Na Copa de 1974, o Brasil enfrentou a Holanda sem procurar saber como o adversário jogava. É o mesmo erro dos que falam de paz no Oriente Médio sem considerar os valores das tribos locais
Nuno Vasconcellos
A vitória por 3 a 0 sobre a
frágil equipe do Haiti, na noite de sexta-feira passada, foi insuficiente para
devolver ao torcedor a confiança perdida na seleção brasileira. Além de não
construir um placar mais amplo e de perder uma oportunidade de gol atrás da
outra, o time dirigido pelo italiano Carlo Ancelotti ainda pareceu meio
perdidão em campo — sem passar a impressão de ter força suficiente para
enfrentar os adversários mais fortes e bem treinados que terá pela frente nas
próximas etapas do torneio. Essa é a opinião de um analista frio, que prefere
ver o cenário pelo lado das dificuldades e não apostar todas as fichas em um
time que, é inegável, conta com jogadores talentosos e capazes de resolver uma
partida na base do talento individual.
O lado torcedor, é claro,
deseja e considera possível que os convocados de Ancelotti se acertem, passem a
dar um show de bola atrás do outro e consigam voltar desta Copa com uma imagem
diferente das que os times brasileiros deixaram nas competições anteriores. E
que deem exemplos mais positivos do que deram nas competições passadas, quando
pareciam mais preocupados em ensaiar dancinhas para comemorar gols do que em se
empenhar para marcá-los. Seja como for, é impossível não se envolver com o
clima da disputa e ficar indiferente diante de um evento tão mobilizador quanto
uma Copa do Mundo de Futebol.
Para se sair bem em um torneio dessa dimensão é preciso não apenas reconhecer as próprias deficiências — para corrigi-las enquanto há tempo — como, também, olhar para os adversários, ver o que eles têm de melhor e considerar a melhor maneira de lidar com eles. A propósito, uma atitude que — no futebol, na política, nos negócios e nas relações internacionais — não leva ninguém a lugar algum é a de encarar um determinado problema contando apenas com a própria visão sobre ele — sem tentar entender o cenário em profundidade e sem levar em conta o que o outro lado tem a dizer sobre o assunto. Foi o que aconteceu, por exemplo, na Copa do Mundo de 1974, na Alemanha.
Com o prestígio do
tricampeonato conquistado na Copa anterior, no México, e sob comando de um
treinador que tinha méritos, mas agia como se não tivesse nada a aprender com
quem quer que seja, a seleção brasileira precisava derrotar o time da Holanda
para chegar à final. Àquela altura, o prestígio do time do Brasil era muito
superior ao do adversário. Só que os holandeses, comandados pelo treinador
Rinus Michels, vinham encantando torcedores do mundo inteiro com um futebol
ágil e moderno, baseado na troca de passes em alta velocidade — que ficou
conhecido como Carrossel Holandês.
Todos queriam ver aquele time
jogar — menos uma pessoa. O treinador da seleção brasileira, Mário Jorge Lobo
Zagallo. Chegou a dizer que seu time nada tinha a aprender com a “Laranja
Mecânica” — apelido baseado no filme de Stanley Kubrick, que havia feito
sucesso e causado incômodo naquela época. Pois bem... Quando se encontraram
para medir forças, na reta final do torneio, foi um fiasco para o Brasil. A
partida, disputada na cidade de Dortmund, terminou em 2 a 0 para a equipe da
Holanda e a impressão que ficou foi a de que Johan Neeskens, Johan Cruyff
(autores dos gols) e seus companheiros só não ampliaram o placar porque
pouparam para o jogo seguinte. Zagallo jamais admitiu o erro que cometeu por
ter ignorado solenemente o adversário — e o Brasil iniciou ali a um jejum de
títulos que se estenderia por 20 anos.
A lição desse tipo de
comportamento é evidente e, infelizmente, não se aplica apenas ao futebol.
Entrar em qualquer frente de batalha sem levar em conta as características de
quem está do outro lado, sem procurar saber como o oponente pensa e age — e, pior,
sem procurar conhecer os valores que o inspiram — é um erro que pode custar
caro. No caso do Oriente Médio, por exemplo, a arrogância das potências
ocidentais, que no início do Século 20 quiseram impor à força um modelo
político baseado em seus próprios valores, princípios e modelos de organização
foi um erro que vem cobrando um preço elevado do mundo inteiro.
