Aparecido Raimundo de Souza
Esse regalo que capturei no rosto do
despenhadeiro, apesar de se moldar num gesto enigmático, (como quem guarda um
sigilo intransponível em roupagem de cautela) só se revela verdadeiramente a
quem ousa encarar sem medos ou receios a negrura da sua escuridão pesada e
densa, sem piscar, ou melhor, sem ao menos descambar para o terreno da morbidez
exasperada. O sem fim sorriu para mim. Sorriu generoso, voraz, (e disso me
lembro bem), se moldou radioso apesar de uma tarde triste e melancólica, em que
a vida me parecia suspensa, sem sentido e sem direção.
Eu estava à beira de um turbilhão de
escolhas. Porém, só conseguia contemplar perdas. Nada de ganhos. Na verdade, eu
me via mercê de um buraco enorme. Pior, de uma cratera em torno da qual, lá do
âmago, emergia a minha desolação anunciada. Mas foi ali, no limite entre uma
espécie sórdida de pavor e uma nesga de coragem, atrelado igualmente a uma
dúvida traiçoeira e cruel amarrado a uma incerteza paralítica, que percebi: o
abismo arrimado aos meus pés, por mais imenso que insistia em me amedrontar,
não se constituía num inimigo real. Ele se transformara, do nada, numa saída
perfeita, mostrando tudo, me contemplando como uma espécie de visão benéfica e
salutar em caminho seguro a direção de uma nova e cálida renovação.
De pronto, uma alucinação benfazeja (onde o seu sorriso para lá de mavioso se formava como um convite amável) se engrandeceu num chamamento inocente. Não para me puxar para o desconhecido abisso e me fazer mergulhar em uma profundeza ainda mais volumosa, ou algo pior, todavia, para galgar o avante. Em nenhum momento dessa transição me vi movido ou atrelado, cativo ou açoitado por forças hercúleas, onde o mal procurasse, a todo custo, ou por pura morbidez me deixar ser abatido. O sorriso do abismo (e foi ele), a meu ver, que se fez em terno lembrete me sinalizando objetivamente que não havia chão ruim, menos ainda resquícios de certezas inabaláveis. Em oposto, percebi, pairava um riso discreto de um Anjo de compleição cadente que me anunciava uma nova vida toda ela repletada de alegrias e felicidades.
Por conta, afirmo, são esses (ou
melhor, são nesses saltos) que a gente descobre quem se arrisca verdadeiramente
a abrir os braços e nos acolher para que não nos machuquemos. Talvez o abismo
tenha sorrido para mim e o fez porque conhecia a minha teimosia intransigente
em acreditar que o controle de tudo é possível. Talvez (dito de outra forma), o
profundo me glorificou porque tinha plena convicção de que no fim, seria eu
mesmo quem me ensinaria a viver. Diante desse evento, aproveitei para sorrir de
volta. Não para provar desafio, mas para deixar engrandecida a gratidão. No
geral, o abismo, com seu sorriso meio distorcido e inflado de gestos maldosos
me mostrou ser (apesar dos pesares) possível assimilar, na integra, que o medo
também pode ser e, de fato é, uma estrada.
O imensurável, lá embaixo, à frente
de meus olhos, mostrou não ser apenas um espaço vazio diante de um receio bobo
que me segurava como se tivesse grudado no acaso. Ele se fez na metáfora
daquilo que eu não podia controlar: o tempo que escorria, a morte que me
esperava, o acaso que atravessava meu interior. E, ainda assim, apesar dos
percalços, ele me arreganhou os dentes. Sorriu matreiro, feliz não num misto de
zombaria, mas de revelação. Me sorriu, acima de tudo, porque sabia da minha
busca por um sentido mais promissor e que em cada pergunta que eu fizesse,
redundaria numa resposta que me sinalizaria novos e salutares horizontes.
Por conta disso, esse abismo, bem
aqui na minha frente, me lembrou num dado momento que viver é como caminhar
sobre pontes frágeis, passear por viadutos suspensos, sabendo que no próximo
passo o chão poderá ruir. Contudo, apesar dessa incerteza, eu deveria seguir em
frente. Pular? Talvez! O sorriso do abismo é o paradoxo da existência. O nada
tudo que nos olha e, ao mesmo tempo, nos dá a chance de criar e recriar o tudo
advindo do nada. É, de roldão, o convite amável para transformar o medo
interior em impulso, a incerteza em criação, onde o limite final se delimitará
sempre, haja o que houver, em liberdade.
Precisamos entender que quando o
abismo sorri, ele o faz, de fato, sábio e engenhosos, e nessa hora nos mostra
que não há garantias, mas possibilidades. E talvez seja justamente nesse
sorriso enigmático, silencioso e inevitável que descobrimos que a vida não é
sobre evitar a queda, mas sobre aprender a dançar no perigoso frágil da borda,
lembrando aquela frase de uma história contada por Ariano Suassuna, onde ele
começa dizendo que “ao redor de um buraco tudo é beira”. Pois bem! Esse tom
existencial abre espaço para reflexões sobre liberdade, finitude e
criação.
Não devemos esquecer também que o
abismo sorri porque conhece, de cabo a rabo, a minha finitude. Ele sabe que sou
feito de tempo, e que o tempo é feito de limites. Cada instante que passa é um
passo em direção ao fim, e é justamente essa consciência que me obriga a
pensar. E eu matuto com meus botões, observo que sem o limite, não haveria
urgência. Sem a morte, não haveria vida. O sorriso do abismo nada mais é que o
lembrete de que o NADA nos observa, mas também nos dá a chance de inventar o
TUDO. Com isso, aprendi que criar é o gesto humano diante do abismo: escrever,
amar, construir, imaginar...
