Telmo Azevedo Fernandes
Consideradas isoladamente,
cada uma destas medidas poderia ser vista como tendo objetivos meritórios de
reduzir acidentes na estrada, na detecção de material de abuso sexual infantil
ou na tentativa de impedir o acesso de menores a conteúdos nocivos. Aliás,
ninguém com um mínimo de decência se poderia opor à segurança rodoviária, à
protecção de crianças ou ao combate a abusadores.
Simplesmente, o Estado deixa
de se limitar a punir crimes e proteger direitos e passa a gerir
comportamentos, coloca máquinas a supervisionar indivíduos, transforma cidadãos
em agentes públicos, e gente adulta passa a ter tutela estatal.
Ao normalizar a observação e a
monitorização social, criam-se fortes incentivos a que as capacidades
instaladas e as tecnologias existentes sirvam propósitos diferentes daqueles
que são declarados pelos nossos decisores políticos.
O caso mais grave é o chamado “Chat Control”. Se o combate ao abuso sexual infantil é uma causa moral irrecusável, que é!, uma sociedade livre não pode abdicar dos seus princípios nem estigmatizar quem questiona os meios propostos por Bruxelas como alguém indiferente perante as vítimas destes crimes.
A burocracia europeia está a
fazer com que os cidadãos deixem de ser livres até prova da sua inocência.
Todas as pessoas são examinadas e investigadas preventivamente como suspeitos
para que, depois, alguns verdadeiros culpados sejam encontrados.
O erro tecnocrático europeu
está em tratar cada problema humano como uma falha de sistema que exige uma
solução técnica centralizada. Mas nem tudo o que é tecnicamente possível deve
ser politicamente permitido. Uma sociedade livre distingue-se pelos meios que
recusa mesmo quando persegue fins justos.
Ainda que se reduzam riscos
reais, isso compensará a vigilância que se permite a quem está em posição de
poder? Não acredito em Estados que querem gerir preventivamente a vida
quotidiana das pessoas e optimizar comportamentos humanos. Quantos mais sistemas
criamos para proteger pessoas das consequências das suas escolhas, menos
treinamos prudência, autocontrolo e responsabilidade.
A função principal do Estado é
proteger os direitos das pessoas. Infelizmente, estas sucessivas e cumulativas
transferências de autonomia do indivíduo para administrações burocráticas não
são próprias de uma sociedade livre.
A minha crónica-vídeo de
hoje, aqui:
Texto e Vídeo: Telmo Azevedo Fernandes, Blasfémias, 8-7-2026

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