terça-feira, 23 de junho de 2026

[Aparecido rasga o verbo] Por conta daquele quadrinho na parede

Aparecido Raimundo de Souza

A MINHA PRINCESA foi embora. Partiu sem aviso prévio, sem um “até breve”, ou um “até a volta”. Foi, a espevitada, sem um “adeus” formal, levando consigo no brilho dos olhos meigos, o som cálido das risadas que enchiam toda a minha esperança e, de lambuja, carregou o meu “eu” interior, outorgando ao ar a presença maciça de um vazio pesado e insubstituível em lugar dos abraços especiosos que pareciam não ter fim.

Quando fechei a porta da sala e olhei ao redor do silêncio, tudo parecia ter ficado no lugar: a coleção de vestidos, as saias e calças, as bonequinhas Barbie, os sapatos arrumados no canto, os livros na estante, a toalha de banho pendurada no gancho do banheiro. Mas nada tinha o mesmo sentido, a mesma graça. Tudo parecia sem miolo, como se o íntimo de toda a casa, do nada, num sopro, tivesse parado de existir.

Depois de dias revirando memórias e tentando encontrar um vestígio que ainda fosse dela, algo sólido que eu pudesse tocar e sentir que ela não tinha partido por completo, percebi, meu Pai Eterno, ou melhor, me dei conta de tudo o que ficou dela, só restou, palpável, o quadrinho. 

Aquele quadrinho pequeno, que eu mesmo pendurei com cuidado, que sedimentei num prego pequeno, mas bem firme, no lugar em que, a meu ver, seria o mais claro de toda a sala.

E esse lugar, sem dúvida alguma, em cima da minha escrivaninha de trabalho. Na “foto-moldura”, se vê uma casinha frenteada a um lago de águas claras, e, ao redor, muitas árvores frondosas. Poderia jurar, obviamente, em louca imaginação, ela sorrindo faceira, os cabelos esvoaçando ao sabor do vento, o seu vestidinho jeans desbotado e no rostinho ah, no rostinho, aquele ar de quem tem o mundo inteiro preso entre os dedos das mãos.

Quando ela se foi, achei apenas um registro bonito dessas lembranças. Hoje, ele é o seu último endereço aqui comigo. Minha princesinha se foi e nesse momento está voando, ganhando o mundo nas asas desses gigantes que cortam o espaço num vai e vem incessante. Quando vejo um avião passando, imagino seja ela indo para um país desconhecido, ou por outra, voltando de Nova York ou Madri.

Quem sabe pousando na França, ou indo para Dubai, Japão, Malásia, Toronto ou sobrevoando a Alemanha. O fato é que dela, dela nada mais ficou, a não ser a saudade imensa, aliás, penso com meus botões, que a minha princesinha nem lembre do pai e dos regalos dadivosos que deixou desprotegidos no âmago das minhas entranhas mais escondidas.

Às vezes, chego perto do quadrinho e passo os dedos devagar sobre o ornamento da moldura. Não sinto, verdade seja dita, a pele, tampouco me aquece o calor, bem ainda não ouço a sua voz abrandada, ou a suavidade da respiração, mas em oposto, me atropela a sua presença. É nesse quadrinho de infindas magnitudes que guardo o último pedaço visível do que fomos: o olhar, o jeito de inclinar a cabeça em meus ombros, o brilho imperecedoiro que ninguém mais tem.

A parede, antes apenas um suporte, agora é o lugarzinho sagrado onde ela continua “morando” de alguma forma, tipo assim, silenciosa, imóvel, mas sempre ali. As pessoas dizem que o tempo apaga as dores. Talvez sim, mas ele não desvalida as marcas, não esvaece os carinhos, não dissipa os aconchegos, tampouco dispersa os momentos que se fizeram inesquecíveis dentro da nossa convivência mútua de pai e filha. 

O quadrinho continua lá. Segue firme, como um recado diário: “pai, me fui daqui, mas nunca deixarei de ser a sua filha”. Minha princesa agora não anda pelos corredores. Não pede que eu prepare o seu café com leite, seu pão com manteiga, não pede, aconchegada em meus braços, à noite, antes de se recolher, que lhe “conte historinhas de príncipes encantados”.

O quadrinho continua na parede. Segue firme e forte, dependurado com o amor que ela em tempos idos me presenteou e a mesma felicidade que eu empreguei para pendurá-lo. Enquanto ele estiver ali, eu sei, o vazio não será total. Aprendi que a lembrança tem rosto, a saudade uma cor esmaecida, e a casinha parece estar incansavelmente de olhos voltados para um caminho de terra batida esperando alguns passos apenas da porta de entrada.

Na minha saudade, no meu devaneio, no meu desacerto, sei que antes de fechar os meus olhos para sempre eu a verei correndo em minha direção, os braços abertos gritando: “papai, meu papito, eu voltei...”. E então, eu morrerei feliz em saber que por ela ter voltado, (ainda que em minha imaginação conturbada pela demência), eu nunca, em nenhum momento saí definitivamente de dentro de seu coração.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Vila Velha, ES, 23-6-2026

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