domingo, 5 de julho de 2026

O vírus que tomou o Partido Democrata e ameaça adoecer a América

Aos 250 anos, a nação mais livre e próspera da história começa a sentir os efeitos de uma doença política incubada por décadas nas universidades, nos sindicatos e nas primárias democratas

Leandro Ruschel 

Há 250 anos, os Estados Unidos nasceram de uma desconfiança radical contra o poder concentrado. Não foi um acidente histórico. A ideia fundadora era simples e profunda: o governo existe para servir ao cidadão, não para redesenhá-lo; o Estado deve ser limitado, não adorado; a propriedade, a liberdade de expressão, o direito de defesa e a vida comunitária não são concessões da autoridade, mas barreiras contra ela.

Esse arranjo produziu a nação mais livre e próspera da história humana. E é justamente por isso que o que está acontecendo agora deveria assustar qualquer pessoa minimamente séria.

A ameaça mais grave contra os Estados Unidos não vem de um exército estrangeiro, nem de uma potência rival cruzando o oceano. Vem de dentro. Vem de uma mutação ideológica que, durante décadas, foi tratada como folclore universitário, militância juvenil, exagero retórico, “coisa de estudante”. Hoje essa militância vence primárias, ocupa prefeituras, chega ao Congresso e empurra o Partido Democrata para uma região cada vez mais hostil aos fundamentos da própria América.

A sigla é DSADemocratic Socialists of America. O nome foi escolhido para tranquilizar. “Socialistas democráticos” soa quase europeu, domesticado, inofensivo. Dá a impressão de que se trata de uma social-democracia de bem-estar social, com impostos altos, sindicatos fortes e um verniz escandinavo. Mas a fachada engana. No vocabulário marxista, “democrático” raramente significa liberdade, alternância de poder e império da lei. Significa, antes, a pretensão do partido de falar em nome do povo.

A Alemanha Oriental se chamava “democrática”. A Coreia do Norte também.

A DSA é herdeira dessa tradição. Só que adaptada ao século XXI. A velha agenda marxista aparece agora misturada ao identitarismo, ao ambientalismo radical, à hostilidade contra Israel, à demonização da polícia, à abertura irrestrita de fronteiras e à obsessão por destruir as bases culturais do Ocidente. O vocabulário mudou. A ambição, não. Continua sendo a substituição da liberdade individual pelo poder de uma elite que afirma agir em nome do coletivo.

A diferença está no método. O socialismo clássico prometia tomar fábricas, bancos e terras. O socialismo contemporâneo entendeu que, antes de tomar a propriedade, era preciso tomar a imaginação moral da sociedade. Escola, universidade, imprensa, sindicatos, cultura, ONGs, burocracias públicas, partidos. A tomada não começa no palácio. Começa na cabeça de quem, anos depois, vai decidir quem ocupa o palácio.

Foi essa a lição gramsciana que a esquerda aprendeu muito bem.

Por isso a DSA não precisou construir um partido próprio com força nacional. Ela fez algo mais inteligente: entrou por dentro do Partido Democrata. Como um parasita institucional, aproveitou a carcaça, a estrutura, o dinheiro, o prestígio e a máquina eleitoral de um grande partido americano para radicalizá-lo de dentro para fora.

Primeiro veio Bernie Sanders como porta de entrada emocional para uma geração universitária intoxicada por ressentimento. Depois veio Alexandria Ocasio-Cortez, tratada no início como curiosidade midiática. Agora vêm prefeitos, candidatos ao Senado, candidatos ao Congresso, todos repetindo a mesma gramática: “bilionários não deveriam existir”, “tomar os meios de produção”“acabar com a polícia de imigração”“congelar infraestrutura energética e tecnológica”, “combater a civilização ocidental”.

O que antes parecia caricatura virou plataforma. E aqui está a parte que torna tudo mais grave. Esses candidatos não escondem desprezo pela ordem que os tornou possíveis. Há uma hostilidade explícita contra a polícia, contra as fronteiras, contra Israel, contra a propriedade, contra o americano comum do interior, contra a própria ideia de que os Estados Unidos tenham sido, no balanço histórico, uma força civilizacional positiva. É sempre o mesmo espírito: receber os frutos da liberdade enquanto se cospe na árvore que os produziu.

