Leandro Ruschel
Muita gente continua misturando duas coisas que não são a mesma. Uma é a chance de Jair Bolsonaro ser solto. Outra, bem mais difícil, é a chance de ele voltar a ser elegível ainda a tempo de disputar o jogo político. As duas frentes se relacionam, mas não se confundem. E entender essa diferença é essencial para não cair nem em fantasia nem em desânimo apressado.
A soltura é o caminho menos improvável. Ela poderia vir por uma liminar na revisão criminal, hoje nas mãos de Nunes Marques. Existe precedente, existe base jurídica e existe argumento para isso. O problema não está apenas na liminar inicial, mas no que vem depois. O referendo passa pelo plenário, e o plenário é o mesmo que validou esse arranjo do começo ao fim. É por isso que o ponto decisivo talvez não seja a concessão da liminar em si, mas a possibilidade de o caso travar por pedido de vista e produzir efeito político durante meses.
Já a elegibilidade é um problema muito maior. E aqui mora o detalhe técnico que muita gente ignora. A inelegibilidade de Bolsonaro não depende apenas da condenação criminal. Ela também está apoiada em decisões da esfera eleitoral, que continuam de pé por conta própria. Ou seja: mesmo que haja avanço numa frente, as demais seguem operando. É isso que faz a volta ao jogo formalmente muito mais difícil do que a própria soltura.
Por isso, vender a ideia de retorno simples e rápido seria desonesto. A batalha jurídica é múltipla, corre em esferas diferentes e foi montada exatamente para dificultar qualquer reversão efetiva. A chance de soltura ainda este ano é improvável, mas existe um caminho. A chance de elegibilidade, hoje, beira o impossível.
Mas o ponto principal talvez
nem seja esse. O que está realmente em jogo não é apenas a sorte pessoal de
Bolsonaro, mas o desgaste do arranjo judicial montado a partir de 2019. A
revisão criminal, a dosimetria, a anistia e a pressão externa não são episódios
soltos. São frentes diferentes de uma disputa maior, que começa a testar, por
dentro, a resistência desse modelo.
Título, Imagem e Texto: Leandro
Ruschel, Substack,
24-6-2026
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"Tem que ser muito pilantra para escrever uma manchete dessa!"
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