Paulo Hasse Paixão
Num ataque de incomensurável pretensão, Christopher Nolan assumiu a costela woke e admitiu ter alterado o final da sua adaptação de ‘A Odisseia’ porque acreditava que a conclusão original de Homero para a história era demasiada “misógina”.
Ou seja, Nolan sabe melhor do
que Homero como terminar uma epopeia. Uau!
Em entrevista à revista Time,
Nolan discutiu as diferenças entre o filme e o material
original e aprofundou a sua interpretação da obra. Às páginas tantas, o
entrevistador comentou:
“Também se vê esta ideia do
homem como besta na cena com Circe. Ela diz que os homens de Ulisses a teriam
violado e matado — que são uns porcos. Depois chega-se ao fim e vê-se o saque
de Tróia e o horror do que fizeram. Ela tem razão.”
Nem ela tem razão nem a “ideia
do homem como besta” é um eixo significativo na obra clássica. Mas não
satisfeito com este desvio transformista, Nolan respondeu de seguida:
“Circe expressa isso muito
bem no filme. Adorei a forma como Samantha [Morton] interpretou o papel.
Falando sobre as escolhas de adaptação, o final do poema é tão sombrio e
misógino que tive de excluir parte desse material. Mas não queria descartá-lo
completamente em termos do que ele diz sobre os homens e a forma como travam
guerras.”
É espantoso o critério do cineasta, que escolhe livremente e sem pudor as partes que mais agradam à ideologia neoliberal contemporânea, e exclui, num atentado terrorista contra o legado da literatura homérica, os elementos que não compaginam com o “bem pensar” das elites de Hollywood.
O precedente que aqui se abre,
se refletirmos com alguma profundidade na ousadia pesporrente de Nolan, é
trágico. Há gente que a partir daqui se vai sentir justificada em pegar nas
obras clássicas e decepá-las daquilo que não lhes agrada à sensibilidade. Basta
pensar, por exemplo no que rapidamente pode acontecer à obra de Shakespeare:
Hamlet sem a caveira, Ricardo III sem a marreca, Julieta com pelos no peito,
Romeu com problemas de ansiedade, Macbeth com Transtorno de stress
Pós-Traumático.
De seguida, Nolan foi
questionado sobre a possibilidade de dar a Ulisses e Penélope um final mais
feliz do que o encontrado na epopeia de Homero.
“Bem, trata-se da queda da
civilização, por isso há uma sensibilidade bastante sombria. O final fala de
ciclos, e pode-se encarar os ciclos de forma pessimista: a história está
condenada a repetir-se. Mas também há algo de optimista nestes ciclos. Como diz
Penélope, ‘A civilização ressurgirá’. Há renascimento e crescimento. Para mim,
foi importante, ao analisar o final, tentar encontrar o equilíbrio certo entre
pessimismo e optimismo — pessimismo sobre o que pode ter precipitado a
catástrofe da Idade do Bronze e optimismo de que as coisas positivas se
reafirmarão.”
A Odisseia não é uma obra que
se debruce sobre a “queda da civilização” (onde é que Nolan foi buscar esta?) e
não cabe a quem conta a milenar história “encontrar o equilíbrio certo entre
pessimismo e optimismo” ou coisa que o valha. Mesmo que tivesse patamar moral
ou talento filosófico para o fazer, e Nolan não tem nada disso, não cabe ao
contador da história que é, sim, fundadora da civilização helénica, adulterá-la
quatro mil anos depois, de acordo com a sensibilidade efeminada de Beverly
Hills.
A adaptação de Nolan recebeu
críticas pelas surrealistas escolhas de casting, uso de um inglês
americanizado, desqualificado e contemporâneo, discutível autenticidade
histórica, cinematografia sombria e desrespeito pelo legado homérico, desgraças que
já foram documentadas no
ContraCultura.
Os críticos, como Will Jordan
(‘Critical Drinker‘), cuja recensão dedicada ao filme
deixamos em baixo, também sublinharam o facto do cineasta ter, para todos os
efeitos, assassinado Ulisses e a sua intemporal aura, anulando o herói
confiante, engenhoso e triunfante do poema original, para o destratar como um
traumatizadinho da guerra, que carrega, deprimido e desconsolado, toda a culpa,
todo o fardo do homem branco, pelas praias do Mediterrâneo afora.
Título, Imagem e Texto: Paulo
Hasse Paixão, ContraCultura,
27-7-2026
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