segunda-feira, 27 de julho de 2026

"Tudo isso não passa de uma guerra de narrativas. O buraco real é bem mais embaixo."

Marcelo Guterman

Fiquei curioso quando li essa manchete no Estadão. Afinal, seriam os cortes de subsídios patrocinados por Milei os responsáveis pela queda das exportações de automóveis do Brasil para a Argentina? Fui ler a reportagem. 

Em primeiro lugar, procurei o analista econômico que desenvolveu essa correlação “cortes de subsídios vs exportações brasileiras”. Não tem. Veio direto das vozes da cabeça do repórter. Como o editor do jornal deixou um troço desses virar manchete da primeira página é caso para teorias da conspiração.

Pior. Os dados não corroboram a manchete. O volume de carros vendidos na Argentina AUMENTOU durante os dois primeiros anos do governo Milei, mesmo com os tais cortes de subsídios (vide gráfico anexo). O volume reduziu-se a partir do segundo semestre de 2025, mas ainda assim permaneceu acima do patamar pré-Milei. Ou seja, a história do corte dos subsídios não para em pé.


Mas calma, isso não é tudo. A própria reportagem diz que a China liderou as exportações para a Argentina entre 2020 e 2022, com o Brasil retomando a liderança a partir de 2023. A matéria reconhece que essa retomada se deu por conta da recuperação do nível das reservas internacionais, o que facilita o comércio exterior. Seria um “efeito-Milei” do bem, mas que não mereceu manchete em momento algum dos últimos dois anos. 

Piora? Sim, piora. A matéria afirma textualmente que “os acordos de cooperação firmados com os governos peronistas que antecederam o atual presidente do país, Javier Milei, dão hoje à China condições de destronar o Brasil no fornecimento à Argentina”. Quer dizer, não foi Milei, mas os seus antecessores os “culpados” pela liderança chinesa.

Passa até a impressão de que se quer fazer uma associação subliminar com a recém passagem do presidente argentino, apoiando Flávio e xingando autoridades brasileiras. Quem lê, pensa: Milei fdp, quer f@der o Brasil para beneficiar o seu candidato.

Tudo isso não passa de uma guerra de narrativas. O buraco real é bem mais embaixo. Como diz o presidente da Associação do Comércio Exterior do Brasil, entrevistado na reportagem, “não temos preços para concorrer com a China e, muito menos, com os Estados Unidos”. Essa é a real. O Mercosul não passa de uma grande reserva de mercado que condena o consumidor do bloco a pagar preços mais altos por produtos ruins, para proteger indústrias que precisam operar em ambientes institucionais e macroeconômicos inóspitos. Milei veio desafiar essa lógica. Esse é o verdadeiro “efeito-Milei”.

Texto e Imagens: Marcelo Guterman, Facebook, 27-6-2026, 11h30

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