Aparecido Raimundo de Souza
CATULOSONSO pegou o celular que apitava intermitentemente sinalizando mensagens não lidas. Uma, em particular, com mais de quinze envios, lhe chamou a atenção. Leu. “OI, AQUI É A MOÇA DA “CHUPADA GRANDE”. ME LIGA. PRECISO, FALAR COM VOCÊ. É URGENTE”. BEIJOS”.
De imediato, não havia como responder, tampouco retornar. O número aparecia como restrito. Catulosonso meio que besta para essas coisas, deu por si agarrado a uma perturbação acima do normal. Sempre que ficava eufórico, experimentava uma sensação indescritível de soberba e altivez. Com aquela desconhecida da “chupada grande”, seus pensamentos voaram longe e se perderam em expedições sexuais literalmente animalescas:
Moça da “CHUPADA GRANDE? ” Qual delas? Final de semana havia enchido a cara. Tomara todas com os amigos. Andava, ainda, sobre os efeitos dos vapores do álcool. A cabeça latejava, de tanto que doía. Das beldades que marcaram presença na balada, dançado e bebendo, qual teria partido para um trato mais acentuado nas suas intimidades? A melhor saída, aliás, a única, seria esperar que a interessada se manifestasse novamente. Se realmente a coisa saíra a contento e, tudo levava a crer que sim, logo aconteceria a ligação. De fato, a ansiedade de Catulosonso não se fez esperar.
— Oi, gato — sussurrou uma voz melosa. Que dificuldade para falar com você. Telefonei trocentas vezes e seu bendito aparelho sempre fora de área. Quando não, caixa postal!
— Ressaca braba, minha linda... mas diga ai...
— Pelo jeito a farra agradou a gregos e troianos.
— Nem queira saber como agradou. Escuta aqui. Vamos direto ao ponto: você é a garota da “chupada?”
— Chupada? Que chupada?
— Você não me...
— Vá para o inferno.
A brusca interrupção indicava que não havia sido aquela a autora da intrigante “chupada grande”. Com isso a curiosidade de Catulosonso aumentou, duplicou de um minuto para outro.
Bastava o primeiro toque para a sensação de prazer voltar com força total. Nessas horas mais um telefonema e a pergunta fatal vinha com força desesperadora:
— Oi, tudo bem?
— Tudo!
— Como passou de ontem?
— Ainda zonzo... a cabeça rodopiando...
— Mas no geral, Gostou?
— Amei. Estaria disposta a repetir a façanha?
— Deixa de onda. Você sabe. Não me venha querendo passar diploma de tonto!
— Juro que estou voando... quer ser mais claro?
— Preciso? Pois vá lá: a “chupada”. Faço referência a “chupada” que você me deu com uma voracidade de tirar o fôlego.
— “Chupada?”
— Sim, a que você deu no meu bilauzinho...
— Catu, filho de uma vagaba. Andou comendo merda? Do que você está falando, afinal?
— Do boquete que você me aplicou no banheiro. Depois você arriou a calcinha, ficou de quatro e...
— Ah, legal. Gostou?
— Estou pronto para repetir a dose... a visão da sua bun...
— Chama a vaca da sua mãe...
Essa resposta inesperada definitivamente descartava a jovem como autora. Quem seria então a desconhecida? Para aumentar a agonia do seu desespero, o celular permaneceu mudo por quase três horas. Até que...
— Finalmente consigo falar com você. Que sacrifício! É mais fácil topar com o ladrão do nosso presidente de nove dedos...
— Pois é. Acontece...
— Estava dormindo?
— Quase. Na verdade, pensando. E aí, você gostou?
— Adorei, foi legal. Precisamos fazer de novo. Inesquecível.
— Quer que eu vá até sua casa?
— Meus pais te comeriam vivo. Sem contar que meus irmãos palitariam os dentes com o que sobrasse da sua caveira.
— Ué, foi assim tão mal?
— Claro que não, seu tolo...
— Quer repetir a dose?
— Você sabe qual a resposta que darei. Mas, entenda: aqui em casa, não dá pé...
— Não seja esse o empecilho. Vem aqui para o meu cafofo. Enquanto lhe aguardo, aproveito para tomar um banho, me perfumar e deixar o bilau no capricho para você, na hora de cair de boca, engolir até os caroços. Sua “chupada grande” foi... foi sensacional... que...
