Você já financiou uma pizza? Mais de 1 milhão de
brasileiros já
Rogerio Pires
Confesso que, quando vi a
notícia pela primeira vez, achei que fosse piada de internet. Não era.
O iFood, maior aplicativo de entrega de comida do país, agora permite parcelar o pedido do restaurante em até 6 vezes no cartão de crédito. Com juros. E juros que não são simbólicos: as taxas variam de 3,53% em duas parcelas a 8,36% em seis, segundo testes divulgados por sites especializados em cartões. Quase 9% para dividir uma pizza.
Pare e pense no que isso
significa. O brasileiro está financiando o jantar de sexta-feira. E não é caso
isolado, não é exceção de meia dúzia de endividados. Em apenas dois meses, a
modalidade ultrapassou 1,3 milhão de pedidos parcelados, segundo dados do
próprio iFood Pago, a fintech da empresa. O volume mais que dobrou nesse
período.
Alguém lembra da promessa?
Picanha e cervejinha na mesa do trabalhador. Foi assim que Lula fez campanha em
2022, com churrasco no palanque e discurso de fartura. A realidade entregou
outra coisa.
A picanha virou artigo de
luxo. Em supermercados de várias capitais, a peça chega a custar R$ 150 o
quilo, e o corte agora recebe tratamento de joia: alarme antifurto colado na
embalagem. Em Florianópolis, no início do ano passado, um mercado instalou dispositivos
eletrônicos que apitam se a carne cruzar a porta sem passar pelo caixa. Quando
o supermercado precisa proteger a carne como uma loja protege um diamante,
alguma coisa está profundamente errada no país.
Os números confirmam a sensação. Levantamento do Cepea, centro de estudos da Esalq/USP, mostra que a carne bovina no atacado atingiu em abril o maior preço real de toda a série histórica, iniciada em 2001. A alta acumulada em dois anos chega a quase 45%. Não é impressão do consumidor na fila do açougue. É recorde documentado por pesquisadores da universidade mais respeitada do país na área.
E o cafezinho, símbolo
nacional, aquele que nenhum brasileiro abre mão? O café moído acumulou alta de
quase 80% em dois anos, segundo o IPCA, do IBGE. Em maio de 2025, a CNN
noticiou que o produto havia registrado a maior alta em 12 meses desde o Plano
Real. Desde o Plano Real. Estamos falando de mais de três décadas.
Arroz, feijão, ovo e leite
seguem o mesmo caminho, pesando mês após mês no orçamento das famílias. Estudo
recente mostrou que os alimentos subiram muito acima da inflação geral nas
últimas duas décadas, e o ciclo atual só agravou o quadro.
O governo responde com
estatísticas escolhidas a dedo e comparações convenientes. Mas o povo não come
planilha. O povo vai ao mercado, olha a etiqueta e faz conta. E a conta não
fecha.
Quem ganha salário-mínimo sabe
exatamente do que estou falando. Quando a carne sobe 45%, quem tem renda alta
troca o corte. Quem tem renda baixa tira a carne do prato. Quando o café sobe
80%, a classe média reclama. O pobre dilui o pó. É assim que funciona a
inflação de alimentos: ela é cruel justamente com quem tem menos.
Financiar pizza em 6 vezes não
é modernidade, não é inclusão financeira, não é conveniência. É sintoma. É o
retrato de um país onde a comida do dia a dia deixou de caber no salário do
mês.
Fizeram campanha com
churrasco. Entregaram parcelamento de janta com juros.
Isso não é dificuldade
passageira. É perda real de padrão de vida. E ela tem endereço, tem data e tem
responsável.
Rogerio Pires é professor,
pesquisador e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e
políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.
Título e Texto: Rogerio
Pires, Revista Timeline, 11-7-2026

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