terça-feira, 16 de junho de 2026

[Aparecido rasga o verbo] As minhas saudades de mamãe Ana

Aparecido Raimundo de Souza

DIZEM QUE A MÃE é a raiz que segura não só os galhos, mas a árvore inteira. E é verdade. Quando mamãe Ana se foi, me deu a impressão que o chão se abriu num piscar de olhos debaixo dos meus pés, transformando tudo num buraco imenso e descomedido. Na verdade, não foi só ela que partiu.

Foi também aquele epicentro, ou o ponto fixo e imutável de uma alma perpétua de onde se originava o sismo do apoio porfioso, de onde nascia o amparo seguro, e, de contrapeso, a força motriz que mantinha em pé a nossa casa humilde onde todos nós nos abrigávamos sem os temores de um amanhã desconhecido.

Mamãe cultuava a voz que acalmava as brigas, as contendas e se moldava numa espécie de colo santificado que recebia a todos os seus filhos, sem escolher. Ela não tinha riquezas, nem estudo ou diploma. Apenas se harmonizava nas feições de uma criatura simples. Mera funcionária do IPASE, hoje INSS, acreditem vocês ou não, ela tinha uma alma tão imensa e acolhedora, que cabia todo mundo.

Era ela quem fazia o café quente pela manhã, quem arrumava a mesa do almoço e do jantar para todos se sentarem juntos, se unirem em igual modo num amplexo lhano e expansivo. Também vinha dela, a “contação” de histórias antigas e lembrava: “A família, meus filhos, é o bem mais precioso que a gente tem”. E após dizer isso, se quedava numa alegria eufórica que contagiava a alma.

Enquanto mamãe estava aqui no nosso meio, por mais que os quatro filhos, eu, Rogerio, André e Cláudio tivéssemos as nossas diferenças, nossas rusgas, nossas manias, e discussões bobas e sem sentido, — sempre havia um lugar seguro para voltarmos, um milhão de motivos de natureza bucólica para nos reunirmos ao redor da sua benignidade.

Quando ela definitivamente fechou os olhos pela última vez, percebi que os laços que nos uniam também se desfizeram. Aos poucos, as visitas dos parentes mais chegados foram ficando mais raras. Os irmãos, tão unidos, se afastaram. Cada um procurou seguir a sua própria estrada. Os dejejuns de todas as manhãs, os aniversários, as festas de fim de ano que antes recheavam de risos e gritos os cantos e recantos da nossa humilde morada, do nada ficaram divorciadas daquela ternura antiga.

As conversas se transformaram em silêncios, os silêncios se alastraram, melhor dito, se propagaram em palavras de feições duras e mesquinhas. Cada um seguiu o seu próprio destino, como se não tivéssemos mais nada em comum. E, de fato, se agora, nesse momento, tudo fosse colocado, tipo assim, na ponta do lápis, ou, via outra, numa balança, ela penderia para uma voragem agigantada e desconformemente abissal. 

É como se junto com ela, por conta de seu passamento, tivesse se esvaído também a paz, a compreensão, a harmonia solidária, o carinho, a ternura, e a vontade de estar perto um do outro. Hoje, a saudade de mamãe Ana bate forte. Esse oco aperta, comprime, reprime, aflige, esmaga, faz sangrar o coração. Não é só a falta dela, ou a ausência do seu jeito fraternal, do seu rostinho querençoso e   meigo, ou do seu olhar piedoso, bem ainda do sabor gostoso que vinha de sua boca em forma de palavras mágicas.

Na verdade, ou melhor, no fundo, é a saudade da família que éramos. Às vezes, na minha saudade, fecho os olhos e lembro: todos juntos, na porta de casa, ora rindo, ora dividindo o pouco que tínhamos, unidos, grudados, unicamente pelo amor que fluía do coração dela. E acreditem, em dias de hoje, dói muito perceber que, sem ela, tudo se estilhaçou, se dilapidou, se espalhou, morreu.

Apesar desses reveses, guardo no peito o que ela sempre ensinou: “que o amor não acaba, nem quando a pessoa não está mais aqui”. E é verdade. Mesmo que hoje estejamos distantes, apartados, distanciados, cada um no seu canto, cada um com a sua vidinha medíocre, sem sentido e banal, creio piamente que o sangue é o mesmo, e a lembrança dela ficará, perdurará, permanecerá, sedimentará, e em cada um de nós a grandiosidade de sua Estrela lá do mais alto céu, brilhará dentro de cada um de nós, para sempre.

Quem sabe, um dia, quem sabe um dia, a saudade e o amor que ela plantou com a paciência de uma Santa, sejam fortes o bastante para nos unir de novo? Acho impossível, nessa altura do campeonato, mas vai que o milagre da lembrança da sua maviosidade se faça real e oxalá se materialize. Por vezes, os milagres se tornam reais.

Até lá, fico aqui, perdido, embaraçado, com as memórias de mamãe Ana, e com a certeza positiva e imorredoura de que ela foi, todavia, sempre ela, sempre ela, indiscutivelmente será a base, o alicerce, o esteio, o chão de tudo o que fui, ou o que todos os seus rebentos, apesar de divorciados, somos, e ainda que capengamente aos reveses da sorte grande deixada por ela, seus filhos legítimos nos TORNAMOS.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de algum lugar perdido dentro do distante passado. 16-6-2026 

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