Humberto Pinho da Silva
Ainda não tinha trinta
anos quando cheguei à pauliceia. Permaneci estupefacto pela grandiosidade da
cidade! Não, digo, abismado. As artérias
bem rasgadas; o ruído frenético das viaturas; e os vivos pregões peculiares,
que animam a agitada capital estonteiam qualquer europeu.
Encantado fiquei ao
deambular pelo recatado “Alto de Pinheiros” e, mais ainda, ao deparar em
graciosa residência desse aristocrático bairro a terna companhia de jornada.
Serve o introito para
exprimir a mágoa que senti ao deparar, recentemente, a seguinte notícia no
jornal "O Globo":
Apareceu no festival
"Remexe Rio", escritor angolano, asseverando que a língua
portuguesa devia mudar de nome (!), já que foi enxertada de vocábulos de outras
línguas. O nome sugerido foi "Língua Geral"!!!
O desconchavo não admira,
porque o palco apropriado para esses destemperos, não podia ser senão o Brasil.
Já em 1923, mais propriamente
a 7 de setembro, o "Correio do Povo", de Porto Alegre, apresentava o
parecer do Académico brasileiro, Conde de Afonso Celso, profetizando que a
língua brasileira será tão diferente da portuguesa, como esta é do latim.
Medeiros e Albuquerque,
homem de letras brasileiro, afirmou, em 1913, que "O eixo da
literatura portuguesa se deslocará, em breve tempo, inevitavelmente, para o
Brasil, a metrópole da nossa língua" (!)
Portuguesa ou brasileira? Porque alguns intelectuais, chegaram a criar a Academia de Letras da Língua Brasileira!...
Agostinho de Campos, escreveu, e bem, em
"Ler e Tresler", ao ter conhecimento de tanto disparate, "O
patriotismo português esclarecido, não tem de arreliar-se, quando lê ou ouve
dizer, que a língua portuguesa vai morrer no Brasil. Tem, sim, evitar que ela
morra ou desapareça, por culpa dos portugueses."
Em abono da verdade, devo
dizer: a classe culta do Brasil procura falar e escrever o mais corretamente, que
sabe, sem gíria e neologismos. A prova disso é a carta que o Professor Rafael
Correia, Lente da Universidade de São Paulo, escreveu ao filólogo, Cândido de
Figueiredo, que vem publicado em "Falar e Escrever":
"Se os brasileiros
pensassem bem, teriam mais carinho pela língua portuguesa e tratariam de a
falar melhor, visto que foi com ela que se escreveu o maior poema do mundo,
"Os Lusíadas", o único que não narra vãs façanhas, fantásticas, fingidas,
mentirosas."
Já que abordo desacertos,
contarei:
Estando em Florianópolis –
pouco antes de Portugal ter adotado o euro –, vi na lista telefónica dessa
cidade, trajada de negro, isto ou frase semelhante: Portugal roubou-nos o
ouro! Não merece comentário.
Ramalho, nas "Farpas",
refere-se a um tal Medeiros, que proferiu na Sorbonne, palavras pouco
lisonjeiras a D. João VI. Concluindo que era “comilão e de inteligência
fraca".
Esclarece Ramalho: Se o
Rio possui tapeçarias, joias, porcelanas, pratas cinzeladas, do século XV e XVI,
deve ao sumptuoso recheio dos Paços, de Bemposta, de Mafra, de Sintra e de
Ajuda, que o Rei e sua nobre comitiva, levaram para Santa Cruz.
Creio, que por lá ficou,
digo eu.
Acrescenta Ramalho: O
Diretor da Biblioteca Nacional do Rio – criada com os livros de D. João –
encontrou perdidas, preciosas gravuras de Doré, que pertenciam a D. João.
Na hipótese ridícula de
quererem acertar contas, duvido quem ficaria a ganhar...
Já que falo "de
acertar contas", lembrei-me agora que apareceu professor guineense da
Universidade de Bristol, que pretende que a Europa repare os países africanos
do que ficaram lesados!...
Quando será que os povos
de antigas colônias, deixam de ter complexos?
Título e Texto: Humberto Pinho da Silva, julho de 2026
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