Maria Helena Costa
Vivemos dias em que um simples
vídeo nas redes sociais expõe uma realidade dolorosa: gerações inteiras de
jovens parecem flutuar sem âncora. Sem valores morais sólidos, sem regras
claras e sem referências verdadeiras. O que vemos não é um mero “problema de
geração”, mas o fruto amargo de uma cultura que rejeitou a autoridade de Deus.
Até hoje, a sociedade tem-se aconselhado com supostos experts,
recorrendo a métodos, técnicas e a toda a sorte de instruções para tentar mudar
este cenário. Contudo, o resultado foi o fracasso total. Como cristãos
reformados, não podemos limitar-nos a lamentar ou a insistir nessas mesmas
soluções humanas. Chegou a hora de deixar de lado quaisquer preconceitos e,
finalmente, olhar para esta realidade à luz das Escrituras.
A realidade observada
Muitos jovens crescem hoje num
vácuo espiritual e moral. A família desestruturada, a escola relativista, as
redes sociais como principal educadora e a ausência de autoridade legítima
criaram uma geração que “faz o que é recto aos seus próprios olhos” (Juízes
21:25).
Uma das causas mais profundas
é a terceirização precoce da educação. Colocar os filhos na creche desde muito
cedo significa, na prática, entregar as primeiras e mais formativas referências
a outros adultos e, principalmente, aos pares. Em muitos casos, esses adultos
são mais permissivos e chegam até a criticar abertamente os pais que tentam
impor limites ou valores. Em vez de os pais e avós serem as principais vozes de
autoridade e amor, a criança passa a ter como modelo de comportamento os
colegas de creche e educadores que, muitas vezes, não partilham da mesma visão
moral e espiritual dos pais.
Acresce ainda outra decisão
aparentemente “neutra”, mas profundamente danosa: a convicção de que não se
deve criar os filhos “na religião dos pais”, mas deixá-los livres para, mais
tarde, escolherem por si mesmos. O resultado é uma geração sem bases seguras e
firmes. Sem uma cosmovisão cristã sólida, transmitida desde a infância, o jovem
fica vulnerável a qualquer vento de doutrina, ideologia ou prazer passageiro.
Não se trata apenas de uma rebeldia passageira. É a manifestação prática da depravação total descrita na Bíblia: o coração humano, ferido pelo pecado, inclina-se naturalmente para a autonomia e rejeita qualquer limite externo (Romanos 3:10-18; Jeremias 17:9).
A incoerência cultural
Nos Estados Unidos, a Bíblia, que já tinha sido a base do currículo escolar e acabou banida há anos, começa agora a ser novamente reintegrada. Pelo menos um estado decidiu reintroduzir as Escrituras, reconhecendo o seu valor histórico, literário e moral. Esta medida levanta uma pergunta incómoda e reveladora: porque é que a Bíblia não tem lugar na escola, mas tem-no nas prisões?
Ensinamos aos jovens que a Palavra de Deus é irrelevante para a formação do carácter, mas, quando o fruto amargo do relativismo se manifesta em crime, violência e desespero, corremos a oferecer Bíblias nas celas. Que hipocrisia! A Bíblia não é apenas um livro de conforto para o fim da linha; é o fundamento para uma vida reta desde o princípio.
A diagnose bíblica: o homem sem Deus é um náufrago
A tradição cristã, fiel à
Palavra de Deus, afirma que o problema não é primariamente cultural ou
educacional, mas teológico. O ser humano é criatura, não é autónomo. Quando
rejeita o Criador, perde o sentido de tudo o mais (Romanos 1:18-32).
Sem valores —
porque abandonaram o padrão da lei moral de Deus.
Sem regras — porque desprezaram a autoridade ordenada por Deus:
pais, igreja e magistrado civil.
Sem referências — porque trocaram os pais, avós e a igreja por
influenciadores, educadores permissivos e pares.
A Bíblia é clara quanto à responsabilidade dos pais: “E estas palavras, que hoje te ordeno, estarão no teu coração; e as ensinarás diligentemente a teus filhos, e falarás delas quando te assentares em tua casa, e quando andares pelo caminho, e quando te deitares, e quando te levantares” (Deuteronómio 6:6-7). A educação dos filhos não é opcional nem deve ser terceirizada. É um mandato divino.
A resposta cristã: graça soberana e autoridade da Palavra
A solução não está em
programas motivacionais, leis mais rígidas ou “valores humanistas”. A única
esperança é o evangelho da graça soberana. Deus não espera que a juventude se
recupere sozinha. Ele mesmo intervém:
A Palavra de Deus como referência absoluta – “Lâmpada para os meus pés e luz para o meu caminho” (Salmos 119:105).
A família piedosa como primeiro e principal bastião – Os pais são chamados a educar “na disciplina e admoestação do Senhor” (Efésios 6:4), não como amigos, mas como autoridades amorosas que apontam para Cristo desde os primeiros anos de vida.
A igreja visível como comunidade formadora – Uma igreja que confessa os grandes credos reformados e vive a comunhão dos santos é o antídoto contra o individualismo e o relativismo.
A soberania de Deus no meio da crise – Mesmo nesta escuridão, Deus está no controlo. Ele elege, chama, regenera e santifica quem Ele quer.
Chamado prático aos cristãos de hoje
Pais: Não terceirizem a educação moral e espiritual dos vossos filhos para a creche, escola ou telemóvel. A creche precoce pode ser uma necessidade em alguns casos, mas deve ser uma excepção bem ponderada, nunca a regra. Os primeiros anos de vida são cruciais para formar referências. Sejam vocês mesmos as principais referências dos vossos filhos. Ensinem a Palavra de Deus em casa, desde pequeninos. Não tenham medo de criar os filhos na fé que vocês professam. A neutralidade religiosa é uma ilusão: ou se transmite uma cosmovisão ou se deixa a criança à mercê das influências do mundo.
Igrejas: Priorizem o discipulado de famílias inteiras, com ensino bíblico para crianças e apoio prático aos pais. Ensinem a doutrina, a cosmovisão cristã e a responsabilidade paterna.
Jovens: Se se reconhecem nesta descrição, saibam que há um caminho melhor. “Buscai ao Senhor enquanto se pode achar” (Isaías 55:6). Cristo oferece perdão, uma nova natureza e um propósito eterno.
Sociedade: Embora a graça comum permita alguma ordem, a verdadeira
transformação só virá pela pregação do evangelho e pela restauração da família
segundo o desígnio de Deus.
A juventude sem valores,
regras e referências não é um caso perdido. Ela é o campo missionário que Deus
colocou diante de nós. Que o Senhor levante, nesta geração, jovens como Daniel
e como Timóteo — jovens que desde a infância conheceram as Sagradas Escrituras
e não se contaminaram com os manjares do rei.
Soli Deo Gloria.
Título, Imagem e Texto: Maria
Helena Costa, ContraCultura,
20-7-2026

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