quarta-feira, 15 de julho de 2026

Dados e fé

Henrique Pereira dos Santos

Paulo Querido fez uma grande análise sobre o posicionamento político dos comentadores da imprensa escrita e tirou as conclusões que entendeu

Eu fiz um pequeno comentário: "O problema não está nos colunistas, onde há alguma variedade, o problema está nas redacções, que são todas de esquerda, incluindo o Observador".

Paulo Querido ficou ofendido com o comentário (que não critica o seu trabalho, apenas diz que o problema (subentende-se, do viés) não está tanto nos comentadores, mas mais nas redações, e respondeu: "Henrique Pereira Dos Santos o problema não está nas Redações, onde há alguma variedade, nem nos colunistas, idem. O problema está na idiotice — a sua — de achar que as convicções — as suas — substituem os factos e a ciência".

A resposta é uma boa ilustração da arrogância de jornalistas (e académicos) que lhes permite formular opiniões como se fossem certezas científicas.

Note-se que a minha opinião sobre o posicionamento político das redações é apenas a minha opinião, mas não é pelo facto da opinião de Paulo Querido vir embrulhada num grande trabalho de análise dos colunistas que a sua opinião sobre o posicionamento político das redacções deixa de ser uma opinião, como a minha, e não um facto estabelecido.

Claro que a análise feita sobre os colunistas é impossível de fazer para as redações dos jornais, mas olhando para a cobertura sobre a guerra entre Israel e o Hamas, sobre a Guerra entre os Estados Unidos e o Irão, ou o tempo da Troica, a mim parece-me que existem indícios muito claros de viés nas redações dos jornais e televisões.

Um bom exemplo é o que se está a passar sobre a confusão dos exames, para já não falar do exemplo anterior da alteração da legislação do trabalho.

Há um processo de digitalização das provas de exames, mas raramente se encontra qualquer discussão sobre as virtudes dessa alteração (embora sejam abundantes as referências a quem acha que havia um processo estabilizado, logo, não era preciso adaptá-lo a tempos novos).

Esse processo correu mal e, desde aí, é evidente o esforço de milhares de pessoas para tentar resolver os enormes problemas encontrados, o que faz com que 98% das provas estejam já resolvidas, faltando uns 2% e verificações de qualidade que é preciso assegurar.

O que se vê nos jornais?

Uma tal senhora Cristina Mota, porta-voz de uma coisa chamada Movimento Escola Pública que ninguém sabe que representatividade tem, a falar das coisas horríveis que vão acontecer, jornalistas a falar das imensas reclamações que vão existir (até agora, na provedoria de justiça, são 14) e uma técnica de manipulação antiga como o mundo: a reprodução de testemunhos de pessoas concretas, sem que os jornalistas se deem ao trabalho de enquadrar esses testemunhos para sabermos se são situações generalizadas, ou problemas que estão e são resolvidos.

É a leitura diária de notícias que faz pessoas como eu ter uma opinião, cuja fundamentação consigo descrever deste modo, sabendo que dizer que as redacções são todas dominantemente de esquerda será sempre uma opinião mais que discutível.

Mas sempre é mais sério que procurar contrabandear opiniões como ciência verificável por qualquer pessoa.

Título e Texto: Henrique Pereira dos Santos, Corta-fitas, 15-7-2026

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