quinta-feira, 23 de julho de 2026

[Daqui e Dali] Onde se fala do Brasil e da língua portuguesa

Humberto Pinho da Silva

Ainda não tinha trinta anos quando cheguei à pauliceia. Permaneci estupefacto pela grandiosidade da cidade! Não, digo, abismado.  As artérias bem rasgadas; o ruído frenético das viaturas; e os vivos pregões peculiares, que animam a agitada capital estonteiam qualquer europeu.

Encantado fiquei ao deambular pelo recatado “Alto de Pinheiros” e, mais ainda, ao deparar em graciosa residência desse aristocrático bairro a terna companhia de jornada.

Serve o introito para exprimir a mágoa que senti ao deparar, recentemente, a seguinte notícia no jornal "O Globo":

Apareceu no festival "Remexe Rio", escritor angolano, asseverando que a língua portuguesa devia mudar de nome (!), já que foi enxertada de vocábulos de outras línguas. O nome sugerido foi "Língua Geral"!!!

O desconchavo não admira, porque o palco apropriado para esses destemperos, não podia ser senão o Brasil.

Já em 1923, mais propriamente a 7 de setembro, o "Correio do Povo", de Porto Alegre, apresentava o parecer do Académico brasileiro, Conde de Afonso Celso, profetizando que a língua brasileira será tão diferente da portuguesa, como esta é do latim.

Medeiros e Albuquerque, homem de letras brasileiro, afirmou, em 1913, que "O eixo da literatura portuguesa se deslocará, em breve tempo, inevitavelmente, para o Brasil, a metrópole da nossa língua" (!)

Portuguesa ou brasileira? Porque alguns intelectuais, chegaram a criar a Academia de Letras da Língua Brasileira!...

Agostinho de Campos, escreveu, e bem, em "Ler e Tresler", ao ter conhecimento de tanto disparate, "O patriotismo português esclarecido, não tem de arreliar-se, quando lê ou ouve dizer, que a língua portuguesa vai morrer no Brasil. Tem, sim, evitar que ela morra ou desapareça, por culpa dos portugueses."

Em abono da verdade, devo dizer: a classe culta do Brasil procura falar e escrever o mais corretamente, que sabe, sem gíria e neologismos. A prova disso é a carta que o Professor Rafael Correia, Lente da Universidade de São Paulo, escreveu ao filólogo, Cândido de Figueiredo, que vem publicado em "Falar e Escrever":

"Se os brasileiros pensassem bem, teriam mais carinho pela língua portuguesa e tratariam de a falar melhor, visto que foi com ela que se escreveu o maior poema do mundo, "Os Lusíadas", o único que não narra vãs façanhas, fantásticas, fingidas, mentirosas."

Já que abordo desacertos, contarei:

Estando em Florianópolis – pouco antes de Portugal ter adotado o euro –, vi na lista telefónica dessa cidade, trajada de negro, isto ou frase semelhante: Portugal roubou-nos o ouro! Não merece comentário.

Ramalho, nas "Farpas", refere-se a um tal Medeiros, que proferiu na Sorbonne, palavras pouco lisonjeiras a D. João VI. Concluindo que era “comilão e de inteligência fraca".

Esclarece Ramalho: Se o Rio possui tapeçarias, joias, porcelanas, pratas cinzeladas, do século XV e XVI, deve ao sumptuoso recheio dos Paços, de Bemposta, de Mafra, de Sintra e de Ajuda, que o Rei e sua nobre comitiva, levaram para Santa Cruz.

Creio, que por lá ficou, digo eu.

Acrescenta Ramalho: O Diretor da Biblioteca Nacional do Rio – criada com os livros de D. João – encontrou perdidas, preciosas gravuras de Doré, que pertenciam a D. João.

Na hipótese ridícula de quererem acertar contas, duvido quem ficaria a ganhar...

Já que falo "de acertar contas", lembrei-me agora que apareceu professor guineense da Universidade de Bristol, que pretende que a Europa repare os países africanos do que ficaram lesados!...

Quando será que os povos de antigas colônias, deixam de ter complexos?

Título e Texto: Humberto Pinho da Silva, julho de 2026 

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