Aparecido Raimundo de Souza
Quando fechei a porta da sala e olhei
ao redor do silêncio, tudo parecia ter ficado no lugar: a coleção de vestidos,
as saias e calças, as bonequinhas Barbie, os sapatos arrumados no canto, os
livros na estante, a toalha de banho pendurada no gancho do banheiro. Mas nada
tinha o mesmo sentido, a mesma graça. Tudo parecia sem miolo, como se o íntimo
de toda a casa, do nada, num sopro, tivesse parado de existir.
Depois de dias revirando memórias e tentando encontrar um vestígio que ainda fosse dela, algo sólido que eu pudesse tocar e sentir que ela não tinha partido por completo, percebi, meu Pai Eterno, ou melhor, me dei conta de tudo o que ficou dela, só restou, palpável, o quadrinho.
Aquele quadrinho pequeno, que eu mesmo
pendurei com cuidado, que sedimentei num prego pequeno, mas bem firme, no lugar
em que, a meu ver, seria o mais claro de toda a sala.
E esse lugar, sem dúvida alguma, em cima da minha escrivaninha de trabalho. Na “foto-moldura”, se vê uma casinha frenteada a um lago de águas claras, e, ao redor, muitas árvores frondosas. Poderia jurar, obviamente, em louca imaginação, ela sorrindo faceira, os cabelos esvoaçando ao sabor do vento, o seu vestidinho jeans desbotado e no rostinho ah, no rostinho, aquele ar de quem tem o mundo inteiro preso entre os dedos das mãos.
Quando ela se foi, achei apenas um
registro bonito dessas lembranças. Hoje, ele é o seu último endereço aqui
comigo. Minha princesinha se foi e nesse momento está voando, ganhando o mundo
nas asas desses gigantes que cortam o espaço num vai e vem incessante. Quando
vejo um avião passando, imagino seja ela indo para um país desconhecido, ou por
outra, voltando de Nova York ou Madri.
Quem sabe pousando na França, ou indo
para Dubai, Japão, Malásia, Toronto ou sobrevoando a Alemanha. O fato é que
dela, dela nada mais ficou, a não ser a saudade imensa, aliás, penso com meus
botões, que a minha princesinha nem lembre do pai e dos regalos dadivosos que
deixou desprotegidos no âmago das minhas entranhas mais escondidas.
Às vezes, chego perto do quadrinho e
passo os dedos devagar sobre o ornamento da moldura. Não sinto, verdade seja
dita, a pele, tampouco me aquece o calor, bem ainda não ouço a sua voz
abrandada, ou a suavidade da respiração, mas em oposto, me atropela a sua
presença. É nesse quadrinho de infindas magnitudes que guardo o último pedaço
visível do que fomos: o olhar, o jeito de inclinar a cabeça em meus ombros, o
brilho imperecedoiro que ninguém mais tem.
A parede, antes apenas um suporte,
agora é o lugarzinho sagrado onde ela continua “morando” de alguma forma, tipo
assim, silenciosa, imóvel, mas sempre ali. As pessoas dizem que o tempo apaga
as dores. Talvez sim, mas ele não desvalida as marcas, não esvaece os carinhos,
não dissipa os aconchegos, tampouco dispersa os momentos que se fizeram
inesquecíveis dentro da nossa convivência mútua de pai e filha.
O quadrinho continua lá. Segue firme,
como um recado diário: “pai, me fui daqui, mas nunca deixarei de ser a sua
filha”. Minha princesa agora não anda pelos corredores. Não pede que eu prepare
o seu café com leite, seu pão com manteiga, não pede, aconchegada em meus
braços, à noite, antes de se recolher, que lhe “conte historinhas de príncipes
encantados”.
O quadrinho continua na parede. Segue
firme e forte, dependurado com o amor que ela em tempos idos me presenteou e a
mesma felicidade que eu empreguei para pendurá-lo. Enquanto ele estiver ali, eu
sei, o vazio não será total. Aprendi que a lembrança tem rosto, a saudade uma
cor esmaecida, e a casinha parece estar incansavelmente de olhos voltados para
um caminho de terra batida esperando alguns passos apenas da porta de entrada.
Na minha saudade, no meu devaneio, no
meu desacerto, sei que antes de fechar os meus olhos para sempre eu a verei
correndo em minha direção, os braços abertos gritando: “papai, meu papito, eu
voltei...”. E então, eu morrerei feliz em saber que por ela ter voltado, (ainda
que em minha imaginação conturbada pela demência), eu nunca, em nenhum momento
saí definitivamente de dentro de seu coração.
Título e Texto: Aparecido Raimundo
de Souza, de Vila Velha, ES, 23-6-2026
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