Rejeição de parte da elite financeira a Flávio revela menos prudência econômica e mais disposição de negociar com um sistema que ela diz criticar, mas do qual muitas vezes se beneficia
Leandro Ruschel
Por que a Faria Lima insiste tanto numa terceira via? Por que parte dela parece disposta até a ir de Lula para não ir de Flávio Bolsonaro?
Antes de responder, é preciso fazer uma precisão importante: não existe uma única Faria Lima. Existe gestor liberal de verdade. Existe gente que financia boa causa. Existe empresário que entendeu o tamanho do jogo. Existe gente séria, corajosa, que não se rendeu ao vocabulário bonito da captura estatal.
Mas existe também um comportamento médio. E esse comportamento médio tem dois defeitos graves.
O primeiro é a tolerância com a corrupção quando ela convém.
O mesmo mercado que fala em governança, compliance, eficiência, previsibilidade e segurança jurídica muitas vezes engole balcão, emenda, capitalismo de compadrio e proteção regulatória quando o arranjo rende negócio. O discurso liberal vai até a página em que começa o subsídio, o crédito amigo, a regra feita sob medida, a conversa certa no gabinete certo.
Para essa turma, o problema nunca foi exatamente o sistema podre. Foi não ter assento preferencial na mesa.
Essa é a contradição que precisa ser encarada. Parte da elite financeira brasileira gosta da estética do mercado, mas não necessariamente da ética do mercado. Gosta da linguagem da eficiência, mas se acomoda muito bem ao jogo dos favores. Gosta de defender liberdade econômica em painel, evento e relatório, mas não se incomoda tanto assim quando o Estado vira sócio oculto, garantidor de privilégio e distribuidor de proteção.
Por isso tanta gente embarcou na fantasia de 2022. Acreditaram na história do “adulto na sala”. Acharam que Lula viria domesticado, que Alckmin seguraria a mão, que o mercado moderaria o petismo, que uma ou outra reforma bastaria para proteger o país da marcha política em curso. Como se o problema do Brasil fosse apenas uma planilha mal organizada, e não um projeto de poder.
Essa foi uma ingenuidade conveniente. E quem embarcou nela é corresponsável pela tragédia que veio depois.
O segundo defeito é ainda mais profundo: a miopia cultural.
A Faria Lima média acha que o jogo é econômico. Fala em reforma tributária, arcabouço fiscal, marco regulatório, juros, câmbio, inflação, relatório, risco-país. Tudo isso importa, claro. Mas não é a fundação. A economia é o segundo andar. A cultura é o chão.
O socialismo nunca foi apenas uma proposta econômica. É antes de tudo um movimento cultural, moral e institucional. Ele não começa estatizando a fábrica. Começa ensinando uma geração inteira a odiar o empresário, a desconfiar da propriedade, a tratar lucro como roubo, a ver o Estado como pai e a considerar qualquer desigualdade como crime político.
Quem domina a escola, a universidade, a imprensa, o tribunal, a linguagem e a imaginação moral de um povo acaba dominando o orçamento também.
É por isso que reforma econômica sem guerra cultural é enxugar gelo com nota técnica. Você arruma a planilha hoje, a universidade forma o militante amanhã, a imprensa legitima a próxima intervenção, o tribunal reescreve a regra, e o Estado volta a crescer por outra porta. A máquina sempre encontra um jeito de recuperar aquilo que a cultura já concedeu a ela.
A Faria Lima não entendeu isso. Ou entendeu tarde demais. Ou entendeu e preferiu fingir que não viu.
Daí nasce essa obsessão pela terceira via. A elite financeira brasileira costuma olhar para uma direita mais popular, mais barulhenta, mais orgânica, mais ligada ao povão, e sentir constrangimento estético. Acha tosco. Acha deselegante. Acha pouco sofisticado. Prefere o sujeito com bons modos, boa mesa, boa apresentação, vocabulário técnico e disposição para negociar tudo.
Metade é “nojinho cultural”. Metade é “cálculo de balcão”.
