Afonso Belisário
Numa decisão que deixou os fornecedores europeus da defesa furiosos e as autoridades francesas em choque, Berlim declarou oficialmente o projeto do caça franco-alemão — a jóia da coroa da autonomia estratégica europeia — morto ainda antes de nascer: Paris e Berlim estão a cancelar este programa de defesa crucial, desferindo o que só pode ser descrito como um golpe certeiro no legado de Emmanuel Macron.
O projeto, parte do Sistema
Aéreo de Combate Futuro (FCAS), deveria ser a resposta ousada da Europa aos
F-35 americanos e a tudo o que russos e chineses estão a desenvolver nos seus
esconderijos secretos nas montanhas. Em vez disso, tornou-se num case
study de disfunção continental: anos de reuniões, milhares de milhões
de euros desperdiçados, só para a Alemanha acabar por dizer “Nein, danke”.
Quase se ouvem os fantasmas de
Carlos Magno a chorar à distância.
Apesar do espetacular fracasso
da componente de caças, as autoridades não descartaram por completo a
continuidade da cooperação em drones e nos sistemas de de “combat
clouds”. Isto é o equivalente geopolítico a terminar um casamento, mas
concordar em continuar a partilhar a conta da Netflix.
O pragmatismo alemão colidiu mais uma vez com a mania das grandezas francesa, como um Volkswagen Golf a bater num Citroën que se identifica como uma nave espacial. Berlim, aparentemente cansada de subsidiar os sonhos de uma França eterna a dominar os céus, decidiu que investir mais dinheiro num jacto que existe sobretudo em projetos de CAD e nos discursos de campanha de Macron já não era sustentável. A França, naturalmente, retrata isto como uma traição ao sagrado projeto europeu.
O momento é perfeito. Enquanto
Zelensky continua a exigir mais dinheiro e mais armas, o motor franco-alemão da
Europa está a falhar por causa de um caça que nunca chegou a sair do papel.
Macron, que se posicionou como o visionário audaz do continente — parte Rei
Sol, parte orador do TED — vê agora outra iniciativa emblemática afundar-se. O
seu legado corre o risco de ser recordado como uma série de anúncios ambiciosos
seguidos de discretas retiradas.
A cooperação europeia em
matéria de defesa sempre foi menos uma irmandade e mais uma seita de
burocratas. Todos os projetos conjuntos parecem seguir o mesmo guião:
anunciados com pompa em Versalhes, discutidos em comissões sobre a divisão de
tarefas durante meia década e, por fim, arquivados discretamente quando a
Alemanha decide que os números não batem certo. A este ritmo, a próxima grande
iniciativa franco-alemã será uma padaria conjunta que produz croissants às
terças-feiras e pretzels às quintas.
Os analistas de defesa
consideram isto um golpe para Macron. O presidente francês, sempre otimista,
responderá, sem dúvida, com um outro discurso sobre a soberania europeia,
possivelmente proferido a partir do convés de um porta-aviões de cartolina.
Entretanto, as autoridades alemãs estão provavelmente a calcular quantas
turbinas eólicas poderão comprar com o dinheiro que não estão a gastar num
jacto que já estaria obsoleto quando entrasse ao serviço.
Descansa em pedaços, nobre jato.
Voou mais alto em folhetos de marketing do que alguma vez ascenderia no céu. O
legado de Macron sofre mais um golpe e, algures em Berlim, um funcionário de
compras atualiza discretamente a folha de cálculo intitulada “Coisas que soavam
bem na teoria”.
Título e Texto: Afonso
Belisário, ContraCultura,
3-7-2026

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