terça-feira, 7 de julho de 2026

[Aparecido rasga o verbo] O casamento perfeito entre a Pulga Franja e o Veado Catingueiro Luiz Bonifácio de Andrada e Silva

Aparecido Raimundo de Souza

PARA QUEM NÃO SABE, a floresta inteira é feita de coisas grandes. Coisas enormes e gigantescas. Tem árvores que erguem seus troncos que até parecem tocar o céu. Em seu interior existe uma cadeia de malandros travestidos de ladrões, de deputados punguistas rotulados de senadores, outros velhacos de chimpanzés flibusteiros, e até de elefantes portadores de duas trombas, como igualmente de “piratas” de um só órgão da visão e três tapas olhos, um exclusivamente para ser enfiado no rabo, caso a coisa saia, de repente, do controle.

Não bastasse, podemos topar ainda com outros arteiros astuciosos e velhacos diplomados de marginais, de antas, onças, toupeiras, leões, papagaios e até um imbecil que todos respeitam como sendo o presidente. Na floresta também tem uma infinidade de raízes que se enroscam no chão como mãos antigas, os dedos calejados, as pelancas expostas, sem falar em rios caudalosos disfarçados de “Lagos Paranoás”.

Sem mencionar, mas já o fazendo, abelhas e zangões “picadeiros” que correm com voz de trovão (lembram, ainda que distanciados, do Thor Marves Cominos, aquele herói que acabou virando desenho infantil). Não poderia faltar o “mencionamento” de um puteiro enorme onde centopeias enormes e de uma infinidade de aves rasteiras (perdão, de aves trepadeiras) que abrem as suas asas e fazem uma espécie de sombra negra e gigantesca pior que a da pacata Chernobil.

Essas aves trepadeiras vivem no reino encantado do STF. São as (“Santas Travestidas de Futriqueiras”). Quem tem o infortúnio tormentoso e a infelicidade de entrar ali pela primeira vez, ao espiar para cima, vislumbrará um céu enegrecido que parece se impor aos nossos medos. Os ratos acostumados a dar golpes, a tomarem café com queijos importados de paraísos fiscais, e, por debaixo das cuecas e calcinhas, na surdina, o dinheiro dos desvalidos e aposentados do INSS costumam sumir em malas de viagens, como foi o caso do “onrado deucuputado” Geddel Vieira Lima. Aqueles que conseguem acessar e sair ilesos, ficam maravilhados com a imensidão, com a força e, sobretudo, com o que parece (pelo menos, para eles) ser eterno.

Quase ninguém abaixa o olhar suficientemente para ver o que cabe num fio de capim, onde no cérebro núcleo dessa podridão descabida, uma estátua com uma birosca nos olhos permanece sentada como cafetina que trepou bastante, deu o rabo até as pregas sumirem nos cafundós das camas de motéis baratos, e agora está gozando de uma polpuda aposentadoria vinda dos cofres arraigados do suntuoso Banco Master.

Foi assim que ele a encontrou. Ou ela, nunca saberemos.

No meio de tanta vida abundando (a bunda dando), seres devassos que gritavam existência no meio dessa galera, lá estava ela: uma Pulga batizada de Canja de Galinha, diga-se de passagem, uma beldade minúscula, tão pequena que um sopro forte de uma caneta esferográfica poderia levá la para quilômetros de distância, ou acabar com a sua história ali mesmo, sem que ninguém jamais soubesse que ela esteve por perto e tão presente.

Para a floresta “putrefatada”, ela, (a Pulga Canja) não passava de um ponto quase invisível dentro do visível. Para ela, mesmo chute nos colhões, aquela floresta se fazia todo o seu mundinho medíocre. Cada folha caída, um abismo a ser contornado. Cada talo de erva, uma montanha a escalar com esforço “faraônico”. Em lotes intermináveis, os povos sacrificados berrando e querendo votar, de outra banda, formigas com camisas do PCC passavam com as suas caras de “bocas de sapos famintos”; outras semelhadas a “baratas Fachins”, besouros Totóffufulis, e pernilongos de Caibros Pinos”. No geral, tudo se constituía num perigo, assim como cada gota de orvalho, uma chance de se molhar e não conseguir mais andar.

