sexta-feira, 17 de julho de 2026

[Aparecido rasga o verbo] Só vou gostar de quem gosta de mim

Aparecido Raimundo de Souza

DIZEM QUE O SONHO é só ilusão, tipo uma imagem criada que a cabeça inventa enquanto dormimos. Mas o que eu vivi não foi apenas um sonho. Em verdade, eu diria, sem medo de errar, foi algo inusitado, estranho algo que entrou fundo, que tocou o meu peito e deixou marca, como se a vida, a minha vida tivesse parado por um instante para me mostrar o que é o fim. Eu sonhei que tinha morrido. Ou pensei, sei lá. Nunca vou saber ao certo. Meu Deus, que loucura! Morri cedo, deixei de respirar antes do tempo que eu imaginava ainda ter pela frente. Uma morte, eu diria, prematura, daquelas tidas como precoce, ou seja, que chegam sem avisar, que não esperam a gente arrumar a casa, terminar o que começou, dizer o que ficou guardado. E nesse caminho, passei por altos e baixos que pareciam mais reais do que muita coisa que vivi acordado.

Senti o peso do silêncio se engrandecer, aquilatei a distância de tudo o que me era caro fluir pelos vãos dos dedos. Nesse sonho meio estrambótico, vi rostos entristecidos que choravam, outros que alimentavam uma certa ironia e pareciam indiferentes, e me deparei, no mesmo trilho, ou até aliviados e isso doeu mais do que a própria morte. Pensei em tudo o que deixei para depois: os abraços que não dei, as palavras que engoli, os sonhos que não tentei realizar, o tempo inerte que gastei com coisas que não valiam nada.

No minuto seguinte, subi ao ponto mais alto da consciência, onde tudo parecia claro, e da mesma forma desci ao fundo da dúvida, perguntando ao meu “eu” interior:

— Era mesmo esse o meu fim? Tudo o que eu vivi até hoje, acabou assim?Mas no meio de todo esse caminho, algo do nada mudou. Não foi o fim. Eu não morri. Não passei para o outro lado. Voltei. E voltei radiante. No momento em que regressei, abri os olhos e percebi que estava aqui, respirando, com o coração batendo forte, assustado, mas energicamente vivo.E foi aí que entendi: essa “morte prematura” ou seja lá o nome que essa coisa possa ter, e que eu confesso que vivi, foi um aviso. Não foi a desgranhenta para me levar de vez, mas para me fazer ver que a vida não espera. Muitas vezes andamos por aí como autônomos, como se fôssemos viver para sempre, deixando o amor para depois, as mudanças para amanhã, a felicidade para um dia qualquer. 

Esse encontro com o meu próprio fim me mostrou que o tempo é curto, que o amanhã não é garantido. Talvez nem chegue...Nesse momento, após passado o susto, ainda agora, quando lembro desse fato, melhor dito, desse sonho, não tenho mais medo da morte em si. Tenho medo, aliás um receio  mórbido de viver uma vida pela metade, como se já estivesse morto e enterrado de fato e por dentro antes de realmente partir. O que passei foi um alerta: ganhei de novo a chance de viver de verdade, de falar o que sinto, de valorizar quem está ao meu lado, de fazer valer cada dia. Não foi só um sonho. Foi mais que isso. Acredito, uma lição que a vida me deu de um jeito duro, mas a meu ver, ao meu entender, “carecidamente” necessário. 

Morri um pouco para renascer melhor. E agora, de volta ao meu mundo do lado de cá, vivo com mais calma, mais verdade e gratidão. Porque no fundo da minha alma, bem lá no “escondidinho”, sei que, por enquanto, ainda estou aqui. E para completar, é maravilhoso estar e se ver (e me ver) de volta. Pois bem! Resumindo esse cagaço que me fez sair do chão, entre tapas e beijos, mortos e feridos, porradas e safanões, filhos distantes e desgarrados do meu amor, netos que nem sabem que eu existo, amigos idem, colocarei em prática, o método usado anos atrás pelo Roberto Carlos.

“SÓ VOU GOSTAR REALMENTE DE QUEM GOSTA DE MIM”.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Nova Venécia no Espírito Santo, 17-7-2026

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