domingo, 21 de junho de 2026

Muito além do futebol — 2

Na Copa de 1974, o Brasil enfrentou a Holanda sem procurar saber como o adversário jogava. É o mesmo erro dos que falam de paz no Oriente Médio sem considerar os valores das tribos locais


Nuno Vasconcellos

A vitória por 3 a 0 sobre a frágil equipe do Haiti, na noite de sexta-feira passada, foi insuficiente para devolver ao torcedor a confiança perdida na seleção brasileira. Além de não construir um placar mais amplo e de perder uma oportunidade de gol atrás da outra, o time dirigido pelo italiano Carlo Ancelotti ainda pareceu meio perdidão em campo — sem passar a impressão de ter força suficiente para enfrentar os adversários mais fortes e bem treinados que terá pela frente nas próximas etapas do torneio. Essa é a opinião de um analista frio, que prefere ver o cenário pelo lado das dificuldades e não apostar todas as fichas em um time que, é inegável, conta com jogadores talentosos e capazes de resolver uma partida na base do talento individual.

O lado torcedor, é claro, deseja e considera possível que os convocados de Ancelotti se acertem, passem a dar um show de bola atrás do outro e consigam voltar desta Copa com uma imagem diferente das que os times brasileiros deixaram nas competições anteriores. E que deem exemplos mais positivos do que deram nas competições passadas, quando pareciam mais preocupados em ensaiar dancinhas para comemorar gols do que em se empenhar para marcá-los. Seja como for, é impossível não se envolver com o clima da disputa e ficar indiferente diante de um evento tão mobilizador quanto uma Copa do Mundo de Futebol.

Para se sair bem em um torneio dessa dimensão é preciso não apenas reconhecer as próprias deficiências — para corrigi-las enquanto há tempo — como, também, olhar para os adversários, ver o que eles têm de melhor e considerar a melhor maneira de lidar com eles. A propósito, uma atitude que — no futebol, na política, nos negócios e nas relações internacionais — não leva ninguém a lugar algum é a de encarar um determinado problema contando apenas com a própria visão sobre ele — sem tentar entender o cenário em profundidade e sem levar em conta o que o outro lado tem a dizer sobre o assunto. Foi o que aconteceu, por exemplo, na Copa do Mundo de 1974, na Alemanha.

Com o prestígio do tricampeonato conquistado na Copa anterior, no México, e sob comando de um treinador que tinha méritos, mas agia como se não tivesse nada a aprender com quem quer que seja, a seleção brasileira precisava derrotar o time da Holanda para chegar à final. Àquela altura, o prestígio do time do Brasil era muito superior ao do adversário. Só que os holandeses, comandados pelo treinador Rinus Michels, vinham encantando torcedores do mundo inteiro com um futebol ágil e moderno, baseado na troca de passes em alta velocidade — que ficou conhecido como Carrossel Holandês.

Todos queriam ver aquele time jogar — menos uma pessoa. O treinador da seleção brasileira, Mário Jorge Lobo Zagallo. Chegou a dizer que seu time nada tinha a aprender com a “Laranja Mecânica” — apelido baseado no filme de Stanley Kubrick, que havia feito sucesso e causado incômodo naquela época. Pois bem... Quando se encontraram para medir forças, na reta final do torneio, foi um fiasco para o Brasil. A partida, disputada na cidade de Dortmund, terminou em 2 a 0 para a equipe da Holanda e a impressão que ficou foi a de que Johan Neeskens, Johan Cruyff (autores dos gols) e seus companheiros só não ampliaram o placar porque pouparam para o jogo seguinte. Zagallo jamais admitiu o erro que cometeu por ter ignorado solenemente o adversário — e o Brasil iniciou ali a um jejum de títulos que se estenderia por 20 anos.

A lição desse tipo de comportamento é evidente e, infelizmente, não se aplica apenas ao futebol. Entrar em qualquer frente de batalha sem levar em conta as características de quem está do outro lado, sem procurar saber como o oponente pensa e age — e, pior, sem procurar conhecer os valores que o inspiram — é um erro que pode custar caro. No caso do Oriente Médio, por exemplo, a arrogância das potências ocidentais, que no início do Século 20 quiseram impor à força um modelo político baseado em seus próprios valores, princípios e modelos de organização foi um erro que vem cobrando um preço elevado do mundo inteiro.