Isso tudo aos goles poucos, se
transforma nas respostas que damos ao vazio, como quem planta flores na beira
de uma grota. O pélago me sorri porque
sabe que, ao me confrontar com o fim, me oferece a possibilidade de transformar
o medo em arte, a angústia em liberdade, o silêncio em palavra. A enormidade do
buraco não é sinônimo de prisão. Ele é passagem. Há momentos em que a gente se
sente engolido por sua escuridão, como se não houvesse saída. No entanto, o
sorriso do abismo também é promessa: ele mostra que podemos atravessá-lo, que
não precisamos permanecer ali.
Encarar o abismo é reconhecer a fase
em que estamos presos em imensa dor, abarrotado de dúvida, de perda e aceitar
que ele não é destino, mas uma etapa comum a ser transposta. O sorriso do
abismo nos ensina ainda que sair dele é possível, que a vida continua além da
borda, e que cada mergulho no desconhecido pode nos devolver mais inteiros,
mais conscientes, mais vivos. A meu entender, essa versão filosófica conecta o
meu sentido de abismo à finitude e não só a ela, igualmente à criação, mas
termina com uma reflexão libertadora: o abismo não nos aprisiona, ele nos
transforma.
Estar prestes a cair num abismo, ou
de forma mais branda, tentar sair de um, (como estou tentando agora), seja ele
emocional, existencial ou simbólico não significa apagar o que vivemos, mas
aprender a atravessar os percalços sem deixar que as marcas se tornem feridas
permanentes. O segredo está em transformar o encontro com o incógnito num
eterno aprendizado de experiência e de crescimento. Jamais em prisão.
Reconhecimento do limite é o mesmo que : admitir que estamos diante de um
vazio, de uma fase difícil. Esse é o primeiro passo. Negar o abismo só prolonga
a sua sombra em nós.
Criação como resposta: escrever,
pintar, conversar, reinventar rotinas, qualquer gesto criativo é uma forma
magnânima de devolver sentido ao que parecia sem forma. Liberdade interior:
compreender que o abismo não nos define. Ele é circunstância, não identidade.
Podemos sair dele sem carregar o peso como destino. Finitude como impulso:
lembrar que a vida é breve e que cada fase, mesmo a mais sombria e áspera, é
apenas (ou são apenas) uma parte desconhecida do caminho. Isso nos dá coragem
para seguir em frente. De cabeça erguida. Sempre avante, haja o que houver.
Superação como travessia: sair do
abismo não é esquecer, mas atravessar. É olhar para trás e perceber que o
sorriso do abismo foi apenas um convite ameno para nos tornarmos mais
conscientes de quem somos. No fim, o abismo pode ser encarado como uma fase da
vida dura, intensa, mas passageira. Ele nos ensina que não estamos presos, que
podemos sair vivos e inteiros, e que cada mergulho na escuridão pode nos
devolver mais fortes. O sorriso do abismo, então, deixa de ser ameaça e se
torna lembrança de que até o vazio pode ser mestre, e que seguir em frente é
sempre possível
O abismo pode ser encarado também
como uma fase da vida dura, intensa, mas passageira. Ele nos ensina, agora
reiterando em repeteco, que não estamos presos, que podemos sair vivos e
inteiros, e que cada mergulho na escuridão pode nos devolver mais fortes e
robustos. O sorriso do abismo, então, deixa de ser ameaça constante e se torna
lembrança: lembrança de que até o vazio pode ser mestre, e que seguir em frente
é sempre possível. Há quem diga que o abismo é silêncio, vazio, ausência. Mas
eu o vi sorrir. Não era um sorriso de alegria, tampouco de malícia. Era um
gesto enigmático, como quem guarda segredos que só se revelam a quem ousa
encarar a escuridão sem piscar. E eu fiz isso.
Entre prós e contras, mortos e
feridos, tapas e bordoadas, o abismo sorriu para mim. O danado se engraçou numa
tarde em que a vida parecia suspensa. Eu estava à beira dele, à passos de um
bocado de perdas, à ribanceira de mim mesmo. E foi ali, no limite entre o medo
e a coragem, que percebi: o abismo não é inimigo. Ele é espelho. Seu sorriso é
convite não para cair, mas para mergulhar em profundezas que evitamos por
comodidade.
O sorriso do abismo é o lembrete
claro e conciso de que não há chão eterno, e mesmo estando tão distante de tudo
não há certezas inabaláveis. É o riso discreto de quem sabe que a vida é feita
de saltos, e que só se descobre asas num pássaro envelhecido, quem se arrisca a
abrir os braços. E eu, abri. Voei como Ícaro, num sonho que me fez viajar entre
a vida terrena e a verdadeira, onde meu Deus, muito tempo depois, refeito de
mim, alegre e saltitante, ACORDEI.
Título e Texto: Aparecido Raimundo
de Souza, de Conceição do Castelo, Espírito Santo, 29-5-2026
Nossa política é como ovo quente em boca de bêbado
Tipo assim, como um Dark Horse
Brabo e bravo
Foi então que a ficha caiu
[Aparecido rasga o verbo] Uma historinha besta, tipo essas assim, sem pé nem cabeça

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