segunda-feira, 13 de abril de 2026

O Lobo Morreu, Viva o Lobo: A Incurável Desonestidade da Intelligentsia

José Miguel Roque Martins 

A saída de Viktor Orbán do poder em Budapeste, selada pela frieza de um boletim de voto e aceite com a normalidade institucional de quem reconhece as regras do jogo, é o funeral de uma narrativa que alimentou milhares de carreiras académicas, editoriais e burocráticas durante duas décadas. Mas não se enganem: não esperem da intelligentsia europeia um momento de introspecção, um pedido de desculpas ou o reconhecimento honesto de que o seu "alarme fascista" era, afinal, um defeito de fabrico do seu próprio radar moral.

O Vício do Pânico como Modelo de Negócio

A casta dos "especialistas em democracia" sofre de uma cegueira selectiva que é, simultaneamente, o seu ganha-pão. Durante dezasseis anos, descreveram a Hungria como uma antecâmara do inferno totalitário, um buraco negro onde a liberdade seria sugada para nunca mais voltar. Agora que o suposto "autocrata" arruma as gavetas e sai pelo próprio pé após uma derrota eleitoral, a dissonância cognitiva instala-se nos gabinetes de Bruxelas e nas redacções de Paris.

Será que vão admitir o exagero? Será que vão reconhecer que Giorgia Meloni não foi a reencarnação de Mussolini, mas apenas uma gestora assertiva de um Estado em crise? Claro que não. A honestidade intelectual é um luxo que esta elite não pode permitir-se; admitir o erro significaria admitir a vacuidade dos seus próprios diagnósticos.

A Mutação Infinita do Perigo

A táctica é tão velha como a própria sofísticação: quando um lobo se revela um cão de guarda — barulhento, sim, mas doméstico —, a intelligentsia não questiona a sua capacidade de identificar predadores. Limita-se a apontar para o monte vizinho e a gritar que o "verdadeiro" lobo é o que virá a seguir.

Se Orbán falhou o guião da autocracia sangrenta, eles inventarão rapidamente uma nova taxonomia para salvar a face: o "autoritarismo resiliente", a "democracia iliberal de Schrödinger" ou qualquer outro neologismo oco que lhes permita continuar a caça às bruxas. O rótulo de "fascista" deixou de ser uma descrição técnica para se tornar um estigma de excomunhão laica. Serve para impedir que se discuta o essencial: por que razão as populações preferem, repetidamente, o "lobo" à esterilidade das soluções que esta mesma elite lhes tenta impor goela abaixo?

O Teatro do Absurdo e a Fuga à Realidade

É fascinante observar a agilidade com que estes guardiões da virtude mudam de alvo. No momento em que a realidade desmente as suas previsões apocalípticas, eles não corrigem o curso; mudam apenas o objecto do medo. Se a Itália não ruiu e a Hungria votou, o problema — para eles — não é o erro da análise, mas a "astúcia" do adversário que se disfarçou de democrata para os enganar.

Esta elite prefere viver no conforto de uma ditadura imaginária, onde pode desempenhar o papel heróico de "resistência", do que enfrentar a sua própria falência intelectual perante os factos. A soberania popular, quando não coincide com as suas preferências estéticas e ideológicas, é tratada como uma patologia a ser curada, nunca como uma vontade a ser respeitada.

Conclusão: O Pastor continua a Mentir

Orbán saiu e a Hungria continua lá. Meloni governa e Roma não ardeu. O veredicto das urnas é o espelho onde a intelligentsia se recusa a olhar, pois nele veria reflectido o rosto de quem, em nome da "tolerância", se tornou incapaz de tolerar a divergência.

Preparem-se: o próximo lobo já está a ser desenhado. Porque para esta gente, a sobrevivência da narrativa é mais importante do que a integridade da verdade. O lobo mudou de pelo, mas o pastor — aquele que grita para manter o rebanho sob controlo — continua a mentir com o mesmo descaramento de sempre.

Título e Texto: José Miguel Roque Martins, Corta-fitas, 13-4-2026 

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