No domingo passado, esta coluna abordou a raiz profunda do fracasso crônico das políticas ocidentais no Oriente Médio. Foi mostrado, aqui, como a insistência arrogante em exportar o modelo europeu de Estado Nação para uma região de sociologia estritamente tribal e baseada em clãs resultou em Estados artificiais e disfuncionais. Países como a Síria, o Iraque e a Líbia, desenhados a régua e esquadro por potências coloniais, são hoje sinônimo de caos, guerra civil e ditaduras brutais — precisamente porque tentaram forçar a convivência de dezenas de tribos e etnias rivais sob um mesmo teto institucional.

Foi discutido, também, como a Autoridade Palestina sofre exatamente do mesmo mal de origem: é uma estrutura imposta de cima para baixo, desenhada nos gabinetes de Oslo e Washington, e liderada por figuras frequentemente vistas como forasteiras e ilegítimas pelas próprias tribos locais que deveriam governar. Se o diagnóstico, fundamentado na brilhante e implacável análise do doutor Mordechai Kedar — acadêmico e ex-oficial da Inteligência Militar de Israel —, é o de que a governança no mundo árabe só funciona quando respeita a sociologia orgânica da região, qual é, afinal, a saída para o labirinto israelo-palestino?

LEALDADE E RESPEITO — A resposta não está nos corredores acarpetados da ONU em Nova York, nem em novas rodadas de negociações baseadas em concessões territoriais utópicas, que ignoram a realidade do terreno. A resposta está na observação empírica e pragmática do que já deu certo no mundo árabe. Basta olhar para o Golfo Pérsico. Os Emirados Árabes Unidos, o Catar, o Kuwait e Omã são exemplos inquestionáveis de estabilidade, segurança e prosperidade econômica.

O segredo do seu sucesso não é apenas a abundância de petróleo — afinal, como já foi dito aqui, o Iraque e a Líbia também nadam no ouro negro, mas vivem num inferno de violência. O verdadeiro diferencial do Golfo é estrutural: nestes países, a fronteira política coincide milimetricamente com a fronteira tribal. Cada emirado é governado por um clã hegemônico e consolidado ao longo de séculos.

Em Abu Dhabi, governa a família Al-Nahyan; em Dubai, os Al-Maktoum; no Catar, os Al-Thani. Não há conflito de identidade nacional, não há disputas sectárias pelo controle do Estado, porque o Estado é, pura e simplesmente, a extensão natural da tribo. A autoridade do governante não deriva de uma eleição ao estilo ocidental, mas do respeito sociológico e histórico que o seu clã impõe.

Aplicada ao mundo corporativo e dos negócios, essa lógica equivale a reconhecer que uma grande fusão forçada entre empresas de culturas incompatíveis está fadada ao fracasso e à destruição de valor. A solução mais inteligente para destravar esse valor e garantir a viabilidade da operação não é insistir teimosamente na fusão, mas sim promover spin-offs. É descentralizar a gestão, entregando o controle das unidades de negócio a quem tem a verdadeira autoridade orgânica, o conhecimento íntimo do terreno e o respeito das equipes locais.

É exatamente esta a "Solução dos Emirados" proposta pelo doutor Kedar para a Cisjordânia. Em vez de tentar construir um Estado palestino unificado — que, dadas as rivalidades tribais e a ausência de uma verdadeira coesão nacional, inevitavelmente se tornaria mais um palco de guerra civil entre facções rivais, à semelhança do que aconteceu em Gaza entre o Hamas e o Fatah —, a alternativa pragmática é criar cidades-estado baseadas nos clãs locais.

Na prática, isso significaria desmantelar a disfuncional e corrupta Autoridade Palestina e transferir o poder diretamente para as famílias que já detêm a lealdade e o respeito nas ruas. Hebron, por exemplo, uma das cidades mais importantes da região, seria um emirado governado pelos clãs dominantes locais, como os Jabari, os Qawasmeh ou os Tamimi. Jericó seria gerida pelo clã Arikat. O mesmo modelo de cidade-estado autônoma se aplicaria a Ramallah, Nablus, Jenin, Tulkarm e Qalqilya.

Cada uma destas cidades se tornaria um emirado independente, responsável pela sua própria administração, economia, educação e segurança interna. As áreas rurais e os espaços abertos entre estas cidades-estado permaneceriam sob o controle soberano de Israel, garantindo a segurança estratégica da região e oferecendo cidadania israelense aos residentes dessas zonas menos povoadas, que representam uma minoria demográfica.

Esta abordagem resolve, de uma só vez, o problema crônico da legitimidade. Um líder de clã em Hebron não precisa de eleições monitoradas por observadores europeus para ser reconhecido pelos seus; a sua autoridade é histórica, sociológica e inquestionável. Além disso, um emirado focado no desenvolvimento local, sem a ambição irrealista e teologicamente motivada de destruir o vizinho israelense, tem todos os incentivos para prosperar economicamente. Pode atrair investimentos, desenvolver infraestruturas e gerar riqueza para a sua população, exatamente como fez o Dubai, transformando-se de uma vila de pescadores num hub financeiro global.

Esta proposta resolve também, de forma elegante, uma das maiores farsas humanitárias do século XX e XXI: a questão dos refugiados palestinos. Como Kedar não se cansa de apontar, com uma indignação que se transmite no tom da sua voz, não existe em parte alguma do mundo um caso comparado de status de refugiado hereditário, transmitido de geração em geração, por décadas a fio. "Onde no mundo você vê refugiados dos anos 40 cujos bisnetos hoje ainda são refugiados?” pergunta o especialista. “Não existe tal coisa no mundo inteiro".

E, aqui, cabe um comentário: Kedar, como israelense, talvez observe esse fenômeno com menos desconforto do que nós, como ocidentais, devemos avaliar nossa atitude em relação a essa realidade. Ao longo de décadas, vimos financiando essa máquina de perpetuar o problema e chamamos isso de ajuda humanitária. O Brasil sempre se orgulhou do “equilíbrio” de uma diplomacia que, nos últimos anos, se deixou contaminar por uma postura ideológica claramente anti-israelense. E nunca se deu ao trabalho de questionar a lógica da UNRWA, a agência das Nações Unidas para refugiados palestinos. Preferiu a fotografia bonita e os discursos inflamados em favor da causa palestina do que encarar essa pergunta incômoda.

DIMENSÃO REGIONAL — A ONU criou, específica e exclusivamente para os palestinos, uma agência separada (a UNRWA) cuja lógica perversa é perpetuar indefinidamente o problema, em vez de resolvê-lo. Para todos os outros refugiados do planeta, do Vietnã ao Sudão, vale o ACNUR, cujo mandato é reassentar e integrar. Ao criar emirados-cidade soberanos, com economia própria e capacidade de absorver população, o problema dos refugiados deixa de ser uma arma política eterna e passa a ser, finalmente, uma questão de gestão demográfica e econômica solucionável.

Há ainda uma dimensão regional que torna esta solução particularmente atraente no momento atual da geopolítica. Os Acordos de Abraão, assinados em 2020 entre Israel, Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Sudão e Marrocos, já demonstraram que existe um caminho viável de cooperação econômica e diplomática entre Israel e o mundo árabe sunita pragmático. Esses acordos não foram alcançados através da velha fórmula de "terra por paz", mas sim através do reconhecimento mútuo de interesses estratégicos comuns — especialmente, a contenção do expansionismo iraniano xiita. A "Solução dos Emirados" para a Cisjordânia se encaixaria perfeitamente nesta nova arquitetura regional. Um conjunto de cidades-estado palestinas pragmáticas, integradas economicamente com Israel, com a Jordânia e com os próprios Emirados Árabes Unidos, criaria um cinturão de prosperidade e estabilidade incomparável com o paradigma falido do "processo de paz" tradicional, que beneficiou apenas burocratas, organizações não-governamentais milionárias e líderes corruptos da Autoridade Palestina.

Evidentemente, essa solução exige que o Ocidente abandone suas ilusões românticas e o seu complexo de salvador. Quem acompanha a política europeia como eu acompanho percebe que o bloco padece com uma paralisia decisória crônica—em que se destaca a incapacidade de agir sem antes formar um consenso de 27 vozes que se anulam mutuamente. É a mesma lógica que trava
conselhos, fusões e governos: confunde-se debate infinito com prudência, e quando a decisão enfim chega, a situação já mudou.

No caso do Oriente Médio, é mandatório aceitar a realpolitik nua e crua da região, onde as regras do jogo são ditadas pela força, pela honra tribal e pela religião, e não por resoluções do Conselho de Segurança. Como Kedar faz questão de lembrar, citando o conceito islâmico da "Paz de Hudaybiyyah", no mundo árabe-islâmico a paz duradoura só é mantida com quem é percebido como forte demais e letal.

Os árabes não fazem a paz porque de repente se apaixonaram pelos valores do sionismo ou da democracia liberal. Fazem a paz por pragmatismo e instinto de sobrevivência. Qualquer sinal de fraqueza, qualquer hesitação ou concessão territorial feita em nome de apaziguamento, é imediatamente interpretada não como um gesto de boa vontade, mas como um convite à agressão. A estabilidade de Israel — e, por extensão, de toda a região — depende inteiramente da sua capacidade de projetar uma força dissuasora inquestionável. Naturalmente, os críticos desta proposta levantarão objeções previsíveis. Dirão que se trata de uma fragmentação, de uma "balcanização" da Cisjordânia, de uma violação do princípio sagrado da autodeterminação nacional palestina.

ESTRUTURAS ESTRANGEIRAS — A esses críticos, vale responder com uma pergunta simples e direta: que autodeterminação nacional? A de quem? A do clã Jabari, a do clã Masri ou a do clã Tamimi? A do Hamas em Gaza ou a da Autoridade Palestina em Ramallah? A nação palestina, no sentido moderno e ocidental do termo, simplesmente não existe e nunca existiu como entidade coesa. O que existe é um conjunto de clãs e cidades com identidades próprias, frequentemente em conflito entre si.

Reconhecer essa realidade não é fragmentar artificialmente uma nação; é simplesmente parar de fingir que essa nação existe e dar a cada clã a soberania que ele de fato consegue exercer sobre o seu próprio território. Outra objeção comum é que esta solução seria "imposta" por Israel à população palestina. Mas qual foi, exatamente, a alternativa que não foi imposta?

Os Acordos de Sykes-Picot foram impostos pelos colonizadores europeus. As fronteiras de 1948 foram impostas pela ONU. A Autoridade Palestina foi imposta por Oslo, com Arafat “parachutado” de Túnis. O Hamas, por sua vez, impôs-se pela força das armas em Gaza, em 2007, atirando rivais do Fatah dos telhados. A diferença fundamental da "Solução dos Emirados" é que ela não impõe estruturas estrangeiras a uma população local; pelo contrário, devolve o poder às estruturas locais que já existem e operam organicamente. É a única proposta que parte do princípio de respeitar quem realmente comanda no terreno, em vez de inventar lideranças fictícias para satisfazer a vaidade dos chanceleres.

A "Solução dos Emirados" não é perfeita para os padrões idealistas dos diplomatas de Genebra ou dos acadêmicos de esquerda nas universidades ocidentais. Não rende Prêmios Nobel da Paz nem aplausos em editoriais do New York Times. Mas tem uma vantagem imbatível sobre todas as outras propostas tentadas e fracassadas no último século: ela é compatível com a realidade.

Ao alinhar a estrutura política com a sociologia tribal profunda, substitui-se a utopia sangrenta pelo pragmatismo funcional. E, no fim do dia, seja na complexa geopolítica do Oriente Médio ou na gestão de um grande grupo empresarial, o que importa não é o quão bonita e moralmente edificante a teoria parece no papel, mas sim a sua capacidade de gerar resultados reais, estabilidade e prosperidade sustentável. É hora de rasgar o mapa velho e começar a ler o terreno como ele realmente é.

Não se trata, simplesmente, de manifestar simpatia pela tese de Kedar. Minha posição é reflexo do que aprendi nos trinta anos em que tenho assento em mesas de negociações. Uma estrutura que ignora a realidade do terreno não sobrevive ao primeiro teste de força. Isso vale para uma fusão de bilhões, vale para um conselho, vale para um Estado.

Título e Texto: Nuno Vasconcellos, O Dia, 21-6-2026; Arte: O Dia

Relacionado:
Muito além do futebol


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Não publicamos comentários de anônimos/desconhecidos.

Por favor, se optar por "Anônimo", escreva o seu nome no final do comentário.

Não use CAIXA ALTA, (Não grite!), isto é, não escreva tudo em maiúsculas, escreva normalmente. Obrigado pela sua participação!
Volte sempre!
Abraços./-