Aparecido Raimundo de Souza
Até aí, tudo bem. O
fato é que o pai da moça, o temido Pescoço de Girafa (esse apelido se dava pelo
fato do cidadão ter um pescoço comprido, como o desses animais e viver, o tempo
todo, espiando as coisas por cima) o que propiciava o comando do jogo de bicho
da área, além do tráfico de drogas. Respeitado e temido pela maioria, ninguém
nas redondezas se metia a besta com ele. Fizesse frente, aparecia, dia
seguinte, com a boca cheia de formigas numa vala aberta, uma espécie de lixão
nos arredores do bairro.
Não bastasse isso, o
sujeito não queria a sua filha metida com o garoto. Ele era pobre, não
trabalhava, vivia às custas do quitandeiro, ao contrario de sua filha, que
tinha de tudo do bom e do melhor, inclusive um carro zero bala, uma moto,
apartamento próprio, além de uma rechonchuda conta bancaria. Mas naquele dia,
justo naquele santo dia, o Pescoço, sem querer, flagrou os dois num dos quartos
de hospedes da mansão. O casalzinho estava numa boa, aos beijos e abraços.
Pelados, completamente sem roupas, como vieram ao mundo. O rapaz, por cima, falava palavras melosas, enquanto a Mércia gemia baixinho como uma gata no cio. A danadinha mexia e remexia o corpo, como se tivesse sendo açoitada por um prazer imensamente fora do comum. Pareciam, na verdade, entrelaçados por fios invisíveis que se embolavam por dentro um do outro, como um novelo de linha nas patas de uma cadela estabanada. E realmente estavam numa boa. A farra comia solta.
Pescoço de Girafa, ao
topar com a cena, deu um berro que estremeceu toda a casa. Arrancou o cinto da
calça e partiu para cima. Não chegou a dar dois passos. Com a retirada do
cinto, a calça caiu inopinadamente a seus pés, deixando tudo a mostra. As genitálias
balançavam numa dança esquisita, meio frenética, meio surreal. Sem saída,
Pescoço de Girafa se viu, de repente, na frente dos jovens, igualmente como
eles, sem nada, tirando, claro, a arma do rapaz que marcava meio dia em ponto
quando passava, e muito, das duas da tarde.
— Eu mato! Hoje eu
mato esse canalha. Em posição, sujeito...
Essas palavras
assustaram os pombinhos. A moça arregalou os olhos num gesto de puro pavor.
Tentou se recompor. As vestes estavam longe, emboladas aos pés da cama:
— Papai, eu... eu...
O moço tentou sair
pela tangente:
— Seu Girafa de
Pescoço, mal de nada não pense. Aqui. eu só estava...
O pai da moça
enfureceu mais ainda:
— Como disse? Girafa
de Pescoço? Meu nome é Pescoço de Girafa...
O rapaz procurou
remediar:
— Eu sei, seu Pescoço,
eu sei...
A moça aquiesceu:
— Ele sabe, papai, ele
sabe...
O enfurecido ficou
mais pê da vida ainda. Babava de raiva:
— Mesmo sabendo
pronunciou errado. Ta me tirando, fedelho?
O infeliz, trêmulo:
— Não, seu Pescoço...
tava procurando uma borracha na gaveta da escrivaninha e...
Pescoço bramindo a
arma cintada com um fivelão desse tamando em pleno ar:
— Feche os olhos, seu
filho de uma rapariga.
— E para que? Se
fechar meus olhos não teremos a chance de ver o que o senhor pretende com a
gente...
— Assim que eu acabar
com a graça e o fogo dos dois, com certeza saberão...
— Não seria melhor o
senhor, em primeiro lugar recolocar as calças? Afinal de contas, isso aqui não
é um campo de nudismo.
— Não é? E o que vocês
faziam aí feito Adão e Eva?
— Papai eu e Papacum
estávamos ensaiando uma peça que vamos representar na escola.
— E eu cheguei justo
na hora em que o simpático Adão lhe apresentava a cobra?
— Pai, que cobra?
— Isso, seu Gilrafa,
quero dizer, seu Pescoço. Que cobra?
