Chama-se Nicarágua. Prenderam a oposição, calaram a Igreja e acabaram com o voto. No Brasil, o roteiro só mudou de sotaque
Rogerio Pires
Daniel Ortega cansou de
fingir.
No domingo, diante de milhares
de apoiadores reunidos em Manágua para celebrar os 47 anos da Revolução
Sandinista, o ditador da Nicarágua anunciou, sem meias palavras, que o país não
terá mais eleições. “Não haverá mais eleições aqui para que eles tentem tomar o
governo e o poder”, disse, referindo-se à oposição, que ele acusa de servir aos
Estados Unidos.
Não é uma ameaça velada. É um
plano de governo.
O homem que está no comando
desde 2007 acabou de sepultar a última encenação democrática que ainda restava.
E fez isso com a naturalidade de quem comenta o tempo, ao lado da mulher,
Rosário Murillo, hoje elevada ao cargo de “copresidenta” por uma reforma
constitucional feita sob medida.
Para chegar até aqui, Ortega
seguiu um roteiro conhecido. Primeiro vieram os opositores: presos, exilados,
alguns até despojados da própria nacionalidade. Depois, a Igreja: padres e
bispos expulsos, entidades religiosas fechadas, fiéis vigiados. Em 2018, quando
o povo foi às ruas, o regime respondeu com mais de 300 mortos. Hoje, o casal
controla o Judiciário, as Forças Armadas e o Parlamento. Uma ditadura de
família, sem pudor.
Isso te lembra alguma coisa?
Antes que alguém diga que é
longe demais, um detalhe incômodo: Ortega não é um ponto fora da curva. Ele
pertence à mesma família ideológica que governa boa parte da América Latina, a
mesma que, no Brasil, costuma tratar regimes assim com uma delicadeza que
jamais dispensa aos adversários de direita. Quando a ditadura é de esquerda, o
crime vira “processo” e o tirano vira “companheiro em dificuldades”.
E aqui dentro, como estamos?
O Brasil trilha, em ritmo mais
lento e com melhor maquiagem, um caminho que rima com o da Nicarágua. A
diferença está no método. Lá, acabaram com as urnas. Aqui, mantiveram as urnas
e foram tirando do jogo quem incomoda.
O maior nome da oposição foi
condenado pelo Supremo Tribunal Federal a 27 anos e 3 meses de prisão, por uma
suposta tentativa de golpe juridicamente frágil e politicamente conveniente.
Está inelegível desde 2023. Cumpre pena em prisão domiciliar. E, por decisão do
ministro Alexandre de Moraes, está proibido de participar de atos
político-eleitorais e de divulgar esse tipo de manifestação até o fim das
eleições de 2026. Ou seja: silenciado justamente no ano em que o país vai às
urnas.
Repare no desenho. Não foi
preciso cancelar a eleição. Bastou remover o principal adversário antes do
apito inicial.
Quando um tribunal, e não o
eleitor, decide quem pode ou não disputar o poder, a democracia não cai com
estrondo. Ela sai discretamente pela porta dos fundos, enquanto boa parte da
imprensa segura a porta e pede silêncio.
Vale lembrar que nem tudo foi
unânime. No próprio julgamento, o ministro Luiz Fux votou pela anulação do
processo, por entender que o STF sequer era o foro competente para julgar o
caso. Guarde esse detalhe. Ele diz muito.
A pergunta que fica não é
confortável, mas é necessária. O que separa a Nicarágua de hoje do Brasil de
amanhã? Ortega precisou de quase duas décadas e de muita truculência para
chegar ao ponto de dizer, em voz alta, que acabou com o voto. Que aqui jamais
se chegue a esse ponto. Mas democracia não se defende com torcida. Defende-se
com vigilância.
Acorde. O que você vê
acontecendo em Manágua não é um filme estrangeiro. É um alerta. E alertas
existem para serem levados a sério antes, e não depois.
Título, Imagem e Texto: Rogerio
Pires, Timeline,
21-7-2026

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