sexta-feira, 24 de julho de 2026

[Aparecido rasga o verbo] Avesso

Aparecido Raimundo de Souza

HOJE, por volta das cinco da manhã, acordei e vesti a camisa do lado avesso. Não percebi na hora, só quando fui tomar meu café, capturei o reflexo do armário de vidro que me fez a gentileza de me mostrar a etiqueta dura grudada no pescoço, a costura fina correndo ao longo do peito como uma ferida que não sangra mais. Fiquei olhando para mim mesmo um minuto, e então pensei: não é a primeira coisa, hoje, que está do lado errado. A vida tem dessas tiradas. A gente passa décadas andando pelo lado direito de tudo: a roupa bem passada, os filhos na escola, o trabalho na hora certa, a esposa arrumando a gravata antes de eu sair, o mundo alinhado como as toalhas no armário dela, junto com as calcinhas de um lado e as minhas cuecas do outro. Tudo tem uma face para fora, uma face limpa, sem nó, sem costura aparecendo. É a face que os outros veem, a que a gente mesmo aprende a considerar como a verdadeira.

E então, um dia, sem aviso, sem ninguém virar a chave, a gente acorda no avesso. Os pequenos avessos chegam primeiro. A meia que se calça com a costura para fora e só percebe depois de caminhar três quarteirões para pegar o ônibus superlotado. A fronha que ficou com o feio virado para cima, e não se teve mais força para trocar. O lençol que se amassou todo por baixo, na noite de insônia, e quando a gente acorda parece que, ao ter tirado uma trepada com a mulher, deixou, ou ficou a impressão de que ela dormiu dentro de um nó. Antes, ela percebia tudo isso. Um olhar só, e já esticava a gola da minha camisa, acertava o meu pinto murcho dentro da cueca, virava a meia paro o lado direito, arrumava a cama desfazendo os desacertos da foda enquanto eu tomava o primeiro gole de café e comia um pedaço e bolo de chocolate. Hoje, os avessos pequenos ficam lá, permanecem quietos, como se a casa também tivesse desistido de fingir que tudo está perfeito.

Depois chegam os avessos grandes, os que doem de verdade. Os nossos filhos, que um dia corriam atrás pelo jardim gritando “papai, espera”, agora somos nós que ficamos esperando o telefone deles tocar, uma vez por semana, para dizer que estão bem. Os netos, que subiam no meu cangote como se eu fosse uma árvore segura, agora passam ao abraço rápido e já voltam para o celular, como se o meu colo tivesse ficado pequeno demais para o universo deles. O trabalho, que por bons punhados de anos foi o centro do meu dia, a razão de acordar cedo, de suar, de lutar, de me sentir útil, hoje é só um diploma na parede da sala, ao lado de um relógio cuco que parou, uma história que a gente conta e os mais novos ouvem com educação, sem entender realmente o tamanho daquela vitória. Até o tempo virou do avesso. Até bem pouco tempo, os dias se faziam longos, demoravam a acabar.

Tinha trabalho, tinha jogo de futebol na rua, tinha jantar em família, tinha conversa na calçada com os vizinhos, tinha noites para beber e rir até doer a barriga. E depois, a mulher toda melosa, carente de uma trepada pulava fogosa para cima querendo pica O tempo parecia infinito. Hoje, os dias passam como um piscar de olhos. Acordo, tomo café, olho pela janela, e, de repente, já é entardecer de novo. Mas as lembranças... ah, essas ficaram longas, se distenderam demais. Uma lembrança de um domingo de dois meses atrás demora mais a passar do que a semana inteira que estou vivendo agora. O que era para ficar para trás veio para a frente. O que era para ser presente virou uma sombra rápida que não consigo agarrar. Puta que me pariu! Até o amor, pasmem, até o amor vive hoje na banda avessa. Em tempos idos, ele era feito de toques sutis: a mão da minha mulher na minha, enquanto bolinávamos as nossas intimidades e assistíamos televisão.

