quinta-feira, 3 de setembro de 2026

A queda de Moraes depende da pressão popular

A janela de fato existe, mas passa pela pressão popular legítima, apoiando quem enfrentou o regime e é perseguido por ter enfrentado

Leandro Ruschel

Desde ontem, tenho recebido dezenas de mensagens de dois tipos. 

A primeira é a pergunta: “agora vai?”, referindo-se a uma possível queda de Moraes. A segunda é a lamúria: “não vai dar em nada”. 

Eu entendo as duas, e não posso simplesmente desprezar os pessimistas. Afinal, Lula está na presidência depois de ter sido condenado em dois processos, em três instâncias, e preso, antes de ser Descondenado pelo Supremo. Quem olha para esse histórico e desconfia de qualquer promessa de justiça não está sendo irracional. Está apenas lembrando do país em que vive. 

Mas também seria um erro ignorar a janela que se abriu, porque ela se abriu, de forma até milagrosa. 

Há menos de um ano, Moraes era praticamente inquestionável pela imprensa. Era tratado como uma espécie de santo protetor do Brasil, o homem que segurava a democracia contra as hordas bárbaras da direita. Qualquer crítica era rapidamente empurrada para a gaveta das fake news, do golpismo, da ameaça institucional. 

Essa blindagem morreu. 

Os petistas e seus cúmplices ainda vão continuar batendo na tecla da “defesa da democracia”. Mas a verdade é que esse argumento perdeu a força. Ninguém mais acredita nele como antes. A farsa foi longe demais, durou tempo demais e agora começou a voltar contra quem a sustentou. 

Quando uma militante de redação diz, na televisão, que nunca tinha visto os implicados em um escândalo decidindo sobre o próprio caso, ela esquece convenientemente que faz sete anos que isso acontece no Brasil.  

O inquérito das Fake News nasceu exatamente assim: ministros como vítimas, investigadores, acusadores e julgadores ao mesmo tempo. Um inquérito aberto dentro do próprio Supremo, sem objeto claro, sem prazo definido e usado durante anos para censurar, intimidar e perseguir adversários políticos. 

E mais: esse inquérito nasceu para abafar uma investigação da Receita que atingia ministros e familiares por incompatibilidade entre renda e patrimônio. 

Agora, qual é o foco do escândalo atual? 

Não é justamente um contrato de mais de 100 milhões com familiar de ministro? E já sabemos que não foi apenas um contrato. 

Há menções a cotas de aeronaves de luxo, cartões de crédito para filhos e outras relações que ainda precisam ser explicadas. 

É por isso que a crise atual tem uma força diferente. Ela não atinge apenas um personagem. Ela atinge o argumento inteiro que sustentou a expansão de poder do Supremo nos últimos anos.

A verdade precisa ser dita sem anestesia: o golpe foi dado no Brasil.

E ele tem nome.

O golpe foi a Descondenação de Lula e sua alçada ao poder, ao mesmo tempo em que a direita era criminalizada por meio de inquéritos que promoveram censura e perseguição contra quem tentava refundar o Brasil.

O sistema se reorganizou com três objetivos: acabar com a refundação, tirar seus integrantes da cadeia e se blindar para sempre.

Olhe para os últimos sete anos com essa chave e tudo se encaixa.

Nunca foi sobre “defesa da democracia”. E o relatório da PF acaba de mostrar o que corria por baixo desse discurso: blindagem de um projeto de poder.

Hoje, fica evidente que todo o sistema está comprometido. E a prova tem assinatura: a decisão de Gonet.

Depois de sete anos de inquérito das Fake News, com um ministro conduzindo investigações ao seu bel-prazer sem que a PGR jamais questionasse seriamente o método, o procurador-geral aparece agora alegando que André Mendonça não poderia pedir uma investigação.

Justo agora, quando o caso encosta em Moraes: 


E há um detalhe impossível de ignorar: Gonet é citado nas mesmas mensagens que agora busca impugnar como prova. Por óbvio, ele nem deveria estar à frente do caso. Mas está.

