Aparecido Raimundo de Souza
Foi também aquele epicentro, ou o ponto
fixo e imutável de uma alma perpétua de onde se originava o sismo do apoio
porfioso, de onde nascia o amparo seguro, e, de contrapeso, a força motriz que
mantinha em pé a nossa casa humilde onde todos nós nos abrigávamos sem os
temores de um amanhã desconhecido.
Mamãe cultuava a voz que acalmava as
brigas, as contendas e se moldava numa espécie de colo santificado que recebia
a todos os seus filhos, sem escolher. Ela não tinha riquezas, nem estudo ou
diploma. Apenas se harmonizava nas feições de uma criatura simples. Mera
funcionária do IPASE, hoje INSS, acreditem vocês ou não, ela tinha uma alma tão
imensa e acolhedora, que cabia todo mundo.
Era ela quem fazia o café quente pela
manhã, quem arrumava a mesa do almoço e do jantar para todos se sentarem
juntos, se unirem em igual modo num amplexo lhano e expansivo. Também vinha
dela, a “contação” de histórias antigas e lembrava: “A família, meus
filhos, é o bem mais precioso que a gente tem”. E após dizer isso, se quedava
numa alegria eufórica que contagiava a alma.
Enquanto mamãe estava aqui no nosso meio, por mais que os quatro filhos, eu, Rogerio, André e Cláudio tivéssemos as nossas diferenças, nossas rusgas, nossas manias, e discussões bobas e sem sentido, — sempre havia um lugar seguro para voltarmos, um milhão de motivos de natureza bucólica para nos reunirmos ao redor da sua benignidade.
Quando ela definitivamente fechou os
olhos pela última vez, percebi que os laços que nos uniam também se desfizeram.
Aos poucos, as visitas dos parentes mais chegados foram ficando mais raras. Os
irmãos, tão unidos, se afastaram. Cada um procurou seguir a sua própria
estrada. Os dejejuns de todas as manhãs, os aniversários, as festas de fim de
ano que antes recheavam de risos e gritos os cantos e recantos da nossa humilde
morada, do nada ficaram divorciadas daquela ternura antiga.
As conversas se transformaram em
silêncios, os silêncios se alastraram, melhor dito, se propagaram em palavras
de feições duras e mesquinhas. Cada um seguiu o seu próprio destino, como se
não tivéssemos mais nada em comum. E, de fato, se agora, nesse momento, tudo
fosse colocado, tipo assim, na ponta do lápis, ou, via outra, numa balança, ela
penderia para uma voragem agigantada e desconformemente abissal.
É como se junto com ela, por conta de
seu passamento, tivesse se esvaído também a paz, a compreensão, a harmonia
solidária, o carinho, a ternura, e a vontade de estar perto um do outro. Hoje,
a saudade de mamãe Ana bate forte. Esse oco aperta, comprime, reprime, aflige,
esmaga, faz sangrar o coração. Não é só a falta dela, ou a ausência do seu
jeito fraternal, do seu rostinho querençoso e
meigo, ou do seu olhar piedoso, bem ainda do sabor gostoso que vinha de
sua boca em forma de palavras mágicas.
Na verdade, ou melhor, no fundo, é a
saudade da família que éramos. Às vezes, na minha saudade, fecho os olhos e
lembro: todos juntos, na porta de casa, ora rindo, ora dividindo o pouco que
tínhamos, unidos, grudados, unicamente pelo amor que fluía do coração dela. E
acreditem, em dias de hoje, dói muito perceber que, sem ela, tudo se
estilhaçou, se dilapidou, se espalhou, morreu.
Apesar desses reveses, guardo no peito
o que ela sempre ensinou: “que o amor não acaba, nem quando a pessoa não está
mais aqui”. E é verdade. Mesmo que hoje estejamos distantes, apartados,
distanciados, cada um no seu canto, cada um com a sua vidinha medíocre, sem
sentido e banal, creio piamente que o sangue é o mesmo, e a lembrança dela
ficará, perdurará, permanecerá, sedimentará, e em cada um de nós a
grandiosidade de sua Estrela lá do mais alto céu, brilhará dentro de cada um de
nós, para sempre.
Quem sabe, um dia, quem sabe um dia, a
saudade e o amor que ela plantou com a paciência de uma Santa, sejam fortes o
bastante para nos unir de novo? Acho impossível, nessa altura do campeonato,
mas vai que o milagre da lembrança da sua maviosidade se faça real e oxalá se
materialize. Por vezes, os milagres se tornam reais.
Até lá, fico aqui, perdido, embaraçado,
com as memórias de mamãe Ana, e com a certeza positiva e imorredoura de que ela
foi, todavia, sempre ela, sempre ela, indiscutivelmente será a base, o
alicerce, o esteio, o chão de tudo o que fui, ou o que todos os seus rebentos,
apesar de divorciados, somos, e ainda que capengamente aos reveses da sorte
grande deixada por ela, seus filhos legítimos nos TORNAMOS.
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de algum lugar perdido dentro do distante passado. 16-6-2026
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