Mesmo norte, cada rajada de vento formava uma tempestade (apesar de “fux-ca” ter a capacidade de mudar todo o seu caminho sem aviso prévio. Ela, (a “inseta” Canja), na sua inocência, “desenocente”, passava os dias esperando. Subia devagar na planta mais alta que conseguia, ficava ali exposta ao sol e ao frio, ao orvalho e ao calor, sentindo o cheiro de terra úmida, de resina, de fruta madura que enchia o ar ouvindo o ruído de bichos maiores que andavam e não só andavam, cagavam e mijavam por perto sem nunca saberem da sua presença. Passava, por conta desses infortúnios, hora e dias inteiros assim.

A desditosa, não tinha pressa, porque a sua vida toda se resumia em espera. Poderia ser condecorada de “Dama Senhora do Povo Desnutrido e Sem Eira Nem Beira”. A desventurada não tinha nome, não desfrutava de uma história registrada, não possuía ninguém que olhasse para ela e dissesse que ali havia uma vida importante. Apenas tinha a humilde “manceba” uma fome enorme e, de roldão, um instinto voraz, uma teimosia hercúlea de continuar existindo, apesar de tudo ser tão maior, tão mais forte e tão mais poderoso do que ela.

Até que um dia passou por ali de forma desembestada, um mamífero herbívoro da família Cervidae, popularmente conhecido como veado. (Grosso modo, um “Viado Catingueiro”). Ele havia acabado de fugir (ou melhor, de ser “solto” (entre aspas) por pagamentos de gordas propinas), à galera da garganta profunda da PF, ou (Polícia Florestal) tendo em vista uma série de processos por lavagem de dinheiro e outras mumunhas que nunca chegavam ao fim, graças ao seu amigo Picolás Pauduro. A “insecta” Pulga Canja, (da família Siphonaptera) tendo nos cornos a vista benfazeja do seu salvador da pátria, e levando em consideração o pelo macio e quente, oriundos de suas partes, de onde exalava um cheiro de mato e de liberdade misturados, ou entrelaçados com boas doses de pingas e respingos de aguardentes dos melhores alambiques vindos de Cacetés, em Pernademambuco.

Pois bem! Num salto tão rápido como o do Vorcaro, (mais veloz ou até mais acelerado que o do Clark Kent disfarçado ao se masturbar de Super Homem), doido para pegar a jornalista Lois Lane, seus olhinhos não conseguiram dimensionar como conseguiu o escalar perfeito. O fato é que ela, a pulga, pulou. Saltou, se precipitou. Voou, se agarrou firme entre os pelos do bicho, e nessa empolgação carente sentiu o calor do sangue correndo por baixo da pele, o ritmo forte do coração batendo como um tambor longínquo de um terreiro de macumba onde o Pai de Santo, não outro, senão o Pai Sergio Pina, atualmente Lider do terreiro llê Axé Omio Oló Omi, na Baixada Fluminense, no  (Rio de Janeiro), ambos conhecidos (tanto o “terreiro” como seu “mentor”, em dias de hoje, mundialmente por ser o pau (perdão, o Pai de santo e de  ter conseguido colocar num canto, a inoxidável cantora Anitta, entre outras celebridades televisivas de cama, perdão, de fama internacional.

Para o Veado fujão, (lembrando o Catingoso foi no máximo um leve incômodo, uma coceira passageira que ele nem mesmo percebeu direito. Algo tão microscopicamente insignificante que não valia a pena parar para se coçar. Para ela, a “pulga parasita”, sempre lembrando, aquele momento foi tudo. Em suma, a vitória, o alimento, a certeza palpável de que iria viver mais um dia, de que iria, em igual momento, poder botar os seus ovos seguramente, e o melhor de tudo, de que a sua linha de vida num porvir menos tenebroso não acabaria naquele talo de capim, sozinha, sem ninguém, esquecida como os pobres e infelizes trancafiados na sorumbática e embiocada papuda.

Nós, seres humanos costumamos medir o valor das coisas pelo seu tamanho. Pau pequeno vira pica enorme, boceta profunda pode se transformar numa “piriquita adolescente” e jeitosa, ou num estrepitoso grelo adaptável a línguas de tarados incuráveis. Chamamos de grande o que vemos de longe, o que faz barulho, enfim aquela porra que deixa marcas. Alcunhamos de insignificante o que é pequeno, o que não aparece, o que vive nas frestas e bueiros do mundo. Mas quem olha de verdade para o cu da floresta entende: ela, (a pulga Canja) não existe só pelas árvores gigantes, nem pelos animais imponentes.

