, na verdade, lágrimas fininhas como fios de cabelos, que desciam devagar e desapareciam no ar antes de tocar o chão da estrada que levava para as bandas das ruinas da Igreja de São José do Pescoço Comprido. As outras nuvens, as grandes e folgadas, aquelas metidas a bestas, passavam por ela e nem a olhavam. Algumas iam correndo para o norte, outras paravam para jogar beijos para o sol. Nenhuma, verdade seja dita, se detinha para perguntar por qual motivo a pequena se debulhava em pranto lastimoso e plangente.
— Por qual razão você chora assim,
Nuvenzinha? Inquiriu sem mais delonga, a Pipa, que se aproximou balançando o
seu rabo de fitas para chamar atenção.
A Nuvem soltou, de pronto, um soluço
miúdo, e mais uns pingos caíram.
— Porque sou pequena — respondeu, com a
voz embargada de quem tem a garganta cheia de água. — Todas as outras são
grandes, robustas, carregam chuvas fortes, fazem o arco íris escurecer o céu
quando querem. Eu sou só… eu. Dizem as minhas coirmãs que nem nuvem direito me
pareço. E às vezes olho tudo lá em baixo: as pessoas, as casas, a igreja do
padre desdentado em frente a pracinha, espio as pessoas andando abraçadas,
outras cheias de pressa, e o meu peito nessa hora fica, tão cheio de uma coisa
doce e apertada que não tem outro jeito senão escorrer a minha desilusão pelos
olhos.
Demorou muito pouco a sua pausa e a
infeliz seguiu com seu relato:
— Não sei se é alegria, se é saudade de
algo que nunca vi. Só sei que choro e me sinto ainda menor por isso...
A Pipa de João Eduardo ficou quieta por
um instante, só ouvindo e dançando devagar ao sabor do vento. Ela também
conhecia aquele sentimento de ser pequena, quase insignificante. Lembrou de um
menino perneta que morava perto da margem do rio. Dias atrás, ele tinha dito
para o amigo: “Essa Pipa de Dudu é frágil. Um vento mais possante e ela se
rasga em mil pedacinhos”.
Nesse interregno de tempo, quase que
simultaneamente, veio à lembrança da Nuvenzinha quantas pipas iguais a que
puxara conversa já tinham se perdido naquele céu imensurável, ou caído em
árvores, ou se despedaçado no asfalto em frente ao armazém do Zé das
Bugigangas.
De fato, sem tirar nem acrescentar, a
concepção de vida da Pipa de João Eduardo se resumia em ser só de papel, cola,
bambu e linha. Nada de mais grandioso. Coisa alguma que durasse para sempre.
— Eu sou pequena como pode ver — disse a Nuvenzinha deixando as suas
recordações de lado e voltando a falar bem de mansinho. É por isso, amiga Pipa que as minhas
consanguíneas riem e se afastam de mim...
A Pipa de João Eduardo tomou fôlego e
se abriu, pressurosa:
— Apesar de eu também não ser grande,
saiba que sinto o vento, vejo o mundo de um jeito melodioso. Aprecio o João
Eduardo e o primo dele, o Heitor, ambos jogando bola no campinho. Me deleito
espiando a grandiosidade do Morro da Menina da Cabeça Pelada...
— Como pode ver, minha querida
Nuvenzinha, não preciso ser grande para isso. Careço apenas de estar aqui...
Fez uma breve pausa, sorriu matreira e
continuou:
— E as suas lágrimas, Nuvenzinha? Você
acha que elas são à toa? Dias passado, presenciei uma florzinha amarela
crescendo sozinha no quintal da minha vó, a Bisa. Ela se fazia escondida numa
fenda do muro que acessa a garagem. Estava quase morrendo de sede. Quando você
começou a chorar, igual agora, eu me recordei que choveu três ou quatro dos
seus pingos às avessas e eles caíram bem em cima dela. A partir disso, ela
abriu as pétalas devagar, se engrandeceu como quem acorda de um sono bom. Também tem o ar que ficou mais leve, mais
cheiroso depois que você mandou lá para baixo, a sua chuva quase imperceptível.
Após dizer isso, a Pipa fez outra
parada e se abriu num novo sorriso ao tempo em que prosseguiu com a sua fala:
— Os meninos lá embaixo, quando sentem
seus pingos no rosto, se desembestam a sorrir, e o fazem porque pensam que o
céu está mandando beijos. Nenhuma daquelas nuvens grandes, que se concentram em
trovões e enchem o rio, conseguem fazer isso. Elas são fortes, sim. Mas você…
ah, você, minha amiga Nuvenzinha é o carinho do céu...
A Nuvenzinha parou de soluçar. Os
pingos ficaram mais raros, se quedaram literalmente leves e mais dóceis. Ela se
encolheu um pouco, e por um instante, o sol passou por dentro de sua tristeza,
revelando a sua maviosidade ímpar.
Todo o seu interior, num piscar de
pálpebras ficou cor de rosa, como quem se pega envergonhada de ter sido tão
amada sem saber.
— Eu nunca pensei nisso — sussurrou
comovida.
Naquele momento o vento virou um pouco
a sua trajetória, vindo de onde João Eduardo se encontrava segurando a linha
que seguia até a Pipa. Ele deu uma puxadinha suave, em verdade, se
consubstanciava no aviso de que iria começar a recolher. Diante disso, a Pipa
sentiu que tinha que ir embora.
— Careço de descer agora — sussurrou
com uma pontinha de tristeza. Mas se
lembre: ser pequena não é defeito. É só um jeito diferente de existir. E chorar
não é fraqueza. É o coração, o seu “eu” transbordando, porque nele cabe muita
coisa dentro, mesmo sendo pequeno...
— Vou lembrar — prometeu a
Nuvenzinha...
E antes que a Pipa começasse a sua
trajetória de descida de vez, ela deixou cair uma última lágrima, muito clara,
muito brilhante, que rolou, desceu, desceu e desceu… e pousou exatamente na
pontinha do nariz de João Eduardo. Ele fechou os olhinhos e sorriu. Sorriu sem
entender o motivo. Limpou o rosto com a manga da camisa e foi puxando a linha
devagar, trazendo de volta para casa a sua Pipa amarela, que agora entre as
suas fibras vinha, de roldão, um segredo do céu.
A Nuvenzinha ficou lá no alto, sozinha
de novo, mas já não se debulhava mais em agonia. De agora em diante, sempre que
o seu coração apertasse de tanta beleza, ela deixaria cair um ou outro pingo,
desta feita, sabendo que cada lágrima sua iria fazer um bem enorme à alguma
coisa, ou a alguma pessoa, quem sabe a um outro João Eduardo, ou ainda, abrigar
um coração solitário que também precisasse de um afago miúdo, quieto e sem
explicação. Muitas tardes se passaram desde então. Quem hoje olha para o céu,
às vezes, vê uma nuvem pequena e branca, passando devagar, e, de mãos dadas com
ela, uma Pipa amarela que parece subir mais alto do que todas as outras em
derredor, Tipo assim, como se fossem duas promessas vindas diretamente dos
olhos mansos e aconchegantes de Deus.
1) PAPAGAIO. O mesmo que Pipa.
2) BRINQUEDO VOADOR. Outra maneira diferenciada de grafar a palavra Pipa.
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Vila Velha, ES, 3-7-2026
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