domingo, 28 de junho de 2026

Um estranho magnetismo

Henrique Pereira dos Santos

Um dia destes, depois de eu ter feito uns comentários favoráveis à coerência e consistência estratégica que os EUA têm vindo a demonstrar na guerra com o Irão (que dois artigos de Bernardo Ribeiro da Cunha me ajudaram a nomear, falando da vitória da contenção), um amigo meu disse ironicamente qualquer coisa sobre o meu apoio a Trump.

Acontece que reconhecer que a consistência estratégica dos EUA no Irão não tem qualquer relação com apoios ou desapoios a Trump.

As pessoas não são indiferentes, não será igual estar Trump ou Obama a tomar decisões nesta guerra, mas eu não acho que os governantes sejam inteiramente livres nas suas decisões, nem Trump, nem mesmo Khamenei, Putin ou Xi Ji Ping, todas estas pessoas, e mais as que governam países democráticos, como Trump ou Nethanyahu, tomam decisões dentro de contextos sociais e políticos que limitam a sua vontade de fazer isto ou aquilo.

A doutrina de contenção, para usar a expressão de Bernardo Ribeiro da Cunha nos artigos que citei, é visível na intervenção na Venezuela (Maduro é removido, mas não se mexe mais que o necessário para que o regime se alinhe com os interesses ocidentais), em Cuba (não há intervenção directa, mas um dos efeitos da mudança Venezuela é a capitulação do regime cubano que as reformas apresentadas pelos seu presidente representam) ou no Irão, não são possíveis de ser desenhadas e aplicadas porque um dia o presidente dos EUA, seja ele qual for, acordou e decidiu isto ou aquilo.

Atribuir a Trump a decisão final de lançar uma ofensiva no Irão é razoavelmente correcto - no topo do processo de decisão ele poderia decidir o contrário - mas pensar que é Trump que orienta todo o processo de decisão que culmina na sua decisão final, é achar que os governos mandam muito mais do que realmente mandam.

Achar que Trump pode acordar um dia e dar ordens para invadir o Canadá, sem que chefias militares se demarquem, se demitam, etc., etc., etc., é ter uma visão cesarista do poder que não entendo.

Há razões de Estado, que uns consideram certas, outras erradas, bem profundas para que a decisão de atacar o regime iraniano tenha surgido, ganho consistência, tenha sido planeada por todo um aparelho militar e executada de forma irrepreensível, independentemente do presidente que ocupa a Casa Branca em cada momento.

Achar que Trump é um génio que pensa e leva a cabo a alteração geoestratégica que está a ocorrer no Médio Oriente (com efeitos reais nas posições dos países do Golfo em relação a Israel e, mais ainda, no reconhecimento formal que o Líbano acabou de fazer da existência do Estado de Israel), ou que é um completo idiota narcisista que decide coisas tontas e evidentemente estúpidas como atacar o Irão, é atribuir-lhe poderes quase sobre-humanos que ele não tem.

Trump é simplesmente o presidente dos Estados Unidos, um homem comum que temporariamente ocupa um cargo político importante, não é totalmente irrelevante, claro, mas está muito longe de ter a liberdade de pensar, programar e executar uma intervenção geoestratégica como a que os Estados Unidos estão a executar na América Latina e no Médio Oriente.

Olhar para os resultados dessa estratégia, sendo um leigo como eu, e achar que as coisas estão a correr bastante bem para o Ocidente, não implica, da minha parte, qualquer alinhamento com Trump e afins.

Título e Texto: Henrique Pereira dos Santos, Corta-fitas, 28-6-2026

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