Some-se a isso a postura de Fachin, que começou com enrolação, sem pautar imediatamente o julgamento no plenário.

A conclusão é dura, mas necessária: exposição não basta para mudar um regime.

O sistema não vai se mover sozinho.

Ele não será emparedado apenas pela publicação de reportagens, pelo constrangimento moral ou pelo incômodo de alguns editoriais. Se bastasse exposição, muita coisa já teria mudado no Brasil há muito tempo.

Regime não se desmonta por vergonha. Regime se move quando encontra pressão real, e aqui está a janela de curto prazo: o caminho eleitoral.

Cheio de problemas, cheio de injustiças, eu sei. Mas parcialmente aberto...

É preciso lembrar uma equação simples: Moraes é Lula, e Lula é Moraes. Não existe separar os dois.

O ministro que agora aparece no centro do relatório da PF é o mesmo que fez todos os esforços possíveis e imagináveis para colocar o Descondenado no Planalto. E o Descondenado, por sua vez, é o beneficiário político direto do arranjo que transformou o Supremo no centro real do poder brasileiro.

Para os isentões, com todas as letras: na presidência, o único caminho potencial para uma mudança de regime hoje é Flávio. Goste você dele ou não.

A alternativa é a manutenção do Descondenado, que indicará quatro ministros do Supremo. Quatro indicações capazes de consolidar uma juristocracia autoritária pelas próximas décadas.

Mas o apoio não pode parar na presidência.

Todos os políticos que se opõem ao regime devem ser apoiados, na Câmara e principalmente no Senado, porque é no Senado que corre o impeachment de ministro. É lá que a pressão institucional encontra um caminho concreto.

E essa pressão popular não deve ser como o 8 de janeiro, que na verdade foi um grande desastre.

Ela tem uma forma concreta, legal e imbatível: o voto e o apoio a quem tem sido mais crítico ao regime, a quem defende o impeachment de ministros, a quem foi perseguido exatamente por isso.

O critério é objetivo: quem atuou e quem apanhou por ter atuado.

Essa talvez seja a última oportunidade que o povo tenha para dar um basta, ainda que parcial, à montagem do regime de exceção.

Com Moraes deslegitimado e o sistema mais exposto, fica mais difícil impedir, na base da canetada, o avanço dos candidatos da direita. Não impossível. Mais difícil. E, em política, tornar o abuso mais caro já é parte da luta.

Há também uma releitura necessária do 8 de janeiro.

Fica mais evidente do que nunca que a motivação da esmagadora maioria daquelas pessoas jamais foi dar um golpe. Era exigir que um poder que elas acreditavam ainda isento, e não corrompido, interviesse para fazer justiça.

Não para impor uma ditadura militar.

Para fazer justiça.

Eu nunca vi esse caminho como aberto, porque sempre soube que o tal “poder moderador” também já estava comprometido. Qualquer movimento nessa direção ajudaria o próprio sistema a consolidar a narrativa de “defesa da democracia”, como acabou acontecendo.

A novidade é que o próprio sistema rachou, e parte da imprensa acordou para o monstro que ajudou a colocar de pé.

Então, respondendo às duas mensagens que abriram esta conversa.

Para quem pergunta “agora vai?”: não vai sozinho. A decisão de Gonet e a enrolação de Fachin acabaram de provar isso.

Para quem lamenta que “não vai dar em nada”: depende de nós.

A janela está aberta. É o momento de denunciar, de deixar claro que Lula é Moraes e Moraes é Lula, e de apoiar qualquer liderança que efetivamente tenha atuado contra o regime e tenha sido perseguida por isso.

O veredito é simples.

Apoiar isentões agora, ou cúmplices do regime, é ajudar a consolidar esse regime pelas próximas décadas.

A escolha, desta vez, está documentada em 218 páginas. Ninguém mais pode dizer que não sabia.

Veja mais comentários sobre o assunto: 

Título e Texto: Leandro Ruschel, Substack, 2-9-2026 

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