Miguel A. Baptista
Entre a Praça Hugo Chávez e a recém-inaugurada Rotunda Otelo Saraiva de Carvalho medeiam apenas 13 quilómetros. Ou seja, ficam mais longe do que a Rua Che Guevara, a Estrada Salvador Allende, a Rua Amílcar Cabral ou a Avenida Álvaro Cunhal, que ali surgem quase em continuidade.
Se quisermos prolongar o passeio ideológico, basta seguir até ao Bairro das Bragadas, na Póvoa de Santa Iria, a cerca de 24 quilómetros. Aí, coladas umas às outras, encontramos a Rua Vladimir Ilitch Lenine, a Rua Karl Marx, a Rua Che Guevara, a Rua Salvador Allende e a Rua Amílcar Cabral: um autêntico condensado toponímico do imaginário revolucionário do século XX.
Mas tentemos outra experiência. Tentemos encontrar uma Rua Ronald Reagan.
Ronald Reagan foi o presidente americano que visitou Portugal, um dos principais protagonistas da vitória do mundo ocidental — ao qual pertencemos — na Guerra Fria e um homem de profunda devoção a Nossa Senhora de Fátima. Não há.
Num país que possui cinco referências toponímicas a Che Guevara, não existe uma única a Ronald Reagan.
O mesmo sucede com Margaret Thatcher, figura política europeia dominante dos anos 80, símbolo maior do anticomunismo democrático e primeira-ministra central na fase final da Guerra Fria. Também não há.
E se quisermos procurar Churchill — o homem que enfrentou Hitler quando quase toda a Europa tremia, herói da resistência democrática e aliado histórico de Portugal no quadro da velha aliança luso-britânica — teremos igualmente de desistir.
Ou melhor: teremos de apanhar um barco ou um avião para a Madeira, onde a única evocação existente é um modesto miradouro assinalando o local onde, em 1950, pintou uma aquarela de Câmara de Lobos.É isto que importa perceber: a toponímia portuguesa não é apenas “um pouco mais simpática à esquerda”.
Em vários momentos mostrou-se disponível para homenagear revolucionários marxistas, guerrilheiros terceiro-mundistas e símbolos de um certo romantismo antiocidental — figuras que nunca seriam consensuais numa cultura política verdadeiramente equilibrada.
Ao mesmo tempo, excluiu quase por completo as grandes personalidades da vitória ocidental sobre o totalitarismo comunista.
Isto deixa de ser coincidência. Passa a ser pedagogia simbólica.
As ruas educam. As placas de toponímia contam uma história.
E o que elas contaram durante décadas foi uma narrativa onde a esquerda revolucionária aparecia moralmente legitimada e o anticomunismo democrático era remetido para a invisibilidade.
Digam os Pacheco Pereira o que disserem: a minha geração — nascida em 1969 — cresceu dentro de um ambiente cultural profundamente enviesado à esquerda.
Não foi apenas na escola, nos media ou na universidade.
Foi também no espaço público, nos nomes das ruas, nas homenagens oficiais, na memória autorizada.
Creio sinceramente que uma das razões — não a principal, mas uma delas — para a emergência de uma direita mais radical reside precisamente nesta saturação e neste cansaço perante uma manipulação simbólica demasiado evidente.
Quando durante cinquenta anos se impõe uma leitura unilateral da História, mais tarde ou mais cedo surge uma reação.
Escusado será dizer que não pretendo o enviesamento em sentido contrário.
Não pretendo branquear ditaduras, nem idealizar personagens só porque estiveram “do nosso lado”.
Pretendo apenas que, com o devido distanciamento histórico, se construa finalmente uma visão mais equilibrada, mais adulta e menos catequética da memória coletiva portuguesa.
Mas confesso: olhando para
exemplos recentes, não alimento grandes esperanças.
Título e Texto: Miguel A.
Baptista, Corta-fitas,
27-4-2026
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Vergonha total em Oeiras
Pela alteração toponímica da recém inaugurada " Rotunda Otelo Saraiva de Carvalho" em " Rotunda das Vítimas das FP 25 de Abril e do Terrorismo"

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