Ela existe também, e talvez, principalmente, por causa de tudo o que é miúdo, quase invisível: os fungos milenares que decompõem a madeira morta, os trocentos insetos de bengalas, que carregam o pólen, os vermes deteriorados que arejam a terra… e no meio dessa povoação ímpar, está a putinha – perdão, a pulguinha, que luta, que esbraveja, que peleja com todas as suas forças a cada segundo para permanecer viva, sem saber que a sua presença também faz parte do grande equilíbrio que mantém a mata virgem e insondável de pé.

Na imensidão verde e silenciosa, ela continua lá. Pulando, de galho em galho, saltando de cama em cama, fazendo mil malabarismos, esperando, sobrevivendo. Sem glória, sem aplausos, sem nenhuma beleza que os poetas do tipo Mário Quintana e Ariano Suassuna, costumam poetizar e os cantores, como Roberto Carlos e Amado Batista cantam e encantam. Mas essa mocinha insistente, voltando a ela, a jovenzinha persiste. Segue carregando dentro de si a mesma força propulsora que move o universo: a energia renovadora e pujante de querer estar não só ali, ou aqui, mas acolá, de fazer parte integrante, de cumprir o seu pequeno, o misterioso e indispensável papel.

E quando o vento ruidoso e benfazejo sopra forte entre as árvores, parece até que a floresta inteira, de canto a canto tem a sua imensidão sussurrante, como se a natureza dissesse: “não há nada pequeno demais para importar. Tudo o que vive, tem o seu lugar”. No gancho desse ganho, concluímos que tudo o que luta, tudo o que batalha tem a sua dignidade soberana. Até mesmo essa graciosa pulguinha. Mas o que aconteceu com essa heroína ao se acomodar com brilhantismo ímpar nas costas do Veado Catingueiro?

O salto dela durou menos do que um piscar de olhos. Mas, naquele instante minúsculo, duas vidas que nunca deviam se encontrar mais do que por um incômodo passageiro, mudaram de rumo para sempre. No começo, foi como todo mundo esperava que fosse. O Veado bicho sentiu um leve arranhão na pele, sob o pelo grosso e quente do pescoço, e sacudiu a cabeça, deu uma coçada rápida com o casco, passou de lado por entre os arbustos espinhosos tentando se livrar daquela presença pequena e insistente, mais ela se agarrava firme, sedimentada com todas as forças das suas patinhas minúsculas, não por maldade, mas porque aquilo era o “tudo” que ela sempre sonhara: calor, vida, movimento, não mais o capim solitário balançando ao vento. Ele tentou por vários dias. Correu, roçou o “furisco” em troncos, tomou banho frio no rio, deitou na terra úmida. E ela continuava ali. Não doía, não machucava, não atrapalhava a caminhada. Era só uma presença. Até que um dia, ele parou de tentar se livrar dela. E resolveu, curioso, prestar atenção.

— Você é teimosa, hein? — Sussurrou ele baixinho, quase sem voz, num final de tarde em que descansava em seu tríplex no Condomínio Solaris no Guarujá.

E ela, que até então só tinha ouvido o trovão do seu coração e o ruído forte do sangue correndo por dentro, respondeu num som tão miúdo que só ele, com os ouvidos atentos de quem vive na mata, conseguiu captar:

— Eu só queria não estar mais sozinha. E você… você tem o mundo inteiro andando embaixo dos seus pés. Vamos nos juntar e massacrar os pobres...

Foi assim que começou. Ninguém na floresta jamais iria entender. Para os outros animais, (a pulga era só o que incomodava, o que pegava carona, o que vivia de tirar um pouco do outro principalmente dos menos desvalidos) para sobreviver. O Veado catingueiro é o bicho animal meio inteiro manso, de compleição grande, livre, que percorre léguas e léguas sem dono, sem amarras.

Adora viajar. Mentiroso e loroteiro, não existe outro igual. Não tinham nada em comum. Ele media mais de um metro de altura. Ela mal chegava a dois milímetros. Ele via vales, montanhas, o sol nascendo atrás das serras, novas maneiras de botar na bunda dos brasileiros; ela via pelo mesmo foco, mas alcançava uma visão diferenciada. Se atinha a fios de pelos, gotas de suor, o ritmo exato de cada batida do coração dele. O Veado Catingueiro ouvia o grito das águias, o rugido longe dos felinos, o canto dos rios. Ela ouvia o som do ar passando fio por fio, o zumbido de insetos que passavam rente à pele, sentia o silêncio que existia dentro de seu próprio corpo.