— Espera ai, Catulosonso! Não estou conseguindo te acompanhar. Tudo bem que eu seja loira, mas que papo de cerca Lourenço esse de banho, perfume, bilau no capricho, cair de boca?
— Qualé! Vai dar uma de boa samaritana, agora? Gostou da mamada e para tirar uma de puritana de meia tigela quer dar uma de virgem... Tadinha!
— Catulosonso, por favor. Quero uma explicação bem rápida: que história é essa de “chupada grande?”
— A “chupada grande”, sua fingidinha que você me deu. Acabou de dizer que gostou, que precisamos fazer de novo, que foi inesquecível, etc, etc e tal. Resolveu agora, de última hora, — dar uma de santinha e mijar para trás?
— Seu imbecil. Estou falando da reunião da galera no barzinho. Da nossa turma de amigos, seu panaca.
— Tá veremos isso depois. Quero saber agora, da “chupada?”
— Vou mandar meus dois irmãos terem uma conversinha de pé de ouvido com você. Espera só, seu maníaco tarado. Não perde por esperar...
Pelo visto, definitivamente Catulosonso estava confuso. A mensagem não viera dessa garota. Entre um não e outro, as meninas que ligavam Catulosonso minava de forma contundente as suas velhas amizades. E, por conta, as afastava do seu convívio. O telefone voltou a tocar. Desta feita, com insistência. Catulosonso espiou no visor. Número restrito. “Maldito número restrito – pensou – Que saco!”.
Deveriam ser os irmãos da amiga que a pouco ligara. Achou melhor fazer ouvidos de mercador. Desligou o aparelho. Apreensivo foi mais longe na piração. Aparelho antigo, retirou a bateria. A paranóia chegou a tal grau que sumiu da roda de amigos. Um mês sem dar as caras. Trinta dias sem ligar para os colegas de sempre. Finalmente criou coragem. Religou o aparelho. Mil ligações o aguardavam. De repente...
— Alô?
— Oi, quem é?
— Sou eu, Adriana...
— Adriana? De onde?
— Já se esqueceu de mim? Nossa! Estou há mais de vinte dias te ligando direto e reto!
— Adriana? Adriana? De onde mesmo?
— Aqui do posto...
— Posto? Que posto?
— O posto da Vanusa.
— Meu Deus! Vanusa?
— Catulosonso, você passou aqui pelo posto, botou gasolina no seu carro com uma moça chamada Vanusa. Na hora de pagar você disse a ela que precisava de uma secretária...
— Ah, entendi. Desculpe. Tanta coisa na minha cabeça...
— Então, eu sou a Adriana, amiga da Vanusa do posto da “Chapada Grande”.
— “Chapada Grande?” Você disse “Chapada Grande?”.
—Isso, cara. Acorda. “Chapada Grande” é o nome fantasia do posto de gasolina na beira da rodovia. Você passou, parou, tomou café... lembrou, agora?
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Venda Nova do Imigrante, ES, 5-5-2026
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Você talvez nunca compreenda o tamanho do vazio que um pai deixa quando escolhe não ocupar o lugar dele. Porque ausência paterna não é silêncio. Ausência paterna fala. E fala alto. Ela atravessa a infância, contamina afetos, distorce referências e ensina uma filha, sem que ela perceba, a aceitar migalhas emocionais achando que aquilo é amor. Filha da filha sem pai.
ResponderExcluirUma menina que já nasceu herdando lacunas que não eram dela. Herdando perguntas que nunca foram respondidas. Herdando o eco de uma rejeição antiga que começou muito antes dela existir. A psicologia fala muito sobre isso: a presença do pai ajuda a construir senso de valor, segurança emocional e percepção de merecimento afetivo da filha. Quando esse pai falha, muitas vezes a filha cresce tentando preencher o abandono em relações amorosas instáveis, aceitando menos do que merece, confundindo intensidade com amor e ausência com normalidade.E o mais cruel é que homens ausentes raramente entendem os estragos que causam.