Esse vírus não se espalha apenas por ideias ruins. Ele se espalha porque sabe explorar ressentimentos reais. A classe média americana, depois de anos de impostos, regulações, inflação, burocracia e degradação cultural, sente que o sonho americano ficou mais distante. E quando essa angústia aparece, a esquerda oferece o veneno com rótulo de remédio. Diz ao jovem endividado, ao trabalhador apertado, ao imigrante dependente do Estado, ao universitário ressentido, que o culpado é o capitalismo. O culpado seria o mercado livre, a propriedade, o empresário, a polícia, a fronteira, a tradição.

Mas o que sufoca essa gente não é liberdade demais. É Estado demais.

Quanto mais a esquerda regula, tributa e captura a vida social, mais difícil fica prosperar. Quanto mais difícil fica prosperar, mais ela aponta para o capitalismo como culpado. É um mecanismo perverso: o vírus cria a febre e depois se apresenta como cura. A doença gera o ressentimento que alimenta a própria doença.

Por isso é ingenuidade imaginar que o socialismo fracassa e, por isso, desaparece. Ele não desaparece sozinho. Ele vicia. Basta olhar para a Califórnia, para boa parte da Europa, para a América Latina, para o Brasil.

Quando uma sociedade aprende a depender do Estado, ela não reage imediatamente contra a decadência. Muitas vezes, passa a tolerá-la em troca de segurança ilusória, benefício, subsídio, proteção simbólica e pertencimento tribal. A pobreza material vem acompanhada de uma anestesia moral.

O caso americano assusta porque acontece no coração da civilização que mais resistiu a esse impulso. Os Estados Unidos nasceram da tradição de 1776: governo limitado, indivíduo livre, propriedade protegida, poder local, desconfiança da autoridade central. A DSA carrega a tradição oposta: 1789, Marx, revolução permanente, Estado redentor, destruição da ordem antiga, suspeita contra toda desigualdade, ódio à propriedade e fé no planejamento político da vida.

São duas matrizes incompatíveis. Uma construiu a América. A outra construiu a União Soviética, Cuba, Venezuela — e vem deformando o Brasil.

O Partido Democrata está diante de um momento decisivo. Ou repele esse parasita, ou será devorado por ele. O problema é que talvez a infecção já esteja mais avançada do que a direção do partido gostaria de admitir. Quando candidatos abertamente socialistas vencem primárias em série, quando a hostilidade à civilização ocidental vira linguagem de campanha, quando a defesa da polícia, da fronteira e da propriedade passa a ser tratada como extremismo, já não estamos falando de debate interno normal. Estamos falando de uma mudança de natureza.

Uma nação adoecida não perde a liberdade de uma vez. Ela perde aos poucos. Primeiro muda a linguagem. Depois muda a moral. Depois muda o critério do aceitável. Aquilo que ontem era radical passa a ser “corajoso”. Aquilo que ontem era absurdo passa a ser “necessário”. E quem tenta avisar é tratado como paranoico, até que a paranoia vire manchete.

Reagan dizia que a liberdade está sempre a uma geração de ser perdida. A frase ficou famosa justamente porque é verdadeira. Liberdade não se transmite pelo sangue. Precisa ser ensinada, defendida, explicada e reconquistada. Uma geração que não entende o que recebeu começa a achar normal entregar tudo em troca de promessas bonitas.

Aos 250 anos, os Estados Unidos ainda são a prova viva do que a liberdade pode construir. Mas Nova York, a DSA e a radicalização do Partido Democrata mostram o que acontece quando uma geração inteira é ensinada a odiar a própria herança.

O farol ainda está aceso. Mas já há gente tentando apagá-lo por dentro.

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Título, Imagem, Texto e Vídeo: Leandro Ruschel, Substack, 4-7-2026

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