sexta-feira, 10 de julho de 2026

A Mossad no Mundial de Futebol

José António Rodrigues Carmo

O Egipto perdeu 3-2 com a Argentina e, segundo o treinador e certas franjas mais criativas do comentário futebolístico, a culpa não foi do relvado, da táctica ou da desagradável mania que Messi tem de jogar futebol. A culpa foi de Israel.

O treinador Hassan já tinha dado o tom, ao passear pelo estádio as dores e cores do Hamas (é pena que não manifeste essas dores na sua terra, por exemplo, para protestar pela robusta fronteira que o Egipto ergueu para impedir a entrada de palestinianos) e os comentadores egípcios explicaram ao mundo que o Egipto afinal não jogou apenas contra a Argentina. 

Jogou contra a FIFA, contra Israel, contra os árbitros, contra Netanyahu, contra a visita de Messi ao Muro das Lamentações, contra uma quipá, contra a geopolítica e, presume-se, contra a gravidade, o VAR e a existência do povo judeu desde Abraão. 

É uma explicação robusta. No fundo, Messi é o Mossad com chuteiras. A Argentina não é campeã do mundo, mas sim uma conspiração sionista em 4-3-3. O Egipto nunca perde, é impedido de ganhar por forças ocultas, naturalmente “sionistas”. No manual do vitimismo não há derrotas, há sempre “contextos” e “coisas que não surgem num vazio”, como costuma bolçar o Sr. Guterres dos Pântanos.

A prova, segundo um dos comentadores, é que teria sido Yair Netanyahu a levar Messi para o Inter de Miami.  Nós, pobres mortais, julgávamos que Messi tinha ido por dinheiro, contrato, marketing, família, carreira e o belo sol da Florida, mas afinal foi uma operação da Mossad.

Israel, um colosso do futebol, manda na FIFA, manipula árbitros e decide jogos do Mundial. Só não consegue evitar que as suas seleções e clubes venham jogando fora de casa porque a FIFA o determina. Mas não compliquemos. A coerência é uma agressão colonial.

A beleza deste tipo de discurso está na sua elasticidade. Se o Egipto ganha, foi heroísmo. Se empata, foi resistência. Se perde, foi Israel. O adversário nunca é superior, o erro nunca é próprio, a responsabilidade nunca mora em casa. Há sempre um culpado externo, preferencialmente judeu, americano, ocidental ou todos ao mesmo tempo, porque a imaginação conspirativa gosta de packs promocionais.

No futebol há quem entre em campo com onze jogadores e há quem entre com onze álibis. O Egipto entrou com os primeiros e saiu com os segundos. A Argentina marcou três golos. O treinador Hassan marcou um autogolo.  E Israel, que aparentemente já controla Messi, a FIFA, Miami e o destino das bolas paradas, deve estar neste momento a estudar como ganhar o próximo Mundial sem sequer se qualificar.

Título e Texto: José António Rodrigues Carmo, Facebook, 10-7-2026, 8h07 

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