quinta-feira, 4 de junho de 2026

O Fingidor e o Espelho


Marcos Paulo Candeloro

Há uma distinção que a filosofia moral estabeleceu há séculos e que o debate político brasileiro insiste em ignorar por conveniência: a distinção entre o mentiroso e o fingidor. O mentiroso conhece a verdade e a oculta deliberadamente. O fingidor faz algo muito mais sofisticado e muito mais perturbador. O indivíduo treina diante do espelho até que a performance adquira verossimilhança suficiente para convencer, antes de tudo, a si mesmo. Stanislavski chamou esse método de identificação total do ator com o personagem. A política brasileira transformou o conceito em método de governo. 

Lula não mente. Essa é a tese desconfortável que a oposição sistematicamente recusa a enfrentar porque, se enfrentada com honestidade intelectual, tornaria muito mais complexa a tarefa de combatê-lo. O mentiroso possui um ponto de vulnerabilidade preciso: o momento em que a verdade emerge e a contradição se torna indefensável. O fingidor não possui esse ponto. Ele não pode ser desmascarado porque não há máscara. Há apenas camadas sucessivas de convicção construída. 

Ortega y Gasset descreveu o homem-massa como aquele que perdeu a capacidade de distinguir entre sua opinião e a realidade. O que vivemos no Brasil é algo mais específico e mais patológico. Uma classe política que aperfeiçoou o mecanismo de produção de falsa consciência ao ponto de torná-la genuína. O afegão médio mais desinformado do Brasil compreende, sem necessidade de elaboração teórica, que um governo sustentado por militantes subsidiados não representa o povo no sentido republicano do termo. Qualquer observador razoável compreende. O fingidor não compreende. E não compreende porque precisar compreender destruiria a performance. 

O que Lobaczewski identificou em seu estudo da ponerologia política é que certos perfis psicológicos desenvolvem uma capacidade extraordinária de construir realidades alternativas autossustentáveis. O sistema de crenças se fecha sobre si mesmo. O povo, nesse sistema, não é a totalidade dos cidadãos com suas contradições e pluralidades. O povo é o conjunto de pessoas que usam camiseta vermelha nos atos subsidiados. O povo é a turma da mortadela. O povo é o militante remunerado. E isso não é cinismo. É ontologia. Para o fingidor, o povo honorário não é metáfora. É a definição real, a única operacionalmente válida. 

A implicação política dessa distinção é grave e pouco explorada. Contra o mentiroso, a estratégia é a exposição. Contra o fingidor, a exposição produz efeito oposto ao pretendido: cada revelação é reinterpretada pelo sistema de crenças como confirmação da perseguição, como prova da resistência, como batismo do mártir. A Lava Jato expôs. A crise econômica de 2015 expôs. As delações expuseram. O fingidor saiu de cada exposição com sua convicção intacta e sua base consolidada, porque o sistema fechado de crenças possui imunidade estrutural à evidência exterior. 

Nietzsche escreveu que o maior perigo não é o homem mau, mas o homem fraco convicto de sua bondade. A fraqueza moral que se crê virtude produz uma energia política que a simples maldade jamais poderia gerar. O fingidor que se persuadiu de sua própria narrativa possui a vantagem competitiva do fanático sem o estigma da crueldade visível. Ele pode destruir instituições com o semblante sereno de quem está salvando o povo. E acredita nisso. Sinceramente. 

O Brasil não tem um problema de lideranças que mentem. Tem um problema muito mais profundo. Uma classe política que desenvolveu, ao longo de décadas de discurso histérico e autorreferente, a capacidade de fingir com convicção genuína. Que construiu um espelho suficientemente deformado para que a imagem reflita sempre o que precisa refletir. E que descobriu, empiricamente, que a performance com verossimilhança é eleitoralmente superior à verdade sem retórica. 

O percentual de mentiras conscientes no vocabulário político brasileiro é, como diria qualquer analista honesto, remarkably pequeno. O fingimento é 99%. E é justamente essa proporção que nos deve preocupar. Mentiras podem ser refutadas. Convicções fingidas até o ponto da crença genuína são, como demonstra a história, consideravelmente mais difíceis de curar. 

Título e Texto: Marcos Paulo Candeloro  é graduado em História (USP – Brasil), pós-graduado em Ciências Políticas (Columbia University – EUA) e especialista em Gestão Pública Inovativa (UFSCAR – Brasil). Aluno do professor Olavo de Carvalho desde 2011. É professor, jornalista e analista político. ContraCultura, 4-6-2026

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