É por isso que parte dela prefere um sistema com o qual sabe negociar a uma direita que considera imprevisível demais para seu paladar. O problema é que essa escolha revela uma confusão fatal: achar que o regime que hoje oferece lugar à mesa continuará oferecendo esse lugar quando não precisar mais dela.
O falso liberalismo come os liberais por último, mas come.
A história está cheia de empresários que acharam possível conviver com projetos autoritários desde que preservassem seus negócios. Acreditaram que a esperteza bastaria. Que bastava financiar o lado certo, falar a linguagem certa, não provocar demais, aderir a algumas pautas da moda, fazer concessões públicas e manter a engrenagem funcionando. Até o dia em que o próprio negócio virou alvo, o próprio patrimônio virou objeto de barganha, a própria liberdade virou concessão revogável.
O empresariado argentino conhece essa história. O venezuelano conhece ainda melhor.
Mas o pano de fundo é maior do que o Brasil. O mercado mundial também foi capturado por um falso liberalismo globalista que já não defende, de fato, o livre mercado clássico. O Fórum Econômico Mundial é o símbolo mais acabado disso. A empresa já não deve focar apenas em lucro, eficiência, propriedade, produto e consumidor. Deve operar como braço de uma agenda política, em parceria com o Estado, para promover as causas “inclusivas” da vez.
Daí nasceu o ESG (Environmental, Social, and Governance — Ambiental, Social e Governança, em português) e todo o pacote.
Quando a pressão apertou, muita gente abandonou a palavra ESG. Mas abandonar a sigla não significa abandonar a política. A linguagem muda. O projeto fica. A empresa continua sendo pressionada a agir como extensão moral e operacional do governo, obedecendo critérios políticos que nada têm a ver com mercado livre.
E empresa operando como braço do governo tem nome nos livros de história.
Não é liberalismo. É outra coisa.
A China levou esse modelo ao limite: pode lucrar quem obedece ao partido. Pode enriquecer quem não desafia o poder. Pode crescer quem aceita que a propriedade, no fim, existe sob permissão política. Esse é o “capitalismo” que parte da elite financeira mundial passou a achar sofisticado. Um capitalismo sem liberdade, sem cultura liberal, sem freios reais ao Estado. Lucro com coleira.
A tragédia é que parte da Faria Lima olha para isso e vê modernidade.
Por isso a rejeição a Flávio, ou a qualquer nome percebido como direita real, precisa ser lida nesse contexto. Não é apenas avaliação eleitoral. Não é apenas medo de instabilidade. Não é apenas cálculo racional de mercado. É também preferência por um sistema conhecido, ainda que podre, em vez de uma ruptura que possa devolver a política ao eleitor comum.
A Faria Lima média se acostumou a negociar com o sistema. A direita popular ameaça justamente esse conforto.
O problema é que mercado livre não sobrevive sem a civilização que o sustenta. Não há liberdade econômica duradoura sem liberdade de expressão, segurança jurídica, propriedade real, imprensa minimamente honesta, instituições com limite, cultura de responsabilidade e defesa moral do indivíduo contra o Estado.
Quando a elite financeira trata tudo isso como acessório e aposta apenas em ajuste fiscal, ela está tentando proteger a cobertura enquanto a fundação é demolida.
E quando financia, legitima ou tolera quem destrói essa fundação, não deveria se surpreender quando o prédio cai em cima da própria carteira.
A verdade sobre a Faria Lima é esta: parte dela não teme a esquerda o suficiente porque ainda acredita que conseguirá negociar com ela. Trata a direita como constrangimento e a esquerda como sócia potencial. Acha que pode domesticar um projeto que, por natureza, não aceita concorrentes reais ao poder.
É um erro que custa caro.
Porque, no fim, não vai sobrar mesa para negociar. O sistema que hoje convida para o jantar amanhã decide o cardápio. E quem ajudou a demolir as bases da liberdade em nome da sofisticação talvez descubra tarde demais que PowerPoint não segura revolução cultural, nota técnica não derrota aparelhamento e mercado sem civilização vira apenas balcão do regime.
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Título, Texto e Vídeo: Leandro Ruschel, Substack, 22-7-2026
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