E foi exatamente nas diferenças que a amizade cresceu, vingou forte e quieta, como as raízes das árvores que ninguém vê, mas que seguram a terra firme. Ele passou a andar mais devagar quando sabia que ela estava cansada de se segurar contra o vento. Evitava os espinhos mais afiados, os banhos muito gelados, os lugares onde o sol queimava forte demais naquele pedaço do pescoço onde ela morava.  Contava histórias das partes mais profundas da mata: da cachoeira que caia de uma altura que parecia não ter fim, falava da árvore que tinha o tronco tão largo que dez homens de mãos dadas não conseguiam abraçá la. Ele aproveitava o embalo e contava minúcias da noite em que fugiu da PF correndo mais rápido do que o próprio medo.

Mostrou seu mundo, sem que ela precisasse mais temer o vento, nem a chuva, nem a solidão. E ela, por sua vez, deu a ele o que ninguém mais jamais poderia dar. Avisava de perigos que os seus olhos grandes e os seus ouvidos aguçados não alcançavam: o espinho miúdo escondido no pelo que poderia infeccionar, os insetos peçonhentos conhecidos como os “pobres fodidos” que vinham chegando devagar, o momento em que o próprio coração dele começava a bater forte demais por cansaço ou ansiedade, antes mesmo que ele percebesse.

Ouvia todos os seus receios que ele não tinha coragem de contar a ninguém, o medo de ficar velho, o pavor de perder a mamata de onde podia roubar sem ser alcunhado de ladrão, bem ainda o pânico de perder os caminhos da rampa do planalto, a saudade da mãe que um dia se foi para sempre, pois sabia que, para o mundo, ele tinha que ser forte e livre. Mas para ela, ele podia ser só… ELE. E quando a noite vinha fria e silenciosa, ela se aconchegava mais pertinho, e ele sentia aquele calor pequeno, quase nada, mas que parecia aquecer por dentro também. Os outros bichos cochichavam. Diziam que aquilo não era natural.

Apregoavam que ela só queria o sangue dele, que ele era bobo de deixar uma coisa tão pequena tomar conta de um pedaço da sua vida. Diziam que amizade não existia entre quem é tão grande e quem é tão pequeno. Mas eles não sabiam o que os dois sabiam: que a amizade não mede tamanho, não pesa, não obedece a regras dos livros nem aos costumes da mata. Amizade é quando um entende o silêncio do outro. É quando um cuida do que o outro não consegue ver sozinho.

O dedo faltoso, cortado para mamar uma aposentadoria como simples metalúrgico. É quando, Pulga e Veado bicho, o Veado Catingueiro e Pulga mesmo sendo de mundos completamente diferentes, os dois se completaram como se tivessem sido feitos um para o outro desde o princípio. E assim essas desgraças infames continuaram, por todos os dias que o tempo permitiu. O Veado bicho, com o seu passo manso e firme, percorrendo a floresta inteira, levando o mundo nas costas. E a Pulga Canja de Galinha, bem pertinho do coração dele, pequena, quase invisível para todos, mas dona da maior companhia que aquele bicho gigante jamais teve em seus dias desde o fatídico dia em que nascera.

Não houve separação, não houve fim de história por abandono. Quando o velho Veado bicho, ou animal finalmente chegou ao poder, bem ainda a sua caminhada, se deitou manso sob a sombra da mesma árvore onde tinham conversado pela primeira vez, e ela não pulou para longe, não procurou outro corpo, não foi embora. Ficou ali até o último dia, ele, agora, como chefe da nação de imbecilizados, pois a pulga sabia que ali, naquele lugar pequeno e quente, não tinha morado só uma pulga. Tinha nascido, sobretudo, uma amiga.

Dizem que na floresta, o que é grande é o que importa. As árvores altas, os rios caudalosos, os animais fortes. Mas quem passou por ali e ouviu o vento sussurrar entre as folhas, sabe a verdade: a história mais bonita que a mata já guardou não foi a de nenhum gigante. Foi a de um coração grande e manso, e um ser tão minúsculo, mas tinhoso que cabia num fio de cabelo, que provaram ao mundo que o amor e a amizade não cabem em réguas. Eles se adaptam, isso sim, no lugar mais simples e mais verdadeiro que existe: dentro da indignação infindável dos brasileiros, cada um rezando para que ele, o mais rápido possível vá queimar os ossos nos quintos bem profundos da puta que pariu os quintos do inferno.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Conceição do Castelo, Espírito Santo, 7-7-2026

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