Carina Bratt
RECEBI EM MEU E-MAIL, poemas bastante interessantes, da minha amiga Flávia Quinteiro, jornalista em São Paulo. O primeiro e também o segundo, são de autoria de Márcio-André, poeta e tradutor, ensaísta, performer e editor da ‘Revista Confraria do Vento’. É autor dos livros ‘Ensaios radioativos’ e ‘Intradoxos’, além de inúmeros textos traduzidos para outros idiomas.
Segundo Flávia Quinteiro, esse jovem
colaborou com jornais a saber ‘O Globo’, ‘Jornal do Brasil’ e o ‘Estado de
Minas’. Recebeu, em 2008, a Bolsa Fundação Biblioteca Nacional e, em 2009,
morou em residência artística em Monsanto, Portugal. Deu aulas de formação
avançada em escrita criativa na Universidade de Coimbra e na URFJ.
Participou de encontros literários na
Inglaterra, França, Portugal Ucrânia, Argentina e em inúmeras cidades
brasileiras. Em 2007, realizou performance nas ruínas da cidade fantasma de
Chernobyl, tornando-se ‘o primeiro poeta radioativo do mundo’.
Escolhi dois dos vários enviados. ‘Baleia’
em face de sua forma criativa, ao meu entender, um mimo de poesia como jamais
tinha visto e lido. O outro ‘Mulher
de plástico’. Ambos inebriam e enlevam a alma. Percebam, caras amigas e
leitoras das minhas ‘Danações’ de todos os domingos.
Se encantem, viagem... saiam do chão... engulam cada palavra como garfadas naquela refeição que vocês mais apreciam. E sonhem o impossível nas asas do infinito com gosto de amanhã.
a cidade é um cardume cintilante
e
a estátua de Drummond tem as costas ao oceano –
(as estátuas são para homens não para o mar)
cultivar um peixe por dentro
para um dia comê-lo
esperando uma mulher surgir da precisão da ossada
um dia somos felizes em nosso jardim cetáceo
e ela caminha suavemente ao meu lado
sonhando o domingo mais triste do mundo no subúrbio
do lado de lá
um dia estamos na meia idade e bebemos porque não há opção
e o guindaste no cais estará esmagado como um inseto morto
diante das mil falhas na goela das águas
o mar está na foto dos homens não no sonho das estátuas
um salmão penetra a tarde em quietude de peixe
metaleve o lume
phlox ou o flúor de mil flores-
da janela a fábrica estacionada como um trem
falha única no coração do homem
e a raça natimorta das antenas
para ordenar os livros é preciso desarrumar a cidade
e todas as coisas que não têm deus
e as pipas no fim da tarde ancoram as casas no céu
e vislumbramos:
buracos negros são rebarbas de universo.
Mulher de Plástico
1.
‘Mesmo a mulher mecânica –
o coração de quartzo
o gosto sintético de rosas
o anus perfumado em flores de maracujá
as 5 mil línguas fluente
a inteligência superior e submissa da máquina
2.
mulher de plástico flor de carne
está com o sotaque das damas de classe
que tem a beleza da luz quando recai sobre as plantas
e pode saciar dois casais ao mesmo tempo
o colo e as mãos conservados no pó do café
a epiderme de urânio a sobrepele de rímel
a maciez da morte na boceta
ranger de alumínio e louça hidratados por sucção
3.
fêmea de ferro e látex metamáquina de autoprazer testa-
da ao extremo
4.
abortada de si mesma
deixa para trás uma placenta
(sopa de fetos ao caldo amniótico)
um que do lado errado do seio
glândula-pêssego fermentada do tórax
5.
meninas como flores quando dançam
o leve do tule e seus pés de algodão-doce
um roçar indistinto de raízes folhas metais
pétalas de lâmpada ornando a cabeça nua
em seu decúbito ser
fêmea
frutas frescas
suaves como lima ou vinho verde
este amors proençal
(sirenes com canto de águas)
de damas-bacantes largadas nas pedras
as ancas policromadas de noite
a carne amaciada com papa de arroz e porra
puta sagrada fodida com força
6.
mulher tomada da costela das antenas
gerada no óleo das fábricas
vivissecada sob declarações de amor
ela ____________violada pelas esposas
enrabada de pé pelos mais jovens’.
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Título e Texto: Carina Bratt, de Vila Velha, no Espírito Santo, ES, 12-4-2026
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