domingo, 19 de abril de 2026

[As danações de Carina] O fim

Carina Bratt

O FIM NÃO AVISA. Não diz que vai chegar, a que horas, em que momento. A gente não fica sabendo quando. O fim chega de mansinho, pés no chão, e senta no sofá da sala, ao nosso lado. A gente é que insiste em não olhar para ele. Minha tia Belinha percebeu que era chegada a sua hora, quando o relógio da parede parou exatamente à meia noite.


Ninguém teve coragem de trocar a pilha. Mas trocar também, para quê? De que adiantava? As visitas de sempre também cessaram. Primeiro os netos barulhentos, resolveram dar mais atenção aos jogos que correm nas telas de seus celulares. Depois os filhos, com aquelas desculpas embaladas em farrapos, "mãe, semana que vem eu passo aí para lhe ver".

Por último, emudeceu até o barulho da chave da Verinha a empregada, que pediu conta e nunca nos disse o motivo da sua saída. A criatura só deixou o cheiro gostoso do último café frio que fez na garrafa térmica destampada em cima do fogão. No geral, é isso. O fim. O Fim é quando o fogão deixa as quatro bocas sem funcionar, a geladeira fica grande demais para uma pessoa só.

Fim é quando o feijão é o arroz são feitos para três ou quatro, mas só um prato se queda sujo na pia. Fim é também quando o gato da moradora do lado (parede meia com a tia) não arranha a porta para avisar que pretende circular pelo corredor e o cachorro do seu Alcides, emite uns latidos agoniados e a tia berra, só para ouvir a própria voz reclamando desse animalzinho perturbando a sua paz reinante. 

Tia Belinha tem a mania de ligar a TV em volume alto. Em seguida passa a mão numa vassoura de piaçava e varre a casa toda umas quatro vezes seguidas em busca de uma poeira imaginária que só ela percebe. O fim é quando ela estanca em frente a cristaleira da sala e entabula uma conversa alta com os retratos dos parentes que já se foram. Esse é o fim. O pior deles.

O fim carrega um silêncio pesado, é teimoso e insano. Ele se instala nos cantos, no vão da porta do quarto, ou pior, entre o espaço de uma respiração e outra. No fim, sobra para a tia, a varanda enorme. E lá, entre a imensidão do mar que não se escuta o quebrantar das ondas, a avenida barulhenta onde as pessoas indo e vindo parecem ter perdido a língua e os carros circulam como se fossem de brinquedo.

O fim não é a morte. Nunca será. A morte é quando a gente continua, mas sem motivo. É quando o domingo não tem gosto de almoço em família. É quando o nome de um ente querido deixa de ser querido e vira assunto acirrado no cartório por conta dos papeis do inventário a serem assinados. O fim chegou para minha tia Belinha na sexta-feira passada. Não teve café, nem almoço, nem lanche, nem janta.

Só ela, sozinha, o relógio parado e uma caixinha de pilhas que um primo meu comprou. A gente sabe que tem coisa que, quando acaba, nem faz tanto barulho. No sábado, ninguém apareceu. No domingo, idem. Na segunda, dona Lolita, a vizinha estranhou os jornais acumulados em cima do capacho da porta da sala. Na terça, o carteiro deixou a conta de luz presa na maçaneta e foi embora assobiando.

Esse é o fim. Acreditem, o fim é paciente. Quando chamaram o porteiro e o síndico, em vista do mau cheiro exalando por todo o corredor, alguns moradores se reuniram e derrubaram ambas as portas. A da cozinha e a da sala. A tia estava na cadeira de balanço. Parada. Estática. Na frente dela, numa mesinha, dois copos de café. Um cheio e frio. O outro pela metade, com a marca de batom que ela passou só para não beber sozinha.

No colo, a pilha nova. Que alguém comprou na vendinha do Seu Antônio. A tia, pela idade, não teve força para trocar. Em cima da mesa, um bilhete escrito com letras trêmulas: "Desculpem o trabalho que darei a todos. Podem me enterrar junto com meu querido e amado Zé, o meu companheiro de mais de quarenta e tantos anos. A terra dele é quentinha."

O relógio continuava cravado na meia noite em ponto, ou quem sabe, no meio dia. Não há como saber. Para a tia Belinha, o tempo parou mesmo. Para quem ficou, o fim só começou na hora do velório e do enterro. Pouca gente, muita pressa. Enorme afobação. Os filhos chegaram atrasados. Os netos idem, saíram antes da tarde cair de vez. O neto mais velho, perguntou se podia ficar com o apartamento.

Ninguém lembrou de levar os dois copos para serem lavados na cozinha. De noite, a televisão emudecida capturou um barulho novo: o da torneira do banheiro pingando. Ping... ping... ping, marcando os segundos de um fim infame, pesado, desgranhento, inesquecível, que não termina nunca.

Não cessa porque continua doendo em quem nem teve coragem de parar para ouvir. E o pior de tudo isso é o fim. O fim eterno que não acaba com a morte. Falo do fim que continua vivo no silêncio imorredouro que a gente por lapso, esqueceu de pedir perdão à tia.

Título e Texto: Carina Bratt, de Vila Pavão, Nova Venécia, Espírito Santo, 19-4-2026

Anteriores:
Um pouco da criação ímpar do primeiro poeta radioativo do mundo 
De repente, a cortina de fundo se abre revelada 
[As danações de Carina] Ninguém me ouve, mas estou pedindo socorro 
[As danações de Carina – Extra] Dezenove de março, aniversário de Aparecido Raimundo de Souza, seguidos de 73 velinhas que serão apagadas logo mais à noite

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Não publicamos comentários de anônimos/desconhecidos.

Por favor, se optar por "Anônimo", escreva o seu nome no final do comentário.

Não use CAIXA ALTA, (Não grite!), isto é, não escreva tudo em maiúsculas, escreva normalmente. Obrigado pela sua participação!
Volte sempre!
Abraços./-