Porque enquanto seguem a própria vida, a filha cresce tentando ser suficiente para alguém que decidiu não ficar. Você talvez nunca conheça sua neta. E isso não será destino. Será consequência. Há homens que morrem biologicamente. Outros morrem afetivamente muito antes. Viram apenas uma sombra mal resolvida na memória das filhas. Um nome. Um trauma. Um buraco emocional que atravessa gerações. Como em O Cão que Fuma, existem figuras humanas que se autodestroem pela própria incapacidade de amar direito. Gente que transforma orgulho, omissão e ego em herança familiar. E depois envelhece sem entender por que terminou sozinho. Porque no fim, abandono também volta. Às vezes em forma de silêncio. Às vezes em forma de distância.E às vezes em forma de uma neta que nunca saberá quem foi o avô… não porque impediram, mas porque ele nunca foi capaz de construir ponte nenhuma até ela.
O comentarista poderia virar coluna. Profundo. Real. Bem escrito. Parabéns
ExcluirSegue a resposta ao seu comentário ao meu texto “Foi então que a ficha caiu” publicado aqui na “Revista Cão que Fuma” em data de 05 de maio de 2026. Só vi o texto hoje, 23.05.
ResponderExcluirParte um
Bom dia, querida e amada filha Narjara. Eu estou bem. Ainda vivo. Respirando. Vivendo. É sempre um prazer falar com a minha filha (entre aspas). Você não é minha filha, é uma Santa, um Ser magnânimo, um Ser Intocável. Uma Deusa. Um Ser altaneiro, Iluminado. Seu pai, - me perdoe me rotular assim - eu, na verdade, não passo de um verme, de um pedaço de carne ruim, tipo essas picanhas de segunda que o ladrão do Mula manda para os pobres fingirem que estão comendo caviar. Mas, de qualquer forma, sou seu pai. Você tem o meu sangue, está no meu DNA, quer queira você ou não. Realmente talvez eu nunca compreenda o tamanho do vazio que um pai deixa quando ele não escolhe ocupar o lugar dele. Herança maldita. Meu pai Roberto, seu avô, que Deus o tenha, também me deixou. Nunca tive um carinho, um afago, um “oi meu filho”, nunca me deu uma bala. Eu, apesar dos pesares, apesar da ausência, deixei pra você um apartamento no centro de Vila Velha, um apartamento que você (esperta como é, não deve ter vendido), mas deixou alguém da sua consanguinidade morando lá. Meu pai não deixou nada, nem uma caneta para eu escrever minhas mágoas, nem um “como vai, meu filho”. Tinha um monte de mulheres, tudo o que possuía enfiou no rabo delas. Morreu, não sei onde está sepultado, não sei em qual cemitério, enfim, o cara foi comer capim pela raiz, sem convidar os mais de 15 filhos deixados com várias mulheres. Segue na parte dois.
ResponderExcluirParte dois (vem da parte um).
Até onde sei, tenho conhecimento de um casal de irmãos de sangue japonês. Nem sei se existe sangue japonês. Mas, papai registrou, é filho. Não importa. Eu só tive a Dalva, que me deu o Eduardo, “seu irmão”. Sua mãe me deu você. A Marlúcia, me presenteou com a Amanda e Luana e a raspa do trouxa, perdão, raspa de tacho a Antonella, que a Patrícia (cantora) arranjou uma ‘barrigada” PREMEDITADA” quando fui mostrar um livro meu no programa dela, numa rede de televisão em São Paulo, onde ela era a apresentadora. Eduardo se tem filhos ou não, nunca deu sinais de vida. O cara é Deus. É intocável. É o tal. Esse não morre. Ficará para a raiz. Se julga o Senhor da Cocada Preta, o intocável, o “eu sou o Santo. Sem altar, mas é Santo. Não sei se tem igreja, o que sei é que jamais morrerá. Rogo à Deus (o Verdadeiro) que tenha vida longa. Se não quer me deixar ver os filhos, (meus netos) que seja feliz, que siga a vida dele. De repente, eu “aparecendo” possa estragar o seu cotidiano, contaminar os filhos, cantar a mulher dele... roubar seu dinheiro, a casa, o carro, ou a ponte que se partiu e caiu parte dela em cima de uma lancha que estava parada. Eu mudei, mas o sangue continua poluído. Herança de pai se renova, se amiúda, mas nunca se despolui. “Menas” ainda se descontamina, ou se purifica... como você disse... “Ausência paterna fala. E fala alto. Ela atravessa a infância, contamina afetos, distorce referências e ensina uma filha, sem que ela perceba, a aceitar migalhas emocionais achando que aquilo é amor. Filha da filha sem pai”. Explica “filha da filha sem pai”. Segue na parte seguinte
Se eu não errei nas postagens anteriores, aqui o final.