Os beijos demorados, uma chupada no grelo, o meu pau dentro, de repente, umas dedadas na bundinha dela e a minha linda esposa liberando uns gritinhos histéricos, antes de irmos definitivamente para o quarto dormir. Os abraços que duravam mais do que deviam, o calor do corpo dela do lado do meu esquentando as turbinas na cama fria. Hoje, o amor é feito de ausências. É o lugar vazio na mesa do jantar, é o perfume dela que ainda ficou no armário, é a mancha de batom em um copo que eu não vejo lavado pelo menos a uns três dias. Enfim, é a forma exata como ela dobrava as roupas, que eu tento copiar e nunca consigo igualar. O amor que era fora, visível, que todo mundo via, hoje é todo dentro, costurado no peito, do lado que ninguém percebe. É um avesso quente, que me mantém vivo nas noites intermináveis. Eu pensava que o avesso fosse sempre o lado errado. O lado feio, o que tem que ser escondido, o que dá vergonha de mostrar.

Mas hoje, vestido com a gola da etiqueta para fora, eu entendo: o lado direito da vida é só o cenário. É o que a gente apresenta para o mundo. As vitórias, as festas, as fotos em família, os dias de glória, as chupadas e as mamadas, tudo isso é a face bonita, alinhada, sem um nó sequer. Mas o que realmente somos, o que realmente fica, está tudo no avesso. Está também nas dores que a gente calou para não preocupar ninguém. Está nas lágrimas que secaram escondidas no banheiro, no dia que o pai dela morreu, no instante em que a nossa filha saiu de casa para morar em outra cidade. E pior, com outra mulher. Tudo está nos avessos bem ainda se condensa nos amores que não se contam, nos pequenos sacrifícios que ninguém elogiou, nas noites que eu fiquei acordado preocupado com as contas que não tinha dinheiro para pagar, nas vezes que perdoei sem dizer nada, nas vezes que amei mesmo sem ser amado de volta.

Todas essas coisas são as costuras invisíveis que seguram a nossa vida inteira. Elas não aparecem do lado direito. Mas se elas não existissem, se elas não fizessem parte de um cotidiano turbulento, tudo desmancharia no primeiro vento que sacudisse as cortinas. Arrumei a camisa, finalmente. Virei a infeliz para o lado direito, a etiqueta desapareceu, a costura ficou escondida por dentro.  Permaneceu um pequeno vinco no ombro, tipo uma marca do tempo em que ela passou invertida. E eu deixei lá. Foda-se. Não quis passar o ferro. Não quis, porque na verdade aprendi, com esses anos todos, que viver no avesso não é um castigo. É a forma que a vida encontra de nos mostrar o que realmente importa. Quando tudo está alinhado, a gente não percebe o valor das pequenas coisas. Só quando tudo vira, só quando o silêncio ocupa os espaços que antes eram de gritos e risadas, só quando a saudade fica mais forte que a presença, meu Deus, é então nessa hora, que entendemos: todas as coisas boas que ficaram no passado não foram embora.

Elas só mudaram de lado. Estão, a bem da verdade, do lado certo. Do lado correto. Estão agora do avesso, mas do avesso da minha pele, melhor dito, estão do lado de dentro, bem pertinho do meu coração. Onde o tempo não pode desfazer, ainda que tente mil vezes. Onde ninguém mais pode tirar, ou mesmo tocar. Onde, quando no momento em que fecho os olhos, ainda sou o jovem forte, o marido amado, o pai herói, o avô querido. Onde tudo ainda existe, vivo, quente, pulsante, real, porra, mesmo que para o resto do mundo, tudo pareça estar torto, ou do lado errado. Entendo que talvez a velhice que agora me abraça, me definha, e tenta me paralisar os passos, seja mesmo isso: finalmente o viver no lado verdadeiro da vida. O lado que só quem já vestiu muita roupa, já viveu muito amor, já perdeu muita coisa e já ganhou, pode enxergar. O avesso. O nosso. O que ninguém mais pode sequer mexer ou tentar consertar.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Vila Velha, ES, 24-7-2026

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