— Venha até aqui
rapaz. Meu nome e Girafa e não Gilrafa. Vou lhe mostrar a cobra...
— Sinceramente seu
Pescoço? Tenho medo desse tipo de bicho...
— Sujeitinho, se
prepare. Comerei você vivo... e palitarei os dentes...
— Minha carne é um
pouco indigesta.
— Minha filha ao que
parece não comunga da mesma opinião...
— É que ela não tem o
paladar apurado. To rachando fora...
— Alto, lá. Ninguém
sai...
— Tá, mas eu não quero
entrar...
— Isso, pai. Ele quer
sair.
— Precisa passar antes
por cima de meu cadáver.
— O senhor pretende
morrer?
— Eu não, mas você,
com certeza, pode encomendar a alma. Mandarei preparar um monte de alface e
cenoura para cobrir a sua cara de tarado... olhe para sua vara...
— Por favor, seu
Pescoço... deixa eu ir...
— É pai, deixa Papacum
ir... ele já estava de saída. Não é Papacum?
Antes que o rapaz
respondesse, Pescoço de Girafa tomou a frente:
— Esse vagabundo
pretende sair daqui pelado e com essa cobra em posição de dar novo bote?
— Seu pescoço, como
pode ver, a cobra encolheu...
— E, pai. A cobra
desespichou...
— Mas antes de
desespichar, comeu a maçã.
— Que maçã, seu
Pescoço?
— Vou lhe mostrar a
maçã. Em guarda...
Pegou o cinto que lhe
segurava as calças, se recompôs e berrou:
— Hoje você vai
conhecer o Toledo.
E ordenou à filha:
— Sua vadia, vá pegar
o Toledo.
— Pra que, pai?
— Não faça perguntas.
Pegue o Toledo. Quero o Toledo. Me traga o Toledo
— Pai, por favor, pelo
amor de Deus. O Toledo não...
Pescoço de Girafa,
espumando de raiva e ódio tudo junto e misturado:
— Pegue as suas
roupas, se recomponha e vá no meu quarto buscar o maldito Toledo...
Papacum, fora de si,
chorando em bicas, caiu de joelhões:
— Quem é o Toledo, seu
Pesco... Girafa... digo, seu Pescoço de Girafa?
— Mércia, não vou
repetir... me traga o Toledo... Vou
contar até cinco ... um...
— Calma, pai, o Toledo
não... por favor...
Pescoço de Girafa,
agora completamente fora de si:
— Dois...
Aos berros, as roupas
nas mãos, Mércia se mandou, apressada, para o quarto do pai. Retornou com o tal
do Toledo.
O tal do Toledo se
constituía numa foice tipo a da morte, porém, com um cabo mais comprido.
Pescoço de Girafa sem mais perca de tempo, empunhando a foice do lado
contrário, ou seja, pelo cabo, agarrou o rapaz pelo braço e com força
descomedida caiu pra cima, desferindo várias porretadas nas genitálias do
atrevido e miserável. Na terceira pancada, o rapaz se contorceu de dor e
desespero, as “coisas dependuradas” mais vermelha que tomate estragado em face
das pancadas recebidas.
— Pai, pelo amor de
Deus – berrou a menina...
— Pe... pe... lo...
a... mo... mor... de... De... de... De...us... se... se...u... Gi...
Na sexta cacetada, o
frangote desmoronou no chão feito um pacote bêbado. Transtornado, fora, de si,
Pescoço de Girafa cessou os açoites. Não seria mais necessário. Veio, então, a
fase final da admoestação. Pescoço de Girafa, dessa vez, usando a foice, desceu-a
sem dó nem piedade, cortando numa única e derradeira pancada os despojos
ensanguentados do que restou do brinquedo do infeliz. Satisfeito, rindo a mais
não poder, caminhou até o banheiro, atirou os restos mortais do pênis do
adolescente e acionou a descarga. Em seguida, pelo celular, ligou para a
polícia e pediu uma ambulância do SAMU.
Título e Texto: Aparecido
Raimundo de Souza, de Vila Pavão, Nova Venécia, Espírito Santo, 21-4-2026
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