ResponderExcluirVocê sabe perdoar? Não, isso é coisa pra bobo, pra babaca, pra idiota. Perdoar esse traste... tenho mais que crucificar esse vagabundo... largou minha mãe, me largou... me deixou um apê que nunca morei nele e agora quer ver os netos? JAMAIS!. Você e Amanda combinaram. Escrevi um texto homenageando a moça por ter entrado para a aviação, hoje vive voando. Cada dia num lugar diferente. Não gostou do texto. Me bloqueou. E eu, uma besta quadrada, achava estava abafando. Ledo engano! Acho que tem um ano, ou mais que não sei do seu paradeiro. Mas ela, Amanda, é igual a você. Guarda rancor, raiva, ódio, furor, rompante, aversão, abominação, fúria, cólera... A gente morre, fica tudo aí. Nada vai no caixão. Mesmo modo a filha de São Paulo, a Antonella. Se eu mando a pensão, liga, fala, ri, conta piada, manda foto... se a pensão falha, sequer manda um alô: “Pai. Te amo”. O dinheiro fala mais alto. Grita, esbraveja, esperneia, abre portas. Nunca meu pai ame deu um centavo. Nem por isso o deixei de amar. Nunca o desprezei. Nunca o abandonei. Ao contrario dos outros 14 filhos, que nunca lhe deram um telefonema. “Quando esse pai falha, vocifera você... muitas vezes a filha cresce tentando preencher o abandono em relações amorosas instáveis, aceitando menos do que merece, confundindo intensidade com amor e ausência com normalidade”. Seja adulta, se faça coerente. Esqueça o passado. Quem vive de passado é museu. Você é uma garota esperta, viva, ativa, radiante, bonita, tem tudo para ser feliz. É uma mãe carinhosa... manda para os quintos do inferno essa empáfia, essa soberba, essa prosápia, essa arrogância, esse desdém, essa grandeza furada, esse orgulho maroto, essa nuvem negra. Minha linda e prestimosa filha Narjara. Entenda. Morre, fica tudo ai. Neta ou netos, que nunca construíram pontes até chegar ao avô? Faça a aproximação. De o primeiro passo. Não moramos longe. Venha me ver. Estou mais perto de você que Roberto Carlos de Jesus. Basta olha de lado. Olhar com atenção. Com vontade.
Aparecido Raimundo de Souza, de Vila Velha ES
Me liga. Você sabe meu número.
De tudo que li o único aspecto que merece minha atenção foi o apt: que foi quitado ha poucos anos. Você me deixou carinhosamente uma dívida, apenas esqueceu de falar esse detalhe. Ainda assim, agradeço, se é isso que quer. Pela educação financeira de uma dívida de longa vida. Bom ler os adjetivos mal- ditos que nos descreve. São todos tão recíprocos quanto a nossa comum arrogância.
ExcluirMinha linda e querida filha, perdão, Deusa. Estou pensando em entrar com um processo de Alienação Parental contra você, para ver meus netos. O mesmo que minha mãe deveria ter feito quando a sua mãe Carla proibiu a minha mãe (já falecida) de ver você, quando era pequena. Você só ia para a casa da vó Elisete. Vó Ana, precisava implorar. Quem é você, uma pirralhinha filha de mamãe, para me atirar pedras? Tome tino, juízo, pare de se fazer de vítima. Se a sua mãe não tivesse "surrupiado" os documentos do apartamento, eu o teria pago. O que me diz? Seja mulher uma vez. Me ligue, esbraveje, apareça, dê as caras. Não se esconda escrevendo cartinhas via Cão que Fuma. Apareça, moça. Queira você ou não, me odeie ou não, apareça. Venha tomar um café comigo. Mostre que tem alma, coração, esqueça o passado.
ExcluirAparecido Raimundo de Souza
Completando: você não é arrogante: malditos? Que palavra feia. Ainda bem que foi carinhoso, o apartamento. Deixei de coração. E o melhor de tudo, você honrou, pagando. Mal agradecida. Merece uns beijos nesse rostinho lindo. Como pode ver, você não vai me tirar do sério.
ExcluirAparecido Raimundo de Souza