segunda-feira, 27 de julho de 2026

[Sétima Arte] Christopher Nolan admite ter adulterado 'A Odisseia' por considerar o seu conteúdo "misógino"

Paulo Hasse Paixão

Num ataque de incomensurável pretensão, Christopher Nolan assumiu a costela woke e admitiu ter alterado o final da sua adaptação de ‘A Odisseia’ porque acreditava que a conclusão original de Homero para a história era demasiada “misógina”.

Ou seja, Nolan sabe melhor do que Homero como terminar uma epopeia. Uau!

Em entrevista à revista Time, Nolan discutiu as diferenças entre o filme e o material original e aprofundou a sua interpretação da obra. Às páginas tantas, o entrevistador comentou:

“Também se vê esta ideia do homem como besta na cena com Circe. Ela diz que os homens de Ulisses a teriam violado e matado — que são uns porcos. Depois chega-se ao fim e vê-se o saque de Tróia e o horror do que fizeram. Ela tem razão.”

Nem ela tem razão nem a “ideia do homem como besta” é um eixo significativo na obra clássica. Mas não satisfeito com este desvio transformista, Nolan respondeu de seguida:

“Circe expressa isso muito bem no filme. Adorei a forma como Samantha [Morton] interpretou o papel. Falando sobre as escolhas de adaptação, o final do poema é tão sombrio e misógino que tive de excluir parte desse material. Mas não queria descartá-lo completamente em termos do que ele diz sobre os homens e a forma como travam guerras.”

É espantoso o critério do cineasta, que escolhe livremente e sem pudor as partes que mais agradam à ideologia neoliberal contemporânea, e exclui, num atentado terrorista contra o legado da literatura homérica, os elementos que não compaginam com o “bem pensar” das elites de Hollywood.

O precedente que aqui se abre, se refletirmos com alguma profundidade na ousadia pesporrente de Nolan, é trágico. Há gente que a partir daqui se vai sentir justificada em pegar nas obras clássicas e decepá-las daquilo que não lhes agrada à sensibilidade. Basta pensar, por exemplo no que rapidamente pode acontecer à obra de Shakespeare: Hamlet sem a caveira, Ricardo III sem a marreca, Julieta com pelos no peito, Romeu com problemas de ansiedade, Macbeth com Transtorno de stress Pós-Traumático.

De seguida, Nolan foi questionado sobre a possibilidade de dar a Ulisses e Penélope um final mais feliz do que o encontrado na epopeia de Homero.

“Bem, trata-se da queda da civilização, por isso há uma sensibilidade bastante sombria. O final fala de ciclos, e pode-se encarar os ciclos de forma pessimista: a história está condenada a repetir-se. Mas também há algo de optimista nestes ciclos. Como diz Penélope, ‘A civilização ressurgirá’. Há renascimento e crescimento. Para mim, foi importante, ao analisar o final, tentar encontrar o equilíbrio certo entre pessimismo e optimismo — pessimismo sobre o que pode ter precipitado a catástrofe da Idade do Bronze e optimismo de que as coisas positivas se reafirmarão.”

A Odisseia não é uma obra que se debruce sobre a “queda da civilização” (onde é que Nolan foi buscar esta?) e não cabe a quem conta a milenar história “encontrar o equilíbrio certo entre pessimismo e optimismo” ou coisa que o valha. Mesmo que tivesse patamar moral ou talento filosófico para o fazer, e Nolan não tem nada disso, não cabe ao contador da história que é, sim, fundadora da civilização helénica, adulterá-la quatro mil anos depois, de acordo com a sensibilidade efeminada de Beverly Hills.

A adaptação de Nolan recebeu críticas pelas surrealistas escolhas de casting, uso de um inglês americanizado, desqualificado e contemporâneo, discutível autenticidade histórica, cinematografia sombria e desrespeito pelo legado homérico, desgraças que já foram documentadas no ContraCultura.

Os críticos, como Will Jordan (‘Critical Drinker‘), cuja recensão dedicada ao filme deixamos em baixo, também sublinharam o facto do cineasta ter, para todos os efeitos, assassinado Ulisses e a sua intemporal aura, anulando o herói confiante, engenhoso e triunfante do poema original, para o destratar como um traumatizadinho da guerra, que carrega, deprimido e desconsolado, toda a culpa, todo o fardo do homem branco, pelas praias do Mediterrâneo afora.

Título, Imagem e Texto: Paulo Hasse Paixão, ContraCultura, 27-7-2026


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