José António Rodrigues Carmo
O Egipto perdeu 3-2 com a
Argentina e, segundo o treinador e certas franjas mais criativas do comentário
futebolístico, a culpa não foi do relvado, da táctica ou da desagradável mania
que Messi tem de jogar futebol. A culpa foi de Israel.
O treinador Hassan já tinha dado o tom, ao passear pelo estádio as dores e cores do Hamas (é pena que não manifeste essas dores na sua terra, por exemplo, para protestar pela robusta fronteira que o Egipto ergueu para impedir a entrada de palestinianos) e os comentadores egípcios explicaram ao mundo que o Egipto afinal não jogou apenas contra a Argentina.
Jogou contra a FIFA, contra Israel, contra os árbitros, contra Netanyahu, contra a visita de Messi ao Muro das Lamentações, contra uma quipá, contra a geopolítica e, presume-se, contra a gravidade, o VAR e a existência do povo judeu desde Abraão.
É uma explicação robusta. No fundo, Messi é o Mossad com chuteiras. A Argentina não é campeã do mundo, mas sim uma conspiração sionista em 4-3-3. O Egipto nunca perde, é impedido de ganhar por forças ocultas, naturalmente “sionistas”. No manual do vitimismo não há derrotas, há sempre “contextos” e “coisas que não surgem num vazio”, como costuma bolçar o Sr. Guterres dos Pântanos.
A prova, segundo um dos
comentadores, é que teria sido Yair Netanyahu a levar Messi para o Inter de
Miami. Nós, pobres mortais, julgávamos
que Messi tinha ido por dinheiro, contrato, marketing, família, carreira e o
belo sol da Florida, mas afinal foi uma operação da Mossad.
Israel, um colosso do futebol,
manda na FIFA, manipula árbitros e decide jogos do Mundial. Só não consegue
evitar que as suas seleções e clubes venham jogando fora de casa porque a FIFA
o determina. Mas não compliquemos. A coerência é uma agressão colonial.
A beleza deste tipo de
discurso está na sua elasticidade. Se o Egipto ganha, foi heroísmo. Se empata,
foi resistência. Se perde, foi Israel. O adversário nunca é superior, o erro
nunca é próprio, a responsabilidade nunca mora em casa. Há sempre um culpado
externo, preferencialmente judeu, americano, ocidental ou todos ao mesmo tempo,
porque a imaginação conspirativa gosta de packs promocionais.
No futebol há quem entre em
campo com onze jogadores e há quem entre com onze álibis. O Egipto entrou com
os primeiros e saiu com os segundos. A Argentina marcou três golos. O treinador
Hassan marcou um autogolo. E Israel, que
aparentemente já controla Messi, a FIFA, Miami e o destino das bolas paradas,
deve estar neste momento a estudar como ganhar o próximo Mundial sem sequer se
qualificar.
Título e Texto: José António Rodrigues Carmo, Facebook, 10-7-2026, 8h07

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