Hélder Gomes
O bandoneón não é argentino.
Foi desenvolvido na década de 1840 pelo comerciante e fabricante alemão
Heinrich Band, em Krefeld, que lhe deu o nome e o promoveu como alternativa
portátil ao órgão para as capelas sem meios, mas também para a música popular alemã.
Atravessou o Atlântico na bagagem de emigrantes alemães e foi no porto de
Buenos Aires que trocou os hinos pela saudade e se tornou a voz do tango, o som
mais argentino de todos, apesar da certidão de nascimento germânica. Foi com
ele que Astor Piazzolla compôs, em 1959, ‘Adiós Nonino’, uma elegia pela morte
do pai.
Horas depois de a Argentina ter eliminado a Inglaterra nas meias-finais do Mundial 2026, o fole ainda parece insuflar e comprimir-se sobre o relvado. E se o bandoneão chegou de fora e ficou, Lionel Messi nasceu em Rosário e teve de partir. Tinha uma deficiência de crescimento e um tratamento caro que nenhum clube argentino conseguiu garantir. Foi o Barcelona que o assumiu, com a condição de a família se mudar para Espanha. Chegou lá aos treze anos. Do outro lado, uns ingleses que codificaram o futebol e o veem agora ser-lhes tocado de ouvido por quem o aprendeu depois. E, em fundo, as Malvinas, sempre as Malvinas.
A rivalidade moderna nasceu nuns quartas-de-final em Wembley, em 1966: a Inglaterra venceu por 1-0, com o capitão argentino Antonio Rattín expulso e o selecionador inglês Alf Ramsey a chamar “animais” aos adversários. Rattín morreu no sábado, a poucos dias de as duas seleções voltarem a cruzar-se. Vinte anos depois de Wembley, em 1986, e quatro anos depois de a Argentina ter perdido a guerra das Malvinas para o Reino Unido – 74 dias de conflito, cerca de 649 mortos argentinos –, Diego Maradona resolveu noutros quartas-de-final com dois golos. Primeiro a “Mão de Deus”, com que empurrou a bola para a baliza à socapa do árbitro. Minutos depois, uma corrida de sessenta metros por entre meia equipa inglesa resultou no que viriam a chamar “o golo do século”. Em 1998, foi a vez de David Beckham: expulso frente à Argentina nos oitavas-de-final do Mundial de França por um pontapé em Diego Simeone, deixou os ingleses com dez e viu-os cair nas grandes penalidades. A desforra veio em 2002, em Sapporo, e coube ao próprio Beckham: um pênalti deu à Inglaterra o 1-0 que atirou a Argentina para fora ainda na fase de grupos.
Na noite passada, em Atlanta,
a Inglaterra adiantou-se por Anthony Gordon, ao minuto 55, e segurou a vantagem
durante meia hora, agarrada às defesas de Jordan Pickford. A sete minutos do
fim, Enzo Fernández empatou de longe e, nos descontos, Lautaro Martínez
cabeceou para o 2-1. Messi assistiu nos dois lances e, aos 39 anos, leva a
Argentina à final de domingo, contra a Espanha, à procura de ser a primeira
seleção desde o Brasil de 1962 a revalidar o título mundial.
Para a Inglaterra, ficou o que
fica quase sempre nos jogos grandes contra os argentinos: a bola no fundo da
baliza no minuto errado. Wembley, em 1966, e Sapporo, em 2002, foram as
exceções. O ‘Adiós Nonino’ vira ‘Adiós, Inglaterra’, espécie de réquiem para o
fim de mais um capítulo em que são os ingleses a sair de campo a olhar para a
festa do outro lado.
O Francisco Martins chama-lhe
“o jogo do século”. Depois de a Argentina voltar a estar “virtualmente
eliminada do Mundial”, “até os mortos ganharam vida”. Aos 85 minutos, a seleção
perdia por 1-0, mas em sete minutos marcou dois golos numa “reviravolta épica”.
Título e Texto: Hélder
Gomes, Expresso Curto, 16-7-2026

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