No domingo passado, esta
coluna abordou a raiz profunda do fracasso crônico das políticas ocidentais no
Oriente Médio. Foi mostrado, aqui, como a insistência arrogante em exportar o
modelo europeu de Estado Nação para uma região de sociologia estritamente
tribal e baseada em clãs resultou em Estados artificiais e disfuncionais.
Países como a Síria, o Iraque e a Líbia, desenhados a régua e esquadro por
potências coloniais, são hoje sinônimo de caos, guerra civil e ditaduras
brutais — precisamente porque tentaram forçar a convivência de dezenas de
tribos e etnias rivais sob um mesmo teto institucional.
Foi discutido, também, como a
Autoridade Palestina sofre exatamente do mesmo mal de origem: é uma estrutura
imposta de cima para baixo, desenhada nos gabinetes de Oslo e Washington, e
liderada por figuras frequentemente vistas como forasteiras e ilegítimas pelas
próprias tribos locais que deveriam governar. Se o diagnóstico, fundamentado na
brilhante e implacável análise do doutor Mordechai Kedar — acadêmico e
ex-oficial da Inteligência Militar de Israel —, é o de que a governança no
mundo árabe só funciona quando respeita a sociologia orgânica da região, qual
é, afinal, a saída para o labirinto israelo-palestino?
LEALDADE E RESPEITO — A
resposta não está nos corredores acarpetados da ONU em Nova York, nem em novas
rodadas de negociações baseadas em concessões territoriais utópicas, que
ignoram a realidade do terreno. A resposta está na observação empírica e
pragmática do que já deu certo no mundo árabe. Basta olhar para o Golfo
Pérsico. Os Emirados Árabes Unidos, o Catar, o Kuwait e Omã são exemplos
inquestionáveis de estabilidade, segurança e prosperidade econômica.
O segredo do seu sucesso não é
apenas a abundância de petróleo — afinal, como já foi dito aqui, o Iraque e a
Líbia também nadam no ouro negro, mas vivem num inferno de violência. O
verdadeiro diferencial do Golfo é estrutural: nestes países, a fronteira política
coincide milimetricamente com a fronteira tribal. Cada emirado é governado por
um clã hegemônico e consolidado ao longo de séculos.
Em Abu Dhabi, governa a
família Al-Nahyan; em Dubai, os Al-Maktoum; no Catar, os Al-Thani. Não há
conflito de identidade nacional, não há disputas sectárias pelo controle do
Estado, porque o Estado é, pura e simplesmente, a extensão natural da tribo. A
autoridade do governante não deriva de uma eleição ao estilo ocidental, mas do
respeito sociológico e histórico que o seu clã impõe.
Aplicada ao mundo corporativo
e dos negócios, essa lógica equivale a reconhecer que uma grande fusão forçada
entre empresas de culturas incompatíveis está fadada ao fracasso e à destruição
de valor. A solução mais inteligente para destravar esse valor e garantir a
viabilidade da operação não é insistir teimosamente na fusão, mas sim promover
spin-offs. É descentralizar a gestão, entregando o controle das unidades de
negócio a quem tem a verdadeira autoridade orgânica, o conhecimento íntimo do
terreno e o respeito das equipes locais.
É exatamente esta a
"Solução dos Emirados" proposta pelo doutor Kedar para a Cisjordânia.
Em vez de tentar construir um Estado palestino unificado — que, dadas as
rivalidades tribais e a ausência de uma verdadeira coesão nacional,
inevitavelmente se tornaria mais um palco de guerra civil entre facções rivais,
à semelhança do que aconteceu em Gaza entre o Hamas e o Fatah —, a alternativa
pragmática é criar cidades-estado baseadas nos clãs locais.
Na prática, isso significaria
desmantelar a disfuncional e corrupta Autoridade Palestina e transferir o poder
diretamente para as famílias que já detêm a lealdade e o respeito nas ruas.
Hebron, por exemplo, uma das cidades mais importantes da região, seria um
emirado governado pelos clãs dominantes locais, como os Jabari, os Qawasmeh ou
os Tamimi. Jericó seria gerida pelo clã Arikat. O mesmo modelo de cidade-estado
autônoma se aplicaria a Ramallah, Nablus, Jenin, Tulkarm e Qalqilya.
Cada uma destas cidades se
tornaria um emirado independente, responsável pela sua própria administração,
economia, educação e segurança interna. As áreas rurais e os espaços abertos
entre estas cidades-estado permaneceriam sob o controle soberano de Israel,
garantindo a segurança estratégica da região e oferecendo cidadania israelense
aos residentes dessas zonas menos povoadas, que representam uma minoria
demográfica.
Esta abordagem resolve, de uma
só vez, o problema crônico da legitimidade. Um líder de clã em Hebron não
precisa de eleições monitoradas por observadores europeus para ser reconhecido
pelos seus; a sua autoridade é histórica, sociológica e inquestionável. Além
disso, um emirado focado no desenvolvimento local, sem a ambição irrealista e
teologicamente motivada de destruir o vizinho israelense, tem todos os
incentivos para prosperar economicamente. Pode atrair investimentos,
desenvolver infraestruturas e gerar riqueza para a sua população, exatamente
como fez o Dubai, transformando-se de uma vila de pescadores num hub financeiro
global.
Esta proposta resolve também,
de forma elegante, uma das maiores farsas humanitárias do século XX e XXI: a
questão dos refugiados palestinos. Como Kedar não se cansa de apontar, com uma
indignação que se transmite no tom da sua voz, não existe em parte alguma do
mundo um caso comparado de status de refugiado hereditário, transmitido de
geração em geração, por décadas a fio. "Onde no mundo você vê refugiados
dos anos 40 cujos bisnetos hoje ainda são refugiados?” pergunta o especialista.
“Não existe tal coisa no mundo inteiro".
E, aqui, cabe um comentário:
Kedar, como israelense, talvez observe esse fenômeno com menos desconforto do
que nós, como ocidentais, devemos avaliar nossa atitude em relação a essa
realidade. Ao longo de décadas, vimos financiando essa máquina de perpetuar o
problema e chamamos isso de ajuda humanitária. O Brasil sempre se orgulhou do
“equilíbrio” de uma diplomacia que, nos últimos anos, se deixou contaminar por
uma postura ideológica claramente anti-israelense. E nunca se deu ao trabalho
de questionar a lógica da UNRWA, a agência das Nações Unidas para refugiados
palestinos. Preferiu a fotografia bonita e os discursos inflamados em favor da
causa palestina do que encarar essa pergunta incômoda.
DIMENSÃO REGIONAL — A
ONU criou, específica e exclusivamente para os palestinos, uma agência separada
(a UNRWA) cuja lógica perversa é perpetuar indefinidamente o problema, em vez
de resolvê-lo. Para todos os outros refugiados do planeta, do Vietnã ao Sudão,
vale o ACNUR, cujo mandato é reassentar e integrar. Ao criar emirados-cidade
soberanos, com economia própria e capacidade de absorver população, o problema
dos refugiados deixa de ser uma arma política eterna e passa a ser, finalmente,
uma questão de gestão demográfica e econômica solucionável.
Há ainda uma dimensão regional
que torna esta solução particularmente atraente no momento atual da
geopolítica. Os Acordos de Abraão, assinados em 2020 entre Israel, Emirados
Árabes Unidos, Bahrein, Sudão e Marrocos, já demonstraram que existe um caminho
viável de cooperação econômica e diplomática entre Israel e o mundo árabe
sunita pragmático. Esses acordos não foram alcançados através da velha fórmula
de "terra por paz", mas sim através do reconhecimento mútuo de
interesses estratégicos comuns — especialmente, a contenção do expansionismo
iraniano xiita. A "Solução dos Emirados" para a Cisjordânia se
encaixaria perfeitamente nesta nova arquitetura regional. Um conjunto de
cidades-estado palestinas pragmáticas, integradas economicamente com Israel,
com a Jordânia e com os próprios Emirados Árabes Unidos, criaria um cinturão de
prosperidade e estabilidade incomparável com o paradigma falido do
"processo de paz" tradicional, que beneficiou apenas burocratas,
organizações não-governamentais milionárias e líderes corruptos da Autoridade
Palestina.
Evidentemente, essa solução
exige que o Ocidente abandone suas ilusões românticas e o seu complexo de
salvador. Quem acompanha a política europeia como eu acompanho percebe que o
bloco padece com uma paralisia decisória crônica—em que se destaca a incapacidade
de agir sem antes formar um consenso de 27 vozes que se anulam mutuamente. É a
mesma lógica que trava
conselhos, fusões e governos: confunde-se debate infinito com prudência, e
quando a decisão enfim chega, a situação já mudou.
No caso do Oriente Médio, é
mandatório aceitar a realpolitik nua e crua da região, onde as regras do jogo
são ditadas pela força, pela honra tribal e pela religião, e não por resoluções
do Conselho de Segurança. Como Kedar faz questão de lembrar, citando o conceito
islâmico da "Paz de Hudaybiyyah", no mundo árabe-islâmico a paz
duradoura só é mantida com quem é percebido como forte demais e letal.
Os árabes não fazem a paz
porque de repente se apaixonaram pelos valores do sionismo ou da democracia
liberal. Fazem a paz por pragmatismo e instinto de sobrevivência. Qualquer
sinal de fraqueza, qualquer hesitação ou concessão territorial feita em nome de
apaziguamento, é imediatamente interpretada não como um gesto de boa vontade,
mas como um convite à agressão. A estabilidade de Israel — e, por extensão, de
toda a região — depende inteiramente da sua capacidade de projetar uma força
dissuasora inquestionável. Naturalmente, os críticos desta proposta levantarão
objeções previsíveis. Dirão que se trata de uma fragmentação, de uma
"balcanização" da Cisjordânia, de uma violação do princípio sagrado
da autodeterminação nacional palestina.
ESTRUTURAS ESTRANGEIRAS — A
esses críticos, vale responder com uma pergunta simples e direta: que
autodeterminação nacional? A de quem? A do clã Jabari, a do clã Masri ou a do
clã Tamimi? A do Hamas em Gaza ou a da Autoridade Palestina em Ramallah? A
nação palestina, no sentido moderno e ocidental do termo, simplesmente não
existe e nunca existiu como entidade coesa. O que existe é um conjunto de clãs
e cidades com identidades próprias, frequentemente em conflito entre si.
Reconhecer essa realidade não
é fragmentar artificialmente uma nação; é simplesmente parar de fingir que essa
nação existe e dar a cada clã a soberania que ele de fato consegue exercer
sobre o seu próprio território. Outra objeção comum é que esta solução seria
"imposta" por Israel à população palestina. Mas qual foi, exatamente,
a alternativa que não foi imposta?
Os Acordos de Sykes-Picot
foram impostos pelos colonizadores europeus. As fronteiras de 1948 foram
impostas pela ONU. A Autoridade Palestina foi imposta por Oslo, com Arafat
“parachutado” de Túnis. O Hamas, por sua vez, impôs-se pela força das armas em
Gaza, em 2007, atirando rivais do Fatah dos telhados. A diferença fundamental
da "Solução dos Emirados" é que ela não impõe estruturas estrangeiras
a uma população local; pelo contrário, devolve o poder às estruturas locais que
já existem e operam organicamente. É a única proposta que parte do princípio de
respeitar quem realmente comanda no terreno, em vez de inventar lideranças
fictícias para satisfazer a vaidade dos chanceleres.
A "Solução dos
Emirados" não é perfeita para os padrões idealistas dos diplomatas de
Genebra ou dos acadêmicos de esquerda nas universidades ocidentais. Não rende
Prêmios Nobel da Paz nem aplausos em editoriais do New York Times. Mas tem uma
vantagem imbatível sobre todas as outras propostas tentadas e fracassadas no
último século: ela é compatível com a realidade.
Ao alinhar a estrutura
política com a sociologia tribal profunda, substitui-se a utopia sangrenta pelo
pragmatismo funcional. E, no fim do dia, seja na complexa geopolítica do
Oriente Médio ou na gestão de um grande grupo empresarial, o que importa não é
o quão bonita e moralmente edificante a teoria parece no papel, mas sim a sua
capacidade de gerar resultados reais, estabilidade e prosperidade sustentável.
É hora de rasgar o mapa velho e começar a ler o terreno como ele realmente é.
Não se trata, simplesmente, de
manifestar simpatia pela tese de Kedar. Minha posição é reflexo do que aprendi
nos trinta anos em que tenho assento em mesas de negociações. Uma estrutura que
ignora a realidade do terreno não sobrevive ao primeiro teste de força. Isso
vale para uma fusão de bilhões, vale para um conselho, vale para um Estado.
Título e Texto: Nuno
Vasconcellos, O Dia, 21-6-2026; Arte: O Dia
